Portugal

Herói da Euro, Eder teve o pai preso por assassinato e considerou suicídio

Sabíamos que Eder, o herói de Portugal na final da Eurocopa contra a França, com um golaço de fora da área, havia passado por várias dificuldades antes de chegar ao Stade France. Natural de Guiné-Bissau, enfrentou os problemas de ser imigrante, foi criado em um orfanato e começou a jogar futebol profissionalmente com um salário de aproximadamente R$ 1,5 mil por mês. Mas houve pedras ainda maiores no seu caminho.

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Em entrevista ao jornal inglês Daily Mail, Eder contou que seu pai cumpre sentença desde 2003 em uma prisão inglesa pelo assassinato da sua parceira, a madrasta do jogador, e que, nos momentos mais complicados, até mesmo recentes, pensou em cometer suicídio.

Um júri de Norwich considerou que Filomeno Antonio Lopes, pai de Eder, buscou sua parceira, Domingas Olivais, no trabalho, acertou-a na cabeça com uma chave de roda, estrangulou-a e jogou seu corpo em um rio. Ele alega inocência. Diz que foi comer no McDonalds depois de deixar Domingas no hotel, mas imagens de câmeras de segurança não corroboram sua história.

“Eu tinha 12 anos e estava em um orfanato”, disse Eder, que foi deixado no orfanato porque seus pais não tinham condições de criá-lo. “Minha madrasta estava morta, acusavam meu pai de tê-la matado e ele estava preso. Eu não estava lá e não posso dizer o que aconteceu. Mas meu pai diz que é inocente. É uma questão que exige muita busca espiritual. Ele é meu pai e acredito nele. Não estou dizendo que o tribunal fez alguma coisa errada, mas ele é meu pai”, disse. Ainda preso na Inglaterra, Filomeno recebeu a visita do filho pela primeira vez em 2009. “Eu o visito quando tenho tempo”, contou. Filomeno e Eder conversaram pelo telefone depois da final da Eurocopa. “Meu pai estava tão feliz que chorou ao telefone. Disse que estava feliz e orgulhoso de mim”, completou.

Eder sofreu no orfanato, mas tenta manter uma relação boa com os pais. Disse que também mantém contato com a mãe, embora seja difícil normalizar essa relação sem ter tido contato próximo durante sua formação. “Eu tive dois ou três mentores, mas não é o mesmo que ter sua mãe e seu pai. Tive pouco contato com meus pais e fiquei ressentido. Quando cresci, comecei a ter mais contato com minha mãe, mas era irregular. Não temos uma relação normal porque perdemos vários grandes momentos juntos quando eu estava crescendo”, disse. “Não posso mentir. Foi difícil. Coisas ruins acontecem nesses lugares (orfanatos). Eu vejo onde estão meus amigos daquela época e… eles não estão muito bem”.

Sua mãe e sua irmã vivem na Inglaterra, onde Eder jogou brevemente, defendendo o Swansea, sem muito sucesso. Afirma que nos piores momentos da carreira, na época do Mundial de 2014, perdeu as esperanças e considerou tirar a própria vida. “Minha mente foi para lugares muito ruins. Passei por uma fase muito difícil. Tive lesões sérias e as coisas não deram certo na Copa do Mundo”, afirmou o jogador, que teve, de fato, uma das piores atuações individuais da competição realizada no Brasil. “Eu não conseguia acreditar nas coisas e sonhar novamente. Foi um período ruim para mim e você pensa se consegue escapar dele”.

Segundo Eder, a mudança drástica decorreu de um encontro, depois de um jogo pelo Braga, clube que defendia antes de ir para a Inglaterra, com uma garotinha. “Fui bater bola com uma garotinha que estava usando nosso uniforme. A mãe dela, Susana Torres, perguntou se poderia tirar uma foto. Começamos a trocar e-mails. Antes da Copa do Mundo, ela me mandou uma mensagem no Facebook dizendo que a filha queria ir ao torneio. Eu não vi e não respondi. Um ano depois, eu vi a mensagem e pedi desculpas. Dei uma camisa para ela, com o nome da filha. Ela, então, perguntou se alguns dos meus amigos precisavam de ajuda psicológica, que ela poderia oferecer essa ajuda. Eu trabalhei duro na minha mentalidade e comecei a sonhar novamente. Susana foi o catalizador. Ela me ajudou muito. Eu acho que jogadores de futebol são um pouco engraçados nesse assunto. Alguns acham que é sinal de fraqueza. Mas está mudando”, disse.

Eder voltou mesmo a sonhar. E mais do que sonhar, a realizar os seus sonhos. “Mesmo antes de começar a Eurocopa, eu estava convencido que algo iria acontecer comigo. Mesmo antes do técnico me chamar, eu disse para ele: ‘Não se preocupe, vou marcar’. Cristiano (Ronaldo) estava na beira do campo, nos motivando, e ele me disse que eu iria marcar. Eu estava preparado, havia trabalhado muito nos treinos, e então, quando teve o jogo, a última chance, eu simplesmente arrisquei”.

E marcou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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