Portugal

Foi o orgulho de ser pequeno que possibilitou a boa campanha do Moreirense no Portuguesão

Faltando sete rodadas (incluindo a deste final de semana) para o término do Campeonato Português, Penafiel (lanterna) e Gil Vicente (penúltimo colocado) parecem fadados a cair à segunda divisão. Eles são os piores entre os 18 times que disputam a competição e fazem campanhas pífias (com quatro e três vitórias apenas, respectivamente), dignas de quem vê o rebaixamento logo ali.

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Decretar que ambos já caíram só não é possível ainda porque Arouca e Vitória de Setúbal insistem em proporcionar alguma emoção. Se tropeçarem seguidamente e os rivais da parte de baixo da tabela reagirem, há uma chance do quadro mudar.

A situação praticamente definida coloca para assistir de camarote quem já respira aliviado. Nessa turma, está um clube que pode ser classificado como diferente da maioria: o Moreirense. Campeão da Segunda Liga na temporada passada, o time naturalmente entrou no campeonato com o objetivo único de não ser rebaixado. Quando ainda restavam nove rodadas para o fim, deixou para trás a barreira dos 30 pontos, garantindo a permanência na elite – matematicamente, ainda pode ser ultrapassado, mas na prática os rebaixados nunca chegam à casa das três dezenas na pontuação.

O estádio Comendador Joaquim de Almeida Freitas, onde o clube alviverde manda seus jogos, tem capacidade para 9 mil pessoas. É quase o dobro da população de Moreira de Cónegos, a vila em que o Moreirense está situado há 77 anos.

O espírito interiorano talvez explique o modo simpático de ser do Moreirense. O clube não sofre de síndrome de grandeza, algo que atrapalha muitos pequenos mundo afora. O presidente Vítor Magalhães costuma dizer que o time é o “expoente máximo da pequenez”. É uma forma de demonstrar que, embora tenha suas ambições, a agremiação sabe exatamente o tamanho que ocupa.

Esse espírito passa também pelo técnico Miguel Leal, um dos grandes responsáveis pela boa campanha do Moreirense na temporada (até a 27ª rodada, foram oito vitórias, oito empates e 11 derrotas, performance que lhe deu o 10º lugar entre 18 equipes). Ao contrário de seus colegas, ele jamais fecha um treino e permite que imprensa e torcida acompanhem tudo de perto. Antes dos trabalhos, é comum, por exemplo, que os jogadores passem algum tempo em animadas conversas com torcedores.

Miguel Leal chegou a Moreira de Córnegos depois de três temporadas no Penafiel, inclusive levando a equipe ao acesso à primeira divisão. Ele chama a atenção pelo modo transparente de ser. Nas entrevistas, não se furta a dizer os nomes de jogadores que quer elogiar ou criticar. Com 49 anos de idade (fará 50 em 22 de abril) e doutorado em Psicologia, parece utilizar bem o que aprendeu nos bancos universitários a favor de seu trabalho.

Um dos segredos do treinador está na maneira como contrata seus jogadores – algo que parece simples, mas que nem sempre é assim. Miguel Leal só aprova a contratação de um atleta depois de ter conversado com pessoas que conviveram com ele e, principalmente, de ter assistido a um jogo completo (preferencialmente no estádio, mas, em última hipótese, em vídeo). Ele refuta os famosos DVDs com jogadas editadas. “Não me interessa ver os melhores momentos. Assim, até eu, com 50 anos, era contratado. E se me pusessem a jogar contra coxos, ainda melhor”, brincou, numa entrevista recente ao site Mais Futebol.

A barreira dos 30 pontos foi quebrada pelo Moreirense numa vitória sobre o Gil Vicente por 1 a 0, fora de casa. A festa feita por jogadores e comissão técnica no vestiário, depois do jogo, dá a dimensão do que a manutenção com folga na Primeira Liga representa. O vídeo da comemoração foi publicado no Facebook oficial do clube.

PERMANÊNCIA CONSEGUIDATUDO A SALTAR

Posted by MOREIRENSE FC on Domingo, 15 de março de 2015

A boa temporada alviverde foi presenteada também com algo até então inédito. Pela primeira vez, um jogador da equipe foi convocado para a seleção portuguesa. O goleiro Marafona esteve no grupo que disputou (e perdeu por 2 a 0) o amistoso contra Cabo Verde, dia 31 de março.

O Moreirense colhe os frutos que plantou. Não só por sua simpatia ou por orgulhar-se de sua pequenez. Mas por conhecer exatamente o seu tamanho e ter a humildade de reconhecê-lo. E, a partir daí, fazer o trabalho (que foi competente) em busca do que se propõe.

Nesta reta final de campeonato, o pequenino time, da pequenina vila de Moreira de Córnegos, pode assistir de camarote à briga desesperada da qual, com méritos, escapou muito antes do que se imaginava.

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