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Cabo eleitoral de Infantino, Portugal ganha moral na Fifa – e dever de fiscalizar

A eleição de Gianni Infantino para presidente da Fifa pode representar uma mudança no patamar político de Portugal na entidade. É o que sinalizou a própria campanha do ítalo-suíço, de (ao menos aparente) estreita relação com gente graúda do futebol português.

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A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) foi a primeira entidade relevante na Europa a declarar apoio a Infantino, logo que ele lançou a intenção de se candidatar, em outubro do ano passado. O presidente da FPF, Fernando Gomes, fez até campanha para que seus colegas de Uefa fossem pelo mesmo caminho – o que de fato aconteceu. “A visão de Gianni Infantino é a que a Fifa e o futebol mundial necessitam para começar uma nova era de dinamismo e transparência”, disse, na época, o dirigente português.

Infantino havia visitado Portugal em janeiro do ano passado, então na condição de “somente” secretário-geral da Uefa. Ao participar de um congresso sobre futebol, ele não poupou elogios e citou o potencial de crescimento lusitano. “Os clubes terão de apostar mais nos jogadores de formação (categorias de base), porque há talento em Portugal. Apesar de ser um país pequeno, não vejo nenhum outro na Europa que tenha produzido tantos bons jogadores. É um país com um potencial que não pode ser desaproveitado, só porque há formas mais rápidas de alcançar o sucesso”.

Naquela mesma oportunidade, ele ainda lembrou a possibilidade de o país sediar importantes competições, citando a Eurocopa 2004 e a final da Liga dos Campeões 2013/14. “Portugal já mostrou enorme capacidade para organizar grandes eventos e, no futuro, poderá voltar a organizar um evento dessa magnitude, porque é um país louco por futebol e nós gostamos muito de vir para cá”, afirmou, numa bela massageada no ego dos dirigentes.

No início deste mês, a relação politicamente favorável entre Infantino e o futebol português ficou clara mais uma vez, numa entrevista concedida por ele (então já candidato à presidência da Fifa) ao jornal Diário de Notícias. O ítalo-suíço voltou a carregar nos elogios, ao dizer que “a Federação Portuguesa é hoje em dia vista como um bom exemplo para outras federações”.

E não foi só ao votar e fazer campanha que a FPF mostrou sua afinidade com o agora novo presidente da entidade máxima do futebol mundial. A eleição de Infantino foi comemorada com uma nota no site da federação, assinada pelo próprio Fernando Gomes – que, coincidência ou não, está em vias de lançar sua candidatura à reeleição.

Na nota, Gomes classifica o trabalho de Infantino na Uefa de “extraordinário” e diz ter sido testemunha de como, nos últimos meses, ele “foi capaz de dialogar e construir pontes”. E completou: “estamos certos de que estará à altura deste que será seguramente o desafio da sua vida”. O português afirmou ainda que considera o ítalo-suíço alguém “capaz de implementar as reformas de que a Fifa necessita, em defesa do futebol mundial”.

A Liga Portuguesa de Futebol Profissional, o Sporting e o Benfica também fizeram saudações formais à eleição do novo presidente – que durante a campanha ainda contou com o apoio de portugueses de peso, como Luís Figo e José Mourinho.

Haverá coerência?

Seria muito inocente imaginar que não há interesse político de ambas as partes nesta sucessão de elogios entre Infantino e a federação portuguesa (como é inocente demais, também, imaginar que o futebol consiga se dissociar da política). Por mais que possa haver sinceridade neste ou naquele discurso, é evidente que um precisa do outro.

O que cria uma certa esperança de mudança no comportamento dos dirigentes é o trecho final da nota assinada por Fernando Gomes. Após citar os escândalos recentes da Fifa, ele promete batalhar por mudanças na entidade. “Prometemos continuar a pugnar por uma Fifa diferente, uma Fifa democrática e transparente que coloque os interesses do futebol acima de todo e qualquer interesse pessoal”, afirmou. ”A eleição de Infantino representa uma nova oportunidade para a Fifa e a FPF continuará disponível para ajudar a pensar e construir o novo edifício do futebol mundial”, completou.

Assim, da mesma forma que foi a primeira a anunciar o apoio, a federação portuguesa tem a obrigação moral de ser a primeira a se rebelar caso a administração de Infantino não seja, do ponto de vista ético, tão eficaz como Fernando Gomes diz acreditar.

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