Portugal

Árbitros erram, mas portugueses reclamam demais

Reclamar da arbitragem é algo que parece estar na cartilha de procedimentos obrigatórios em Portugal, principalmente para dirigentes e treinadores. Em praticamente todos os clássicos e jogos decisivos, a parte derrotada sai atirando contra o apitador, independente de ter ou não razão nas reclamações.

O script foi seguido mais uma vez após o espetacular dérbi de Lisboa, em que o Benfica derrotou o Sporting por 4 a 3, na prorrogação, e se classificou para as oitavas de final da Taça de Portugal. Uma partida que entrará para a história, tamanha a emoção dos acontecimentos no estádio da Luz (os leões perdiam por 3 a 2 até os 47’ do segundo tempo, quando empataram; na prorrogação, Luisão fez o gol da vitória encarnada). Mas que, infelizmente, ganhou o noticiário mais pelo despreparo do presidente sportinguista, que desviou para o árbitro toda a culpa pela eliminação, do que pela beleza do espetáculo.

O dérbi foi apitado por Duarte Gomes. Com 40 anos de idade e membro do quadro da Fifa desde 2002, foi a quarta vez que ele dirigiu o clássico mais acirrado do futebol português. No jogo em questão, cometeu diversos erros, é verdade, mas nada tão clamoroso a ponto de causar tamanha indignação (o Sporting reclama da não marcação de dois pênaltis, ambos lances interpretativos).

Bruno de Carvalho, o presidente do Sporting, pegou pesado nas críticas. Primeiro com a atitude de entrar no campo após o jogo e ir em direção ao árbitro para tirar satisfações. Agindo assim, parecia mais um torcedor revoltado do que o homem que dirige um dos mais importantes clubes do mundo.

Depois, nas entrevistas à imprensa e aos próprios veículos de comunicação dos leões, em que sugeriu que Duarte Gomes teria errado propositadamente a favor do Benfica. “Isto é um forte revés para a verdade, é um forte revés para quem gosta de futebol e é um forte revés para quem ainda acredita em fadas”, disse. “Errar é humano, mas não é normal errar só para um lado”, completou.

A indignação do mandatário sportinguista contagiou o técnico Leonardo Jardim e alguns jogadores, que também preferiram desviar o foco da derrota para eventuais erros de arbitragem. E geraram até uma nota oficial no site do Benfica, que criticou o rival pelo comportamento pouco amistoso. “Sejamos sérios. Há lances de dúvida no jogo? Claro que há, como há em todos os jogos com a intensidade em que decorreu o jogo do sábado passado. Os lances duvidosos repetiram-se, mas os reparos e acusações limitaram-se a apontar, de forma parcial, prejuízos apenas para o Sporting”, afirma um trecho do comunicado.

Mas, apesar dos exageros, o presidente do Sporting (assim como qualquer cidadão) tem todo o direito de reclamar quando se sente prejudicado. Se não tiver razão, a opinião pública certamente ficará contra ele – como tem ocorrido em Portugal desde que a polêmica começou. Se ofender alguém, será processado. É assim que funciona em qualquer democracia.

Por isso, é um grande absurdo a ideia do presidente da Associação Portuguesa dos Árbitros de Futebol (Apaf), José Gomes, que sugeriu uma espécie de censura a comentários sobre os trabalhos dos árbitros. “(Nós) Não falamos dos erros dos jogadores, dos erros dos técnicos. É isto que temos de afastar do futebol português. Um primeiro passo podia ser uma punição exemplar do Conselho de Disciplina para quem tem este tipo de atitude. Em Portugal, todos falam, quem sabe e quem não sabe”, afirmou, sobre os comentários em torno do dérbi. Felizmente, a ideia da mordaça não ganhou adeptos e deve morrer por aí mesmo.

O assunto ganha espaço em Portugal na esteira do início do processo de profissionalização da arbitragem no país, que teve seu pontapé inicial no mês passado. Nove árbitros (o próprio Duarte Gomes, além de Artur Soares Dias, Olegário Benquerença, Jorge Sousa, Marco Ferreira, Pedro Proença, João Capela, Hugo Miguel e Carlos Xistra) passaram a receber € 2,5 mil euros por mês de salário bruto, que será complementado com prêmios por jogos e patrocínios nos uniformes. Eles treinam quase todos os dias da semana e recebem acompanhamento técnico, médico e de fisioterapia. A ideia é que, a cada temporada, o número de profissionais da arbitragem aumente e que o sistema passe a contemplar também os assistentes.

Ou seja: a tendência é que o nível da arbitragem portuguesa melhore consideravelmente, já que cada vez mais ela será profissionalizada. Seria ótimo se, junto com este processo, viesse também o profissionalismo de quem dirige os árbitros – e atualmente quer calar os críticos – e dos dirigentes, que colocam a paixão pelo clube à frente da racionalidade que o cargo exige.

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