Conforme os resultados das medidas de isolamento social de cada país vão permitindo, algumas ligas europeias se preparam para retomar suas disputas de portões fechados. O cenário sem precedentes poderá criar terrenos de jogo mais equilibrados, segundo pesquisas.

A revista Wired, em sua versão britânica, recolheu declarações e resultados de pesquisa de diversos estudiosos para entender como a ausência de torcida poderia influenciar as partidas de futebol.

Em 2011, Niels van de Ven, professor da Universidade de Tilburgo, nos Países Baixos, analisou partidas entre times que dividem um estádio, como Internazionale e Milan, chegando à conclusão de que “em jogos em que ambos os times são igualmente familiarizados com o estádio, não existe vantagem do time da casa”.

Van de Ven afirma que seu estudo sugere que a familiaridade com o estádio, ou seja, estar habituado às dimensões e às condições do gramado, é mais importante do que a presença da torcida, e que o ritual rotineiro de ida ao estádio e preparação para o jogo nas instalações já bem conhecidas também ajuda.

Já em 2014, as pesquisadoras Michela Ponzo e Vincenza Scoppo descobriram que, mesmo quando times compartilhavam um estádio, o time da casa marcava 0,45 gol a mais que os visitantes, com 13% maior probabilidade de vencer. Isso sugeria, então, uma influência da torcida.

Alan Nevill, professor de ciência do esporte da Universidade de Wolverhampton, está mais próximo da linha de Ponzo e Scoppo. Em 2002, o pesquisador conduziu um estudo com 40 árbitros, pedindo que eles analisassem imagens de diferentes jogadas de possível falta. Em algumas situações, ele introduzia o som de fundo, enquanto outras tinham apenas a imagem. Segundo ele, o barulho de fundo deixava os árbitros mais incertos e menos propensos a dar faltas contra o time da casa.

Segundo a Wired, pesquisadores de Harvard também chegaram à conclusão de que o público têm influência no resultado, e quanto mais pessoas, melhor. De acordo com eles, times da casa na Premier League marcavam 0,1 gol extra em média para cada dez mil torcedores no estádio. Isso, no entanto, estaria menos ligado a um impulso aos jogadores e mais atrelado à influência do público nos árbitros, mais propensos a mostrar cartões vermelhos aos visitantes e apitar pênaltis aos times da casa.

De acordo com Nevill, nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, os times da casa na Inglaterra eram significativamente mais propensos a perder fora de casa devido à influência da torcida local nas decisões do árbitro. Os efeitos dessa vantagem local eram equivalente a um gol extra, segundo Nevill. Porém, esses efeitos diminuíram ao longo dos anos e hoje equivalem, de acordo com o professor, a cerca de 0,5, número próximo daquele descoberto por Michela Ponzo e Vincenza Scoppo.

“É difícil dizer, e quase impossível provar, mas, com base na minha pesquisa, eu diria que mais da metade da vantagem do time da casa vem do público e da possibilidade do público influenciar os árbitros”, pontuou Nevill.

Essas descobertas abrem espaço para expectativas de uma disputa diferente do que já vimos, sobretudo na Premier League, cujo reinício estaria condicionado à realização das partidas em campos neutros. Sem a vantagem da pressão da torcida ou da familiaridade com o gramado, a tendência é de maior equilíbrio do que se observaria em condições normais.

Mas nem todos pensam assim. O Brighton, por exemplo, que tinha cinco de suas nove partidas restantes a serem disputadas em casa, se vê prejudicado por jogos em campo neutro, já que enfrentaria equipes fortes como Arsenal, Manchester United, Liverpool e Manchester City como mandante e contava com o apoio de seus torcedores ou ao menos a familiaridade com o Estádio Amex para tentar enfrentar oponentes muito acima de seu nível.

Independentemente disso, não há solução ideal em meio a esta pandemia, e uma escolha terá que ser tomada, dificilmente agradando a todos ou oferecendo a melhor das condições a todos os envolvidos.