Portugal

Chamado de “mágico”, Deco marcou sua história em Portugal

O ano era 1998. Um quase desconhecido jogador brasileiro, que havia sido levado a Portugal pelo Benfica, mas que nunca vestira a camisa encarnada, fazia seu primeiro treino pelo pequeno Salgueiros. Era a segunda temporada do rapaz no futebol português –emprestado pelo Benfica, havia jogado anteriormente pelo Alverca, espécie de clube satélite das águias. Sua ligação com os encarnados tinha acabado quando o clube o negociou em definitivo com o Salgueiros.

E quem estava naquele treinamento percebeu logo de cara o quanto aquele jovem brasileiro era promissor. “Ele não vinha com status de craque. Mas no primeiro treino notou-se logo a diferença para os outros jogadores. Até nos perguntamos o que ele fazia lá. Sabíamos que ficaria por pouco tempo”, relata Paulinho, zagueiro do Salgueiros e testemunha da história.

O jogador em questão é Deco, que nesta segunda-feira (26), véspera do seu aniversário de 36 anos de idade, anunciou o fim da carreira. Atleta do Fluminense desde 2010, alegou que queria continuar, mas que os músculos não aguentavam mais.

Deco é um dos grandes ídolos da história do Porto. Estava no time campeão europeu de 2003/04 e fez gol na final contra o Mônaco. Para ele, a torcida cantava “É o número 10, finta com os dois pés, é melhor que o Pelé, é o Deco allez allez”.

Deco é também, possivelmente, um dos maiores erros da história do Benfica, clube que o descobriu jogando a Copa São Paulo de Juniores, mas que o deixou escapar para transformar-se em gigante no rival.

Deco é ainda um emblemático caso de brasileiro que se naturalizou para defender a seleção de outro país. Preterido por Luiz Felipe Scolari para a Copa do Mundo de 2002, tornou-se português no ano seguinte e – ironia do destino – brilhou justamente sob o comando de Felipão. Para vestir a camisa do time das quinas, teve de mostrar talento e vencer preconceitos sérios, como o de Figo.

Era o mágico, apelido que recebeu em terras lusitanas e do qual o Porto fez questão de lembrar em sua nota de agradecimento ao jogador, nesta semana: “Deste ainda mais magia à história do Porto. Obrigado, Deco”.

No Porto, esteve em campo por 18.837 minutos. Foram 229 partidas (214 das quais como titular), que resultaram em 155 vitórias, 40 empates, 34 derrotas e 48 gols marcados. Além da Liga dos Campeões, ganhou uma Copa da Uefa e foi tricampeão nacional, da Taça de Portugal e da Supertaça de Portugal. E eleito o melhor jogador da Europa em 2003/04.

Na seleção, Deco também brilhou. A incrível ironia do destino (olha ela aí de novo) fez com que ele estreasse justamente num jogo contra o Brasil, em março de 2003. Entrou em campo aos 17 minutos do segundo tempo, em lugar de Sérgio Conceição. Aos 37, sofreu a falta que resultaria no gol da vitória por 2 a 1, marcado por ele próprio.

O gol perante o Brasil foi um dos cinco que Deco fez vestindo a camisa do time das quinas. O meia foi o 11º jogador que mais vezes atuou pela seleção portuguesa: 75 vezes, sendo 62 delas como titular. Foram 46 vitórias, 17 empates e 12 derrotas. Disputou a Eurocopa em 2004 (vice-campeão) e 2008 e a Copa do Mundo em 2006 e 2010.

Deco não é unanimidade em Portugal. Embora a qualidade do seu jogo seja indiscutível, há quem veja sua naturalização como golpe de oportunismo por não ter a chance de jogar pelo Brasil. Mas é fato que Deco, goste-se ou não, é o autor de um importante capítulo da história do futebol português. Que já está inteiramente escrito.

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