Portugal

Ecos de um dérbi

Já dizia o “filósofo” Jardel que “clássico é clássico e vice-versa”. No futebol português (onde, aliás, o ex-atacante fez muito sucesso) a lógica não é diferente. E quando se trata de um Sporting x Benfica, jogo apelidado por lá de “dérbi”, tudo o que ocorre antes, durante e depois da partida ganha contornos superlativos.

Foi assim na vitória de virada do Benfica sobre o rival por 3 a 1, na segunda-feira (10), pela 11ª rodada do Campeonato Português. O hat-trick de Cardozo (que ficou a apenas três de chegar à histórica marca de cem gols com a camisa encarnada) levou a Águia à liderança da competição e aumentou ainda mais a crise vivida pelos leões, que já era enorme.

Mas, mais do que o resultado dentro de campo e o que ele significa para a tabela de classificação, o dérbi serviu para supervalorizar a estremecida relação que os dirigentes dos dois clubes mantém há anos. Não há esforço de aproximação e de uma relação mais cortês, nem de um lado, nem de outro.

Tanto que, dois dias depois da partida, o provedor para a Ética no Desporto de Portugal, Sérgio Abrantes Mendes, emitiu uma carta aberta passando um verdadeiro sermão em dirigentes encarnados e leoninos. No documento, embora afirme que entenda o tamanho da rivalidade colocada em jogo num dérbi e não deseje que o encontro entre os rivais de Lisboa se transforme numa partida morna, Abrantes aponta falta de “respeito, fair play, amizade e responsabilidade” dos dois clubes.

“Exigimos que, quer de um lado quer do outro, existam lideranças fortes, civilizadas, que saibam transmitir às respectivas ‘tribos’ os valores sobre os quais foram erigidos os sucessos clubistas e, ao mesmo tempo, a ideia e a certeza de que em desporto não existem inimigos, mas apenas adversários. Neste contexto, ouso apenas deixar um simples conselho: tenham tento, meus senhores”, escreveu.

A “bronca” dada pelo provedor faz sentido. Nos dias que antecederam ao jogo, dirigentes dos dois times protagonizaram uma ampla troca de farpas. O Sporting, por exemplo, quis adiar a partida em um dia, o que em tese prejudicaria o rival. Por outro lado, Luís Filipe Vieira, presidente benfiquista, se recusou a atender Godinho Lopes, presidente leonino, para discutir o assunto e também “perdeu a razão” na discussão.

Os dois presidentes, aliás, já há algum tempo parecem crianças que, emburradas, se negam a brincar juntas. Claro que trata-se de um assunto muito mais sério, afinal a rivalidade mexe com a paixão de milhares de pessoas, mas um bom relacionamento institucional em nada mudaria os resultados dentro de campo. Pelo contrário, os dois lados só viriam a ganhar, com a promoção ainda maior de um jogo que, por si só, já é espetacular.

Outro exemplo: apesar de convidado a comparecer aos camarotes, Luís Filipe Vieira não foi visto no setor vip do estádio leonino durante o dérbi de segunda-feira. Ele não confirma, mas é bem provável que tenha assistido à partida de dentro do vestiário de seu time. “Vi o jogo onde tive de o ver, perto da minha equipe. Estive com meus amigos e estive bem”, limitou-se a dizer.

E quando os ânimos pareciam estar menos exaltados e cada clube já voltava a mirar para o futuro (o Benfica aproveitando a boa fase e o Sporting tentando sair da crise), eis que ninguém menos que Eusébio aparece para colocar ainda mais lenha na fogueira.

Durante uma festa, o Pantera Negra apimentou ainda mais a relação. “Claro que fiquei muito feliz pelo Benfica ter ganho. Eu sou do Benfica, querias o quê? E é claro que esperava ganhar. Aliás, este Benfica só perderia em Alvalade se jogasse com juniores”, provocou.

A declaração, claro, causou burburinho e respostas vieram rapidamente do outro lado. Ex-jogadores do Sporting mostraram-se indignados. “São afirmações descabidas porque é um menosprezo para um rival e o Sporting não é uma equipe qualquer, assim como o Eusébio é um jogador histórico e não pode dar essas declarações”, afirmou Pedro Gomes, ex-zagueiro leonino. “São palavras horríveis e que lhe ficam mal. Qualquer benfiquista digno do seu clube não deve gostar dessas palavras”, reclamou o ex-goleiro Carvalho.

Benfica e Sporting voltarão a se encontrar no dia 26 de abril. Até lá, os encarnados tratarão de tentar se manter na ponta do campeonato (estão na liderança apenas por ter marcado um gol a mais do que o Porto) e os leões tentarão sair do atoleiro (o time está a apenas dois pontos da zona de rebaixamento). Mas quando o dia do dérbi se aproximar, provavelmente as provocações voltarão à tona, pois, pelo andar da carruagem, será difícil que alguém “tome tento” nessa história.

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