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As lágrimas significaram mil coisas, mas, no fim, só uma: Cristiano cumpriu seu maior sonho

Lágrimas podem ter dezenas de motivações. Todas personificadas em Cristiano Ronaldo durante a final da Eurocopa. O craque chorou em diversos momentos. Em campo, foi por dor, por tristeza, por lamentação. Depois, no banco de reservas, pela vontade de vencer e pela emoção incontida do sonho que poderia se tornar realidade. Ao fim, prevaleceram as lágrimas de orgulho. O desabafo de quem lutou tanto pelo objetivo. Ronaldo desaguou em alegria por sua conquista mais importante. Pode não ter sido tão brilhante na Euro 2016 quanto em outras vitórias da carreira. Porém, nenhum de seus troféus anteriores possui um significado maior. É o capitão que ergue a taça no maior feito de seu país no futebol.

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Cristiano Ronaldo viveu uma trajetória conturbada nas últimas semanas. Fora de campo, recebeu críticas pelo desempenho abaixo do monstro que todos se acostumaram a ver. Entrou em atrito com jornalistas que o perseguiram – e, apesar da fúria desmedida, tinha lá sua razão. Até perdeu um pouco a mão em seus comentários pela vontade de vencer. Mas, nas quatro linhas, ninguém pode negar que ele teve papel decisivo. Carregou o time contra a Hungria, na suada classificação para os mata-matas. Mesmo sem aparecer como deveria, participou do lance decisivo diante da Croácia e teve enorme influência na vitória nos pênaltis sobre a Polônia. E desequilibrou para cima de Gales, valendo a presença no Stade de France. Onde também ajudou, mas não no gramado.

Aos sete minutos, Cristiano Ronaldo desabou pela primeira vez. A entrada de Payet pegou em cheio o seu joelho. Prosseguiu em campo, até sentir a dor ficar mais forte pouco tempo depois. Sentado, as lágrimas desceram. Consolado pelos companheiros e amparado pelos médicos, tentou retornar. Lutou contra o corpo, com uma bandagem no joelho. Mas seus movimentos claramente estavam limitados. Embora seguisse inspirando respeito dos franceses, contribuiria mais ao time se deixasse outro companheiro entrar. Saiu de maca, inconsolável, substituído por Ricardo Quaresma.

cristiano ronaldo

Sem o seu craque, o time de operários de Portugal perdeu o principal diferencial. Mas não deixou de lutar. Trabalhou mais duro. Taticamente, até melhorou, com a mudança nas linhas de marcação que aumentaram a proteção. Nani se transformou no comandante do ataque e do espírito coletivo. Rui Patrício ia segurando as pontas sob as traves. Raphaël Guerreiro era uma referência na saída de bola, enquanto Pepe seguia como o grande coração da zaga lusitana. O tempo normal acabou no susto de uma bola na trave, que deu sobrevida aos portugueses com a prorrogação. Então, Cristiano Ronaldo voltou ao campo, agora para empurrar seus companheiros, para motivá-los. Virou um personagem à parte na beira do campo.

O camisa 7 não escondia suas emoções afloradas. Quando o gol quase saiu, em cobrança de falta de Guerreiro que estalou o travessão, foi o capitão quem ordenou a batida. E abriu o sorriso, com os olhos marejados, quando Éder incorporou o próprio CR7 para acertar um foguete de fora da área, vencendo Lloris. Botou as mãos na cabeça, como se não acreditasse no que se concretizava. Passou a frustração de 2004. Passou a queda precoce de 2008. Passou o sentimento de injustiça de 2012. Ficou a glória de 2016.

Cristiano Ronaldo foi protagonista na campanha de Portugal na França, mesmo sem precisar da bola nos pés durante a final. A maioria de suas atuações individuais ficaram mesmo abaixo das expectativas, exceto contra a Hungria e contra Gales. Mas, como líder, o atacante desempenhou um papel enorme – como tanto se viu no Stade de France. Ao apito final, não houve joelho machucado que segurasse a euforia. Abraçava os outros jogadores companheiros, escorrendo pela face as companheiras da noite. Lágrimas que, no fim, simbolizavam a grandeza de seu desejo.

Na premiação, Cristiano Ronaldo recebeu sua medalha dourada sob aplausos de franceses e portugueses. A taça finalmente acabava em suas mãos. O sonho concretizado em metal. Não acreditava. Sorriu, de novo se emocionou. Deixou uma imagem para sempre. A de um craque que conseguiu triunfar com a sua seleção, mesmo que a maioria desacreditasse. O capitão da nau que descobriu novas fronteiras a Portugal.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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