Portugal

Endividado, Leixões aposta em polêmico lutador de MMA para se reerguer

O Leixões perdeu para o Freamunde por 1 a 0, pela 30ª rodada do Campeonato Português da Segunda Divisão. Um resultado que pode ser considerado normal, pois, mesmo jogando em casa, o time da cidade de Matosinhos habita a metade de baixo da tabela de classificação, enquanto o Freamunde é o líder, com boas chances de subir para a Primeira Liga.

Mas nem tudo foi normal no estádio do Mar, na quarta-feira (25). Quatro horas antes de a partida começar, uma cena comovente roubou a atenção e ilustrou, com requintes de dramatismo, o terrível momento pelo qual passa o Leixões, clube de 107 anos de história, com 25 participações na primeira divisão e campeão da Taça de Portugal em 1960/61.

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Eram 11h (o jogo estava marcado para as 15h) quando Bruno Lamas, meia-atacante brasileiro de 20 anos de idade, recém-contratado junto ao Cruzeiro, surpreendeu o técnico Horário Gonçalves. “Ele chegou com a esposa, chorando e com as malas, porque tinha sido despejado pela polícia”, contou o treinador. O problema, soube-se depois, era que a diretoria do clube havia tirado o jogador do hotel onde residia e o transferido para uma casa que tinha ordem de despejo desde 2012.

A situação foi resolvida com a realocação de Bruno e a mulher num hotel. Sem condições psicológicas, ele nem sequer foi relacionado para a partida, que marcou a 15ª derrota da equipe em 30 jogos no campeonato.

A situação vivida pelo ex-cruzeirense apenas exemplifica o que o somatório de falta de dinheiro e má administração tem feito com o clube. Os jogadores não recebem salários há quase três meses e o próprio técnico já disse que pensa em abandonar o cargo. “Outro dia, não pude utilizar um atleta porque não havia camisa para ele”, conta Horácio, que não se furta a falar abertamente sobre o assunto. E que, apesar de tudo, está conseguindo manter o time fora da zona de rebaixamento.

O clube, porém, diz já ter encontrado uma solução para acabar com os problemas. E ela é, no mínimo, inusitada: a partir de 15 de março, a maioria das ações da Sociedade Anônima Desportiva (SAD) do Leixões passará à empresa J Winners, do brasileiro Jaime Marcelo Conceição. Ele comprou 56% das ações, será o sócio majoritário e promete quitar as dívidas.

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Jaime Marcelo chega como um salvador da pátria, mas seu currículo deixa dúvidas sobre o que ele realmente pode fazer administrando um clube de futebol. Primeiro, porque será a primeira experiência desse tipo na carreira. Segundo, porque não se sabe exatamente de onde vem a verba que ele promete investir (num comunicado oficial, disse apenas que “se suporta financeiramente num fundo sediado na Europa”). E, terceiro, porque sua carreira é cheia de polêmicas e controvérsias.

O novo dono do Leixões é um lutador de MMA que causou furor no mundo das lutas em 2012. Na época, fãs da modalidade passaram a questionar seu invejável cartel, então com 135 lutas e apenas uma derrota. Jaime se tornou o centro de discussões acaloradas em fóruns de debate na internet e chegou até a processar alguns deles por difamação.

As denúncias contra o lutador envolvem adulteração nos números do cartel, combinação de resultados de lutas e supostas invenções de patrocínio para seus eventos. Ainda em 2012, o desgaste de sua imagem fez com que fosse dispensado pela Portuguesa de Desportos um mês depois de ser contratado para promover o MMA no clube. Naquele mesmo ano, ele deu sua versão das histórias numa longa entrevista ao site do Sportv.

Jaime Marcelo também é palestrante e escritor. Ele diz ter superado a depressão após problemas familiares e fala sobre isso nas palestras e nos três livros que lançou.

A compra dos 56% das ações do Leixões ocorreu no final do ano passado, mas o negócio foi concretizado só agora. Embora o valor não seja revelado, estima-se que girou em torno dos € 4 milhões.

A primeira ação do empresário-lutador foi conseguir que o ex-lateral Roberto Carlos se tornasse um “embaixador” do clube e escrevesse uma mensagem de apoio nas redes sociais.

Salvadores da pátria que chegam a clubes empobrecidos são comuns no futebol. Alguns, realmente resolvem os problemas e colocam as coisas no rumo certo. Outros acabam só piorando o que era ruim. Por isso, há dúvidas sobre o futuro do Leixões.

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