Portugal

Clube português dá exemplo de atitude ao resgatar adversários após ônibus quebrar

O futebol português é pródigo em brigas de dirigentes, rompimentos oficiais entre clubes, declarações de engravatados provocando adversários e coisas do tipo. São atitudes que, como a coluna costuma mostrar com frequência, mais atrapalham do que ajudam o desenvolvimento dos próprios clubes.

Felizmente, há exceções. E uma delas veio da segunda divisão, num grande exemplo de camaradagem – ou fair play, se preferir – entre o Desportivo Chaves e o Oriental, de Lisboa. Em situações distintas, eles se enfrentaram no último dia de janeiro. Jogando em casa, o Chaves – que briga pelo acesso para a elite – amargou o empate por 1 a 1 contra o time da capital, que está na zona de rebaixamento para a terceira divisão.]

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Mas a grande história deste jogo ainda não tinha acontecido quando o árbitro soprou o apito final. Ela começa na estrada, no retorno dos guerreiros de Marvila (como é conhecido o Oriental) para casa. No início do trajeto de quase 500 quilômetros (a cidade de Chaves fica no norte do país, perto da fronteira com a Espanha), o ônibus do Oriental quebrou. O incidente ocorreu em Vidago, quando o veículo havia percorrido apenas 20 quilômetros.

A situação da delegação lisboeta, composta por 21 pessoas, era preocupante. Sem conseguir consertar o veículo, o relógio marcava quase meia-noite e os jogadores nem sequer tinham se alimentado depois da partida. E, com o ônibus quebrado, não havia como sair da estação de serviço de Vidago.

Foi quando a direção do Desportivo Chaves ficou sabendo do ocorrido e o fair play entrou em ação. Alguns telefonemas depois e dirigentes e jogadores do Chaves pegavam a estrada em seus carros particulares para ir em socorro aos colegas. Toda a delegação do Oriental foi trazida de volta a Chaves, jantou num restaurante e dormiu num hotel da cidade, indo embora no dia seguinte, em outro ônibus. Para se ter uma ideia do esforço, as cozinheiras do restaurante já tinham ido embora para casa, mas foram chamadas de volta para preparar o jantar dos lisboetas.

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“Estávamos de mãos e pés atados. O presidente do Chaves tomou conhecimento da situação e disponibilizou-se para nos ajudar, com o seu carro e de alguns jogadores. É uma atitude que merece ser louvada, porque o que fizeram por nós não tem preço”, disse o defensor João Pedro, do Oriental, ao comentar a situação.

José Lopes, vice-presidente do Chaves, foi o primeiro a saber o que estava ocorrendo. “Quando falei ao telefone com o treinador do Oriental, disse-lhe logo que eles não iam passar a noite ali (em Vidago). Liguei para o presidente e conseguimos ajuda”, contou.

Carro pega fogo

Esta história já seria fantástica se terminasse por aqui. Mas um ingrediente a deixa ainda mais espetacular: o incêndio no carro de Paulo Ribeiro, goleiro do Chaves, um dos que estavam indo em socorro dos companheiros de profissão – mas que acabou também precisando de ajuda.

Faltavam cerca de 300 metros para chegar em Vidago quando Paulo percebeu fumaça saindo pelo escapamento e resolveu encostar sua BMW 535 no acostamento. Ele já havia sido alertado por telefone pelo brasileiro Gustavo Souza, jogador do Chaves que vinha logo atrás, de que faíscas eram vistas embaixo do carro. E também tinha notado, logo ao pegar a estrada, que a potência do veículo não era a habitual.

Parar no acostamento e pegar a carteira foi tudo o que deu tempo de Paulo Ribeiro fazer. “Começou a sair fumaça pelo capô e pouco depois levantou uma labareda enorme. Não pude fazer nada”, contou o goleiro, que assistiu impotente e fotografou o próprio veículo (que não tinha seguro contra incêndio) arder em chamas. O fogo cortando a escuridão pôde ser visto até pelos jogadores do Oriental, que estavam na estação de serviço.

Exemplo

A atitude de dirigentes e jogadores do Desportivo Chaves é de uma humanidade ímpar, nem sempre vista num ambiente tão competitivo como o do futebol profissional. Ao resumir o ocorrido com “só fizemos a nossa obrigação”, o vice-presidente do clube demonstrou uma grandeza que poderia ser copiada por muitos cartolas do futebol português.

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