Portugal

Presentes do Benfica a árbitros reacendem (ou deveriam) discussão ética

Quando uma equipe de arbitragem chega ao estádio da Luz para trabalhar num jogo do Benfica, encontra mais do que um vestiário devidamente limpo e organizado, com as frutas, bebidas e sucos de praxe. Árbitro, assistentes, observadores e delegado da Liga têm à disposição, cada um, uma caixa personalizada com imagens e dados históricos de Eusébio e uma camisa retrô do clube. O kit conta ainda com quatro ingressos para o museu do clube e quatro vouchers para um jantar.

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O assunto foi levado à tona nas últimas semanas pelo presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, em uma entrevista ao canal TVI. Pelas contas dele, somando 40 jogos na temporada doméstica (17 da equipe principal e 23 do time B), os encarnados gastam € 170,7 mil por ano com os presentes aos árbitros.

A “denúncia” de Bruno de Carvalho, embora claramente de motivação clubística (falaremos sobre isso mais adiante), reacendeu – ou pelo menos ameaçou fazer isso – uma discussão que, vez ou outra, reaparece no mundo do futebol: árbitros podem ou não receber presentes dos clubes? Nem Benfica, nem a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol desmentiram as acusações do presidente sportinguista. A entidade, aliás, promete até processá-lo por difamação, já que ele falou em aliciamento dos homens do apito por parte dos encarnados.

A própria associação afirma existir um código de conduta proposto pela Uefa, que reza que os árbitros podem aceitar presentes, desde que o valor destes não ultrapasse € 183. Porém, a própria entidade, assim como a Associação de Ligas Europeias e a Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol (FIFpro) desaconselham a prática. Em um trecho do código de conduta assinado em conjunto pelas entidades, a mensagem é: “não se deixe manipular, diga não a prendas, dinheiro ou apoio.”

O costume de presentear árbitros é comum e passa longe de ser uma exclusividade do Benfica. Segundo apuração do site português Mais Futebol, clubes menores de Portugal também assumem a mesma prática. O Sporting Covilhã oferece queijos, o Desportivo Chaves dá cestas com alimentos embutidos, e o Desportivo Aves presenteia com garrafas de vinho. O próprio Sporting, assim como o Porto, eventualmente oferece camisas de treino – e, quando o árbitro pede (o que não é raro), camisas de jogo.

O ex-árbitro Pedro Proença, agora presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, admitiu que possui uma coleção com cerca de 500 camisas de times, ganhas ao longo da carreira. “Isso faz parte do futebol”, justificou. Reconhecido como um dos melhores árbitros da história do futebol português, ele só fez a “confissão” depois da insistência dos jornalistas. Antes, Proença havia desconversado sobre o tema, dizendo que só tinha medalhas entregues oficialmente aos árbitros que apitam finais de campeonatos.

O barulho promovido por Bruno de Carvalho a respeito do tema fez com que a Federação Portuguesa de Futebol acionasse, ao mesmo tempo, o Ministério Público e a Justiça Desportiva. A entidade não quis fazer juízo de valor a respeito das declarações do mandatário sportinguista: preferiu passá-las à frente e aguardar as investigações. A tendência, ao menos por enquanto, é de que o Benfica seja multado pela Comissão Disciplinar por causa dos jantares – a Justiça Comum deve demorar um pouco mais para analisar os fatos.

Mas o próprio alarde feito por Bruno de Carvalho não pode passar despercebido, como se fosse apenas uma benfeitoria dele ao futebol português. É evidente que o leonino lançou a informação de maneira pensada, às vésperas do clássico entre os rivais de Lisboa. Marcado para 25 de outubro, será a primeira vez que Jorge Jesus irá ao estádio benfiquista como técnico do Sporting, num jogo que promete ser muito quente.

O presidente alviverde é especialista em criar polêmicas e tentar desestabilizar adversários via declarações na imprensa. Às vezes, ele acerta em cheio e, em outras, exagera na dose. Agora, levantou um assunto importante, que merece ser investigado e, principalmente, precisa virar motivo de reflexões: primeiro, que Bruno de Carvalho não fez isso porque é “bonzinho” e paladino da justiça; segundo, que embora seja inviável imaginar um árbitro, neste nível de competição, favorecendo um clube em troca de presentes, esse tipo de conduta pode (e deve) ser evitada.

Ao Benfica, a todos os demais clubes e aos homens da arbitragem, deveria valer o ditado sobre a mulher de César: não basta ser honesto, é preciso também parecer honesto.

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