Portugal

Costinha e A. Xavier: de ídolos a treinadores desempregados

Costinha e Abel Xavier são ícones do futebol português. Contemporâneos, cada qual ao seu estilo, ambos deixaram suas marcas pelos clubes por onde passaram e também na seleção. Fazem parte daquele grupo de jogadores capaz de conquistar o carinho e a confiança do torcedor.

Costinha, 38 anos de idade, e Abel Xavier, 40, são jovens treinadores buscando se firmar no competitivo mercado de trabalho. Iniciaram a atual temporada em clubes da primeira divisão do futebol português. Um dirigia o Paços de Ferreira, equipe sensação da temporada passada – que teve por prêmio disputar a fase pré-grupos da Liga dos Campeões e, eliminada, seguir na Liga Europa. O outro assumiu o Olhanense, que, ao menos em tese, tem condições de escapar do rebaixamento sem maiores sofrimentos e ocupar posições intermediárias na tabela de classificação.

Costinha e Abel Xavier estão desempregados. Quis o destino que ambos sucumbissem praticamente juntos, ao final da oitava rodada do Campeonato Português. Oito jogos pela competição nacional (mais alguns por campeonatos paralelos) foi exatamente o que cada um suportou.

Embora previsíveis há algum tempo (o treinador do Paços de Ferreira chegou a ser assunto nesta coluna), as quedas ocorreram de forma distinta para cada treinador. E, coincidência ou não, se assemelharam ao estilo particular de cada um deles.

Costinha: campanha terrível

O desafio de Costinha não era simples. Vindo de uma rápida passagem pelo rebaixado Beira-Mar na temporada passada (até então sua única experiência como técnico), ele chegou ao Paços de Ferreira para substituir Paulo Fonseca, contratado pelo Porto. A missão era não fazer feio nas competições europeias e, no mínimo, brigar para ser o primeiro entre os pequenos no campeonato nacional.

Mas o novato treinador passou muito longe disso. Sua demissão ocorreu após a derrota em casa por 3 a 1 para o Vitória de Guimarães, dia 28 de outubro. Com apenas quatro pontos ganhos em oito jogos, os castores ocupam a lanterna do Campeonato Português. Na Liga Europa, o time também é dono do último lugar na chave, com um ponto em três partidas. De aceitável, somente a eliminação para o Zenit, na qualificatória da Liga dos Campeões.

Sob o comando de Costinha, o Paços de Ferreira entrou em campo 14 vezes. Foram duas vitórias (uma pelo campeonato nacional e outra pela Taça de Portugal), dois empates e dez derrotas. Aproveitamento de apenas 19%.

Os números mostram que a permanência do técnico no cargo era insustentável. E ele próprio demonstrou saber disso. “Sou um homem com H maiúsculo e assumo as minhas responsabilidades. Falhamos todos em algumas circunstâncias. Falei com o presidente, ele sabe das minhas qualidades e por isso foi me buscar. Não fui encomendado por ninguém. Mas, como as coisas não correram bem, deixei o presidente à vontade. Ele, tal como eu, entende que há de se trazer alguém que consiga remotivar os jogadores”, disse na entrevista coletiva em que sua saída foi anunciada.

Se o discurso foi sereno, os dias que antecederam a demissão do treinador estiverem longe de serem calmos. Costinha e o presidente Carlos Barbosa foram alvos da torcida, inconformada com os maus resultados. O próprio presidente, aliás, por pouco não foi agredido após a derrota para o Vitória de Guimarães e disse que pedirá demissão do cargo – só fica enquanto o clube não organizar uma assembleia geral. Ou seja, novos e tensos capítulos devem ocorrer na Mata Real.

Agora, a responsabilidade de apaziguar as coisas é de Henrique Calisto, o novo contratado. Experiente, com 60 anos de idade, ele tentará repetir o feito de 2011/12, quando também assumiu o Paços de Ferreira em crise e conseguiu livrá-lo do rebaixamento.

Abel Xavier: tiros para todos os lados

É de se acreditar que o Olhanense sabia o risco que estava correndo ao contratar Abel Xavier. Nem tanto pela conhecida personalidade forte dele, mas pelo fato de que seria sua primeira experiência na vida como técnico de um time profissional.

Mas, agora que Abel deixou a cidade de Olhão, fica mais evidente que, por mais paradoxal que pareça, a demissão começou a ser desenhada logo quando ele foi contratado. Seu nome não era do agrado do presidente do clube, Isidoro Sousa, mas foi imposto pela Sociedade Anônima Desportiva (SAD), que controla o clube e tem 80% de peso nas decisões.

O aproveitamento de Abel Xavier no banco de reservas do Olhanense, que está em 11º lugar no Campeonato Português, foi de 36,6%, com três vitórias (duas pelo campeonato nacional e uma pela Taça de Portugal), dois empates e cinco derrotas. Curiosamente, a demissão ocorreu após dois triunfos consecutivos: 2 a 1 no Lusitano (pela Taça) e 1 a 0 no Arouca (pelo campeonato, dia 26 de outubro).

A própria demissão, aliás, é motivo de controvérsia entre ele e o clube. Os dirigentes afirmam que a decisão já estava tomada antes do jogo diante do Arouca. Abel, por sua vez, contesta e diz que foi ele quem pediu para sair. “Quem se demitiu e quem saiu fui eu. Que isso fique bastante claro. Entendo que, no futebol português, quando não se tem resultados a figura do treinador é descaracterizada. Apresentei o pedido de demissão à SAD e ao presidente porque achei que não estavam reunidas condições para o exercício pleno das funções”, afirmou.

Abel saiu disparando. Além de criticar publicamente os dirigentes, disse que tinha dois meses de salários atrasados – posteriormente, revelou que o clube havia acertado as contas. Também reclamou das notícias de que a diretoria estaria acertando com um treinador italiano antes mesmo de sua saída e revelou que pouco antes disso flagrou um grupo de italianos visitando o clube.

Outra reclamação de Abel Xavier – esta bastante plausível – é pelo fato de o Olhanense não ter jogado em seu estádio, o José Arcanjo. Por causa de uma reforma no gramado, a diretoria resolveu mandar os jogos no Algarve, em Faro, a 94 quilômetros de distância. Coincidência ou não, a recuperação do piso foi concluída justamente agora que o técnico se foi.

O novo técnico do Olhanense é Paulo Alves, de 43 anos e conhecido principalmente por suas temporadas no Gil Vicente.

Costinha e Abel Xavier estão no mercado. Com pouca experiência e resultados inexpressivos são, por enquanto, técnicos que chamam a atenção muito mais pelo passado como jogadores do que pela profissão que escolheram recentemente. O desafio dos dois, agora, é reverter esse quadro.

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