Portugal

Alvo do Football Leaks, Benfica tenta desviar o foco ao invés de explicar transação

“Jornalismo tabloide.” Este é o título da nota oficial que o Benfica divulgou em seu site para explicar o caso Bernardo Silva. Somente por ele, já dá para perceber como o clube mirou suas armas contra a imprensa e, ao invés de dar explicações aprofundadas sobre o assunto, tentou desviar o foco e bater nos veículos de comunicação.

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Tudo começou com a revelação do site Football Leaks de que o Monaco não pagou diretamente aos encarnados o valor relativo à compra do meio-campista Bernardo Silva, em julho do ano passado. Segundo documentos apresentados pela publicação – que costumeiramente revela bastidores dos negócios do futebol –, o time francês depositou € 5,25 milhões, em julho de 2015, na conta da empresa XXIII Capital Limited. O dinheiro equivale à primeira de três parcelas de igual valor (as demais com vencimento em dezembro de 2015 e julho de 2016) que, juntas, chegam à casa dos € 15,75 milhões acordados entre os dois clubes para o negócio.

A XXIII Capital Limited é uma empresa inglesa, com sede em Londres. Não há notícias sobre quem são seus administradores. Dentre as poucas informações disponíveis em sua página na internet (já que o acesso completo é permitido somente a clientes), ela informa o seguinte: “Não somos um fundo que gere o dinheiro para terceiros, nem somos corretores. Fornecemos facilidades de crédito garantido contra ambos os ativos, tangíveis e intangíveis, além de fluxos de caixa robustos. Somos capazes de estruturar e/ou adquirir direitos (…). Nós também fornecemos serviços de consultoria para, por exemplo, entidades, indivíduos, associações, federações e detentores de direitos.”

A revelação do Football Leaks naturalmente ganhou bastante espaço na imprensa portuguesa. Afinal, o Benfica não recebeu diretamente do Monaco o combinado pela venda de um jogador. A pergunta que se fazia era por que uma empresa teria sido usada para intermediar o pagamento que deveria ser direto de um clube para outro?

A explicação do Benfica surgiu na nota citada no início da coluna. Segundo os encarnados, o clube queria receber logo os € 15,75 milhões e, por isso, procurou a XXIII Capital Limited para pegar uma espécie de empréstimo. “Tendo antecipado a totalidade dos créditos e tendo comunicado ao AS Monaco essa mesma cedência de créditos, à medida que se vencem as prestações acordadas, o clube monegasco vai, naturalmente, pagar à XXIII Capital Limited”, afirma a nota oficial, que também confirma a veracidade dos documentos apresentados pela Football Leaks.

Em tese, não há ilegalidade no processo. O que se estranha é a falta de transparência do Benfica, que em momento algum havia tornado pública esta operação. Mesmo afirmando, na nota, que esse tipo de procedimento é “habitualmente realizado por inúmeros clubes ou sociedades desportivas por toda a Europa que pretendem descontar os valores por receber dos contratos celebrados”, o caso só veio à tona porque o Football Leaks o revelou.

Na esteira do assunto, surgem dúvidas que não foram esclarecidas pelo Benfica. A principal delas é: quem paga pelos serviços da XXIII Capital Limited? Afinal de contas, mesmo misteriosa, certamente a empresa inglesa não é altruísta ao ponto de emprestar € 15,75 milhões ao Benfica, receber em três parcelas de € 5,25 milhões do Monaco (sendo a última delas um ano depois do empréstimo) e não faturar nada.

Na nota oficial publicada em seu site, o Benfica preferiu atacar a imprensa pelo barulho feito sobre a notícia. Frases como “total desconhecimento de quem tem responsabilidades editoriais em Portugal” e “bastava alguma prudência e uma análise menos tosca dos documentos e ter-se-ia evitado escrever barbaridades como ‘os milhões de Bernardo Silva não foram para a Luz’ e outras semelhantes que encarnam um jornalismo tablóide sem qualquer preocupação com o rigor da informação” ocupam boa parte do texto.

O Benfica tem todo o direito de não gostar do que a imprensa noticiou e até mesmo de criticá-la. Mas ao fazer isso sem esclarecer quanto a XXIII Capital Limited ganhou no negócio e por que o próprio Benfica não havia tornado a transação pública, qualquer crítica perde a credibilidade. Mesmo tentando desviar o foco do assunto, as perguntas cruciais seguem sem resposta.

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