Portugal

Casão revela doping, mas Porto varre para debaixo do tapete

A revelação de Casagrande no Programa do Jô, na semana passada, de que utilizou doping durante sua passagem pelo Porto, na temporada 1986/87, não causou grande impacto no Brasil. Afinal, por aqui estamos mais interessados na história de vida de Casão, um sujeito que chegou à beira da morte por causa das drogas e que conseguiu se recuperar e virar exemplo para muita gente. Um “simples” doping, ocorrido há mais de 25 anos, não é assunto tão forte quanto a louca trajetória do Casão.

Mas, em Portugal, as coisas foram diferentes. A entrevista do ex-jogador serviu para reavivar um velho fantasma, que parecia adormecido: o do uso indiscriminado de substâncias proibidas, num passado não muito distante do futebol.

Casagrande contou que foi dopado “umas quatro vezes” durante sua rápida passagem pelos dragões. A primeira delas aconteceu antes do seu jogo de estreia com a camisa do Porto, em 11 de janeiro de 1987, frente ao Vitória de Guimarães (empate por 1 a 1, com gol dele). “Um companheiro me disse que tinha de passar lá atrás para tomar uma coisa. Eu fui e usei. É a coisa que mais me envergonha, que eu menos gosto de lembrar, é dessa situação, que me envergonha muito mais do que pensar nas drogas que usei”, disse, na entrevista a Jô Soares.

Nas páginas 99 e 100 de seu recém-lançado livro (“Casagrande e seus demônios”, escrito em parceria com o jornalista Gilvan Ribeiro), Casão dá mais detalhes de como o processo funcionava. “Em geral, injetavam Pervitin no músculo. De imediato, a pulsação ficava acelerada, o corpo superquente, com alongamento máximo dos músculos. Podia-se levantar totalmente a perna, a gente virava bailarina… Isso realmente melhorava o desempenho, o jogador não desistia em nenhuma bola. Cansaço? Esquece… se fosse preciso, dava para jogar três partidas seguidas”. E mais: “Era uma coisa oficial: do treinador ao presidente do clube, todo mundo sabia.”

Naquela época, exames antidoping quase não existiam em Portugal (quando muito, eram raríssimos) e a maior preocupação do clube era – por mais paradoxal que pareça –, com a saúde dos jogadores. No livro, Casão relata que os atletas não podiam ir para casa depois dos jogos. Dormiam na concentração e no dia seguinte faziam sauna e corriam em volta do campo para, só depois, serem liberados. Dava a clara impressão de ser um procedimento para o corpo eliminar as substâncias nocivas.

O Pervitin citado por Casão é um estimulante feito à base de anfetamina, que teve seu auge na década de 1950 e chegou até a ser vendido livremente em farmácias. Era utilizado principalmente por quem queria dormir pouco ou reduzir o apetite. Entre seus efeitos colaterais estavam a dependência física, alucinações, irritabilidade, taquicardia, ansiedade e diminuição dos reflexos.

O Porto não se manifestou oficialmente sobre a entrevista de Casagrande, mas o médico que trabalhava na equipe à época, Domingos Gomes, negou o uso de doping. “Comigo não aconteceu”, disse. “São acusações falsas e graves. Esse tipo de prática não se efetuaria no departamento médico do Porto”, completou, afirmando ainda se sentir ofendido pelas palavras do brasileiro.

Vale lembrar que Casagrande não é o primeiro ex-jogador a falar sobre doping no futebol português. Um caso clássico é o de Fernando Mendes, que passou por Sporting, Benfica, Porto, Belenenses, Boavista, Estrela da Amadora e Vitória de Setúbal. Em 2009, ele lançou o livro “Jogo Sujo”, por coincidência também escrito em parceria com um jornalista (no caso, Luís Aguilar).

No livro, Mendes não cita os times que teriam oferecido doping, mas conta como isso ocorria. “Cada jogador tomava uma dose personalizada, mediante o seu peso, condição física ou última vez que tinha ingerido a substância (…). Porém, nos jogos importantes era sempre certo (…). Quando se sabia que não iria haver controle antidoping, nunca falhava”, relata. “Lembro-me de um jogo das competições europeias contra uma equipe que tinha três campeões do mundo no seu plantel. Um deles era um atacante poderoso no jogo aéreo. (…) Ele era um armário, com um tremendo poder de impulsão. Mas nesse dia eu saltei que nem um louco e ganhei quase todas as bolas de cabeça (…) O meu segredo: uma pequena vacina, do tamanho de meia unha, chamada Pervitin.”

Para debaixo do tapete

A dopagem no passado recente do futebol não é novidade para ninguém e certamente transcende o Porto e o próprio futebol português. Há inúmeros relatos de pessoas em todo o mundo que admitiram a utilização de substâncias para melhorar o rendimento dos atletas.

Por isso, o próprio Porto está perdendo a chance histórica de aproveitar a repercussão do caso para ir fundo no assunto, investigar e, se chegar à conclusão de que os relatos de Casão são verdadeiros, vir a público se desculpar. O ponto de interrogação que se forma hoje sobre o passado do clube passaria a ser uma mancha negra, mas também um ponto de exclamação pela dignidade em reconhecer os erros.

E o mais importante: uma atitude como essa praticamente forçaria os demais clubes a também investigarem o seu passado – que, convenhamos, não deve ser 100% limpo na maioria dos casos.

Nesta semana, uma enquete de um programa de televisão apontou que 93% dos participantes acreditam na existência de doping no futebol português, muito embora o controle, agora, seja rigoroso. A cada jogo da primeira e da segunda divisões, dois jogadores de cada equipe são sorteados para fazer o exame – em algumas oportunidades, há testes de surpresa.

Na esteira dos acontecimentos, é triste ver declarações como as dadas por alguns dos ex-companheiros de Casagrande no Porto. Não porque tentaram desmentir o brasileiro (o que é um direito deles), mas pela forma preconceituosa como fizeram. Frases como “não deve estar bom da cabeça, precisa de dinheiro”, dita por Jaime Magalhães e “Casagrande é uma pessoa desequilibrada, com problemas mentais”, de Octávio Machado, mostram que eles preferem o caminho do preconceito ao da investigação transparente.

O silêncio do Porto mostra que, infelizmente, o clube também prefere ignorar tudo. Perde a chance de, ao rever corajosamente a sua história, entrar exemplarmente para a história do futebol.

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