“Dissemos no Brasil que perdendo não estaria tudo mal. Fizemos uma opção consciente e ponderada, com a renovação de contrato do técnico da seleção até a Eurocopa, para que liderasse um necessário processo de transição.”

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A afirmação é do presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Fernando Gomes, foi feita no final do mês passado e teve validade curta. Algumas semanas – e uma derrota para a Albânia em casa, na estreia portuguesa nas eliminatórias para a Euro – depois, Gomes achou que era a hora de mudar. Demitiu Paulo Bento, o técnico que até então estava garantido no cargo.

No comunicado oficial sobre a saída do treinador, a FPF diz que a decisão foi tomada “conjuntamente” entre as partes. E pelo que a imprensa portuguesa apurou e publicou nos últimos dias, parece ter sido mesmo um acordo de cavalheiros. Bento viu que não dava mais para ficar e Gomes não fez qualquer esforço para convencê-lo do contrário.

Mais importante do que saber se o técnico pediu para sair ou ganhou o boné, o que interessa agora é tentar analisar os desdobramentos, na seleção portuguesa, da saída do homem que a conduziu desde setembro de 2010, quando assumiu em lugar de Carlos Queiroz.

Paulo Bento não teve um trabalho excepcional, mas possui alguns méritos. Logo na chegada, conseguiu a recuperação nas eliminatórias da Euro e levou a seleção à competição disputada na Polônia e na Ucrânia. Não sem antes passar por um playoff (contra a Bósnia), algo que parece estar se tornando uma tradição da equipes das quinas.

Na Euro, Portugal surpreendeu. Chegou até a semifinal e só perdeu nos pênaltis para a Espanha, que viria a ser campeã. O bom desempenho reacendeu as esperanças da torcida, que almejava uma classificação tranquila para a Copa do Mundo no Brasil.

Mas, então, a irregularidade da seleção apareceu novamente. Nem tanto por ter sido superada pela Rússia, mas por tropeços contra Irlanda do Norte e Israel. Não fosse a exuberante atuação de Cristiano Ronaldo no playoff (mais um) contra a Suécia, é provável que os portugueses assistissem à Copa somente pela TV.

O desempenho no Brasil, porém, esteve longe de receber qualquer elogio. Portugal não conseguiu o único objetivo que havia traçado: a classificação às oitavas de final. E ainda andou às voltas com polêmicas envolvendo a escolha de Campinas como local de preparação e problemas de má preparação física dos jogadores.

Mesmo assim, os dirigentes da FPF afirmaram, ainda em território brasileiro, que o contrato do treinador seria mantido até o fim. A postura minimizou as especulações quando a delegação retornou a Portugal mas, viu-se agora, não era definitiva. A derrota para a Albânia, num dos piores resultados da equipe em todos os tempos, foi a gota d’água para a mudança. E isso mesmo com Paulo Bento tendo sido “promovido”, dias antes, a membro do recém-criado Gabinete Coordenador Técnico Nacional, um órgão da federação responsável por planejar o futuro da seleção em médio e longo prazo.

Paulo Bento deixa o cargo como o terceiro técnico que mais vezes dirigiu Portugal. Foram 46 jogos disputados, número inferior somente a Luiz Felipe Scolari (74) e Carlos Queiroz (49). Sob seu comando, a seleção teve 25 vitórias, 11 empates e nove derrotas, com 86 gols marcados e 48 sofridos.

Entre o legado deixado pelo treinador está a estreia de 23 novos jogadores com a camisa da seleção, entre eles os titulares Rui Patrício e João Pereira. Também está a capacidade de fazer Cristiano Ronaldo voltar a marcar gols: foram 27, em 37 jogos disputados. Com Carlos Queiroz, Ronaldo havia balançado as redes duas vezes em 18 partidas.

Por outro lado, depender somente de Cristiano Ronaldo foi um dos pecados cometidos por Paulo Bento. Claro que, quando se tem um dos melhores jogadores do mundo no seu time, é natural que haja uma certa dependência. Mas o treinador errou ao não criar alternativas para os dias em que Ronaldo não estivesse em campo ou em que lhe faltasse inspiração.

Outro problema foram as polêmicas, que desgastaram a imagem do treinador ao longo do tempo. Por causa delas, nomes como Ricardo Carvalho, Bosingwa e Danny deixaram de vestir a camisa da seleção.

Colocando na balança, parece claro que deixar de contar com os serviços do técnico foi uma decisão acertada da FPF. Paulo Bento passa a impressão de que, pelo menos no atual estágio da carreira, não é capaz de mais do que já mostrou.

O problema foi que os dirigentes demoraram demais para tomar a decisão, que deveria ter acontecido logo depois da Copa do Mundo. Agora, quem chegar precisará colocar em prática o processo de renovação e ao mesmo tempo correr atrás da recuperação tanto na tabela das eliminatórias, quanto na auto-estima de jogadores e torcida.

O próximo treinador deverá ser mesmo um português. O nome mais cotado é o de Fernando Santos, que dirigiu a Grécia na última Copa do Mundo. Mas uma suspensão de oito jogos internacionais que recebeu pela expulsão no Mundial pode atrapalhar as coisas. Leonardo Jardim (ex-Sporting e agora no ex-rico Mônaco) corre por fora, assim como Jesualdo Ferreira (que já passou pelos três grandes e está parado desde o ano passado, quando dirigiu o Braga) e Vítor Pereira (ex-Porto, atualmente no Al-Ahili, da Arábia Saudita).

Seja quem for o novo técnico da seleção, terá muito trabalho pela frente. Pode, inclusive, começar teimando em não ser teimoso como Paulo Bento.

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