Portugal

Entrevista coletiva virou uma aula do professor Nuno Espírito Santo sobre o Porto

O Porto havia acabado de vencer o Arouca por 3 a 0, pela oitava rodada do Campeonato Português. Como de costume, os jornalistas tomaram seus lugares na sala de imprensa do estádio do Dragão, para a entrevista coletiva do técnico Nuno Espírito Santo.

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O que provavelmente todos imaginavam ali é que seria repercutido o resultado positivo (que fez o time saltar para a segunda colocação, ultrapassando o Sporting), a distância de três pontos para o líder Benfica, a atuação da equipe, o fato de Brahimi ter finalmente voltado a marcar, entre outros assuntos relacionados ao jogo.

O que certamente ninguém imaginava ali é que o treinador portista protagonizaria uma cena capaz de entrar para a história – e o folclore – do futebol português.

A entrevista coletiva acontecia normalmente. Nuno Espírito Santo já havia respondido a vários questionamentos e não aparentava estar prestes a fazer algo muito fora do comum. Até que um jornalista o questionou sobre o estilo da equipe, aquilo que os portugueses chamam de “jogar à Porto”.

Nuno, então, abaixou o microfone e pediu para que o diretor de comunicação do clube buscasse um quadro e uma caneta – materiais utilizados em palestras. Enquanto o intrigado assessor cumpria sua mais nova missão, o técnico questionou aos jornalistas se eles tinham tempo para uma explicação e recebeu a resposta positiva. Assim como acontece com as coletivas dos técnicos no Brasil, alguns canais de TV transmitiam tudo ao vivo.

O quadro chegou e foi armado ao lado da mesa utilizada para as entrevistas. De posse de um microfone sem fio, normalmente utilizado para os jornalistas efetuarem as perguntas, o treinador começou sua aula.

A princípio, ele desenhou um boneco que ilustraria um jogador do Porto. Abaixo dele, como se fossem três pés, rabiscou três riscos verticais, que classificou de pilares. E explicou, enquanto ia escrevendo as palavras-chave que dizia: “O jogador do Porto assenta em três pilares, que eu no primeiro dia que cheguei falei: compromisso, cooperação e comunicação. Para jogar à Porto é preciso isso. Se dissemos que isto é a união, temos o que é fundamental para o Porto. Isto é a base, é o primeiro passo. Se acrescentarmos a nossa determinação, temos a nossa atitude. Esta é a atitude que nós queremos. Independentemente do sistema, esta é a base. As vitórias são determinantes, mas isto é a base.”

A primeira folha já estava toda rabiscada e a aula ainda não havia terminado. Nuno passou então a um segundo papel, que utilizou para comentar como enxerga uma partida, independentemente do esquema tático utilizado. Dentro de um suposto desenho de um campo de futebol (na verdade, era apenas um retângulo), ele escreveu a palavra “visão”. E emendou: “Quando temos isto que falei anteriormente, temos a nossa visão. Não interessa o sistema, interessa é que o nosso campo se reduza a 65 metros, porque estamos mais perto da baliza.”

O técnico, que está em sua primeira temporada no cargo, devolveu a caneta e o microfone, mas continuou falando enquanto voltava para a mesa de entrevistas. “Primeiro a base, depois o treino, jogo e competição. É o que queremos para acabar com este ciclo de três anos sem ganhar.”

A maneira incomum como Nuno Espírito Santo respondeu a uma simples pergunta (e sua pouca habilidade com desenhos) naturalmente tornou-se um dos assuntos mais falados em Portugal. De fato, foi algo que saiu dos padrões tão quadrados que cada vez mais nos acostumamos a ver em entrevistas coletivas.

Mas, curiosidade e memes à parte, vale a pena ressaltar que o técnico não mostrou qualquer tipo de arrogância no trato com os jornalistas ou incômodo pela pergunta. Ao ver a cena, a impressão que se tem é que Nuno estava aguardando uma boa oportunidade para mostrar o que pensa a respeito do futebol e qual é sua filosofia de trabalho.

Fica claro que ele realmente acredita no que disse. Nuno crê que o compromisso, a cooperação e a comunicação podem fazer um time ter determinação e, dela, vir a atitude. Talvez esteja aí, em algo bem mais simples do que possa parecer, a solução para o jejum de títulos dos dragões.

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