Portugal

Belenenses se recompõe após drama de técnico

Ao perder para a Acadêmica por 4 a 2 na decisão por pênaltis, após empate por 2 a 2 no tempo normal, o Belenenses foi eliminado da Taça de Portugal. Mas, apesar da chateação pelo revés (ainda mais porque na temporada passada o time tinha chegado às quartas de final da competição), jogadores e torcedores dos azuis têm um motivo para comemorar. E é algo que vai muito além do futebol.

Dias antes do jogo diante da Acadêmica, o elenco recebeu a visita do técnico Mitchell Van der Gaag, que foi assistir ao treino pessoalmente. Foi a primeira aparição pública dele depois da entrevista coletiva em que havia anunciado que daria um tempo na profissão para cuidar da saúde.

Mitchell é um sobrevivente – e isso está longe de ser uma força de expressão. Há um mês, ele passou mal no banco de reservas, durante a partida contra o Marítimo e foi salvo por um desfibrilador interno que os médicos haviam implantado em seu peito no ano passado. Quando teve alta após alguns dias em observação no hospital, anunciou seu afastamento e revelou ter problemas cardíacos – algo que, até então, pouca gente sabia.

Holandês, de 42 anos de idade completados nesta terça-feira (22), o treinador está em Portugal desde 2001. Como jogador, defendeu o Marítimo por cinco épocas. Em 2006, foi para o Al Nassr, da Arábia Saudita, onde jogou apenas uma temporada e encerrou a carreira. No ano seguinte, retornou a Portugal e passou a trabalhar no próprio Marítimo. Foi assistente técnico do time B, depois treinador da mesma equipe e, em 2009/10, assumiu o comando da equipe principal. Ficou no cargo por dois anos, para então se transferir ao Belenenses, onde conquistou o título da segunda divisão na temporada passada. Por isso, não é exagero dizer que ele é um homem meio holandês-meio português. Ele próprio já admitiu, em ocasiões anteriores, ter o coração dividido entre os dois países.

Quando Mitchell passou mal no banco de reservas, dia 21 de setembro (por ironia do destino justamente numa partida contra o seu querido Marítimo), ninguém desconfiou de que se tratava de algo grave. Atendido pelos médicos, ele deixou o campo caminhando. As notícias que se seguiram posteriormente era de que ele estava em observação e passando por exames no hospital, mas nada muito detalhado.

Foi cinco dias depois que o mundo conheceu a gravidade do caso. Ao lado de jogadores e diretores do Belenenses, o treinador concedeu uma entrevista coletiva na sede do clube e contou o drama que viveu. “Foi uma coisa muito violenta o que aconteceu. Tenho um problema de coração há algum tempo, antes mesmo de ter começado a trabalhar no Belenenses. Tenho um marcapasso e um desfibrilador internos. Durante o jogo, senti-me mal, recebi dois choques e o aparelho salvou-me a vida”, disse.

O holandês revelou ainda que poucas pessoas dentro do clube sabiam de sua situação e que, segundo os médicos, o problema poderia ocorrer a qualquer momento, independente de estar ou não numa partida de futebol. “Por enquanto, vou deixar de trabalhar. Neste momento, estou falando com meu médico para resolver este problema, porque a vida é mais importante”, revelou.

O médico do Belenenses, Antonio Barata, explicou que o problema do treinador é relacionado ao chamado “coração de atleta”, enfermidade que eventualmente atinge praticantes de esporte de alto rendimento. “Ele tem um coração que provoca arritmia espontaneamente. Tem uma atividade cardíaca normal, mas de um momento para o outro, há áreas do coração, sobretudo o ventrículo, que começam a trabalhar espontaneamente e descontrolam toda a atividade”, afirmou.

A equipe foi assumida por Marcos Paulo, até então técnico do time de juniores do Belenenses. Mas desde que o incidente ocorreu, o presidente da SAD (Sociedade Anônima Desportiva) dos azuis, Rui Pedro Soares, vem afirmando que confia no retorno do holandês ao banco de reservas e que o clube ainda o considera como técnico. E embora não realize qualquer tarefa dentro de campo, Mitchell vem auxiliando nos bastidores, ao preparar relatórios sobre os adversários, por exemplo.

A partida em que o treinador passou mal marcou o início de uma série invicta do Belenenses, que já dura cinco jogos. Até então, o time fazia campanha terrível e ainda não tinha vencido nenhum jogo sequer na temporada. Agora, já é o 11º colocado, quatro posições acima da zona de rebaixamento.

A evolução do time não é coincidência. Além de uma melhora técnica visível, há o fator emocional. Parece que o elenco claramente se uniu em torno do drama vivido pelo comandante.

E, além do mais, o dirigente visou que, a partir de agora, não há desculpa para falta de empenho. “Temos um treinador que levou dois choques no coração, levantou-se e saiu andando. A partir desse momento, não há ninguém neste grupo de trabalho que possa ter medo do que quer que seja.” Fica difícil para qualquer jogador discordar disso.

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