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[Players’ Tribune] O filho, o pai e o sonho de menino: Cristiano Ronaldo reconta sua história no futebol

O menino humilde que deixa de jogar futebol nas ruas para se tornar o melhor do mundo. O enredo da história pode até soar como clichê, mas é tão verdadeiro. Tão inerente ao futebol que ocupa a mente de tantos meninos que jogam bola nas ruas. E que podem se inspirar em Cristiano Ronaldo. De uma infância comum, o garoto uniu talento à sua obstinação para se tornar um grande jogador. Conseguiu. Virou motivo de orgulho, não só para a sua família, mas também para quem compartilhou a trajetória mágica. Mais do que merecida.

Nesta terça, Cristiano Ronaldo foi mais um jogador profissional a assinar um texto para o site americano The Players’ Tribune. Reconta sua passagem da Ilha da Madeira até o estrelato no Real Madrid. Mais importante, ressaltando a devida importância de seus familiares. O texto original está disponível em espanhol ou inglês. Abaixo, traduzimos na íntegra para o português.

*****

Tenho uma forte lembrança de quando tinha sete anos. Tão forte que, se fecho os olhos, eu a imagino e me emociono. Tem a ver com a minha família.

Eu tinha acabado de começar a jogar futebol seriamente. Antes, só jogava nas ruas da Ilha da Madeira com meus amigos. E quando eu digo rua, não me refiro a uma viela vazia. Quero dizer uma rua. Não tínhamos gols nem nada, e tínhamos que parar a partida a cada vez que passava um carro. Eu era muito feliz assim, mas meu pai era o roupeiro do Andorinha FC, e não parava de me motivar a jogar com a filial da equipe. Eu sabia que isso o faria se sentir orgulhoso, assim eu fui.

No primeiro dia, havia um montão de regras que eu não entendia, mas isso me encantou. Eu me empolguei com a organização e a sensação de ganhar. Meu pai estava sempre lá, à beira do campo, com sua barba e o seu uniforme de trabalho. Aquilo o maravilhava. Mas para a minha mãe e para as minhas irmãs, o futebol não as interessava.

A cada noite, durante o jantar, meu pai tratava de convencê-las para que viessem me ver jogando. Ele foi meu primeiro empresário. Quando chegávamos em casa depois das partidas, ele dizia: “Cristiano fez um gol!”.

E elas respondiam, “ah, muito bem”, mas não pareciam muito emocionadas.

Na vez seguinte, ele chegou em casa e disse: “Cristiano fez dois gols!”.

Nada, zero emoção. Só dizia: “Que bom, Cris”.

Cristiano Ronaldo, do Real Madrid (Photo by Denis Doyle/Getty Images)

O que eu fiz? Segui marcando e marcando.

Uma noite, meu pai chegou em casa e disse: “Cristiano marcou três gols! Foi incrível! Vocês precisam vir vê-lo jogar!”.

Eu seguia olhando para o lado do campo antes de cada partida e via ali o meu pai, de pé, sozinho. Até que um dia – jamais me esquecerei desta imagem – enquanto eu me aquecia, voltei a olhar como sempre e ali estavam minha mãe e minhas irmãs, sentadas nas arquibancadas. Parecia… Como vou dizer? Parecia que estavam cômodas. Estavam abraçadas, e não aplaudiam nem gritavam, apenas me saudavam, como se aquilo fosse um desfile ou algo assim. Notava-se que nunca haviam ido a uma partida de futebol. Mas estavam ali, e isso era o único que me importava.

Eu me senti tão bem neste momento. Significou muito para mim. Algo mudou dentro de mim. Eu me senti orgulhoso. É certo que não tínhamos muito dinheiro nesta época. A vida não era fácil na Ilha da Madeira. Eu costumava jogar com chuteiras velhas que herdava do meu irmão ou que meus primos me emprestavam. Mas quando você é um menino, não se preocupa com dinheiro. Só se preocupa em se sentir de uma determinada maneira. E, naquele dia, eu me senti assim. Eu me senti protegido e querido. Como costumamos dizer em português, o menino querido da família.

Eu me recordo desta época com nostalgia, porque durou pouco. O futebol me deu tudo, mas também me tirou de casa quando não estava realmente preparado. Tinha 11 anos no dia em que me mudei da ilha para a academia do Sporting. Foi a etapa mais difícil da minha vida.

Isso me parece uma loucura quando recordo. Meu filho, Cristiano Junior, tem sete anos neste momento. Só de pensar como me sentiria se, dentro de quatro anos, estivesse ajudando-o a fazer as malas para mandá-lo a Paris ou Londres… prefiro nem imaginar. Estou seguro de que, para meus pais, foi muito duro na época.

cristiano

Mas eu tinha um sonho e aquela era a minha oportunidade para cumpri-lo. Assim que me deixaram ir, eu fui. Chorei quase todos os dias. Seguia em Portugal, mas foi como se me mudasse a outro país. Inclusive o sotaque fazia com que parecesse um idioma diferente. A cultura era diferente. Eu não conhecia ninguém. Minha família só podia se permitir vir me ver a cada quatro meses, mais ou menos. Sentia tanta falta que todos os dias eram dolorosos.

O futebol me ajudou a seguir em frente. Eu sabia que era capaz de fazer coisas no campo que outros garotos da academia não podiam. Eu me recordo da primeira vez que ouvi um deles dizer a outro: “Viu o que ele acaba de fazer? É um monstro”.

Comecei a escutar isso de menino. Inclusive dos treinadores. Mas sempre havia alguém que dizia: “Sim, mas é uma pena que seja tão pequeno”.

E é verdade, eu era muito magro. Não tinha músculos. Assim, aos 11 anos tomei uma decisão. Já sabia que tinha mais talento que os demais. Neste momento, decidi que também ia trabalhar muito mais duro que eles. Já não ia jogar como um menino. Já não ia me comportar como um menino. Ia treinar com a convicção que ia me tornar o melhor do mundo.

Não sei de onde vem este sentimento. É algo que está dentro de mim, é como uma sensação de fome que nunca se vai. Quando você perde, é como se estivesse morrendo de fome. E quando ganha, também está morrendo de fome, mas comeu uma migalha de pão. Essa é a única maneira que posso explicar.

Comecei a escapar do dormitório à noite para treinar. Eu fiquei mais forte e mais rápido. Então, quando saía ao campo, aqueles que diziam que eu era demasiadamente pequeno me olhavam surpresos, como se o mundo caísse sobre eles e não dissessem nada.

Quando tinha 15 anos, me aproximei de alguns dos meus companheiros durante o treinamento. Eu recordo claramente. Eu disse: “Algum dia serei o melhor jogador do mundo”.

Eles riram. Eu não estava sequer na equipe principal do Sporting, mas realmente pensava isso. Dizia totalmente sério.

Cristiano Ronaldo do Real Madrid (Photo by Gonzalo Arroyo Moreno/Getty Images)

Quando comecei a jogar profissionalmente, aos 17 anos, minha mãe mal podia ver as partidas por estresse. Costumava me ver no antigo José Alvalade, e ficava tão nervosa durante os jogos importantes que desmaiou várias vezes. Seu médico começou a receitar tranquilizantes para as minhas partidas.

Eu costumava dizer: “Você se lembra quando o futebol não te importava?” 😉

Comecei a sonhar grande. Cada vez maior. Queria jogar na seleção e no Manchester United, porque assistia à Premier League na televisão a cada final de semana. Eu me fascinava pela velocidade em que jogavam e pelos cânticos da torcida. O ambiente me fazia arrepiar. Quando eu me converti em jogador do Manchester, foi um momento de máximo orgulho para mim. Mas creio que foi mais para a minha família.

A princípio, ganhar troféus era muito emocionante para mim. Eu me lembro de quando ganhei minha primeira Champions com o Manchester, as emoções me superaram. O mesmo com a primeira Bola de Ouro. Mas meus sonhos eram cada vez maiores. Suponho que assim funcionam os sonhos, não? Eu sempre havia admirado o Real Madrid e queria um novo desafio. Queria ganhar troféus com o Real Madrid, quebrar todos os recordes e me converter em uma lenda do clube.

Durante os últimos oito anos, consegui coisas incríveis em Madri. Mas, para ser sincero, a sensação ao ganhar troféus é diferente à medida que minha carreira se passou. Especialmente nos últimos anos. No Real Madrid, se não ganhas tudo, há gente que considera isso um fracasso. Essas são as expectativas que geram a grandeza. Esse é o meu trabalho.

Quando você é pai, a sensação é completamente diferente. Uma sensação que não posso descrever. É por isso que meu tempo no Real Madrid tem sido especial. Fui jogador, sim, mas também fui pai.

Cristiano Ronaldo, do Real Madrid (Photo by Denis Doyle/Getty Images)

 

Há um momento com meu filho que ficará gravado para sempre em minha memória.

Quando me lembro, eu me emociono.

Este momento acontece logo depois de ganhar a final da Champions em Cardiff. Acabávamos de fazer história. Depois do apito final, senti que havia mandado uma mensagem ao mundo. Mas então meu filho entrou em campo para celebrar comigo… e a emoção mudou instantaneamente. Ele estava correndo de um lado para o outro com o filho do Marcelo. Agarramos o troféu juntos. E depois passeamos pelo campo de mãos dadas.

É uma alegria que jamais havia sentido até ser pai. São tantas as emoções se passando ao mesmo tempo que é impossível descrever com palavras o que senti. Só posso comparar com aquele momento na Madeira, quando estava me aquecendo no campo e vi minha mãe e as minhas irmãs juntas nas arquibancadas.

Quando voltamos ao Bernabéu para celebrar, Cristiano Junior e Marcelinho estavam jogando no campo, diante de todos os madridistas. A cena não tem nada a ver com a que eu vivi na sua idade, jogando nas ruas, mas espero que meu filho se sinta como eu me sentia nestes momentos. Menino querido da família.

Depois de 400 partidas com o Real Madrid, ganhar segue sendo minha máxima ambição. É tudo para mim. Creio que nasci sendo assim. Mas a sensação de quando ganho mudou. Este é um novo capítulo na minha vida. Tenho uma mensagem muito especial gravada nas minhas novas chuteiras. Está no calcanhar e é a última coisa que vejo antes de amarrar os cadarços.

“O sonho do menino”.

Talvez agora você entenda tudo.

Ao final, é claro, minha missão segue sendo a mesma. Quero seguir quebrando todos os recordes com o Real Madrid. Quero ganhar todos os títulos possíveis.

Esta é minha natureza. Esta é minha forma de ser.

Mas o que mais recordarei do meu tempo em Madri, e o que direi aos meus netos quando tiver 95 anos, é o que senti caminhando sobre o gramado de mãos dadas com meu filho, sendo campeão.

Espero que possamos repetir em breve.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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