Beira o enigmático o que está acontecendo com Portugal na Eurocopa. Nos dois primeiros jogos, o time chutou a gol 49 vezes e marcou apenas um. Os empates contra Islândia (1 a 1) e Áustria (0 a 0) – este com direito a pênalti desperdiçado por Cristiano Ronaldo – abriram caminho para o risco da eliminação precoce, algo impensável antes do início do torneio. Se não ganhar da Hungria nesta quarta-feira (22), a seleção lusitana terá de fazer as malas e voltar para casa bem mais cedo do que imaginava.

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A incoerência entre o futebol praticado (que não vem sendo ruim) e os resultados é um dos temas abordados nas entrevistas do técnico da seleção portuguesa, Fernando Santos. E não só nelas. Além das coletivas oficiais, o treinador inovou nesta Euro e tem reunido os jornalistas para um bate-papo informal, porém sem qualquer restrição à publicação do que é falado.

As reuniões acontecem sempre no dia seguinte aos jogos de Portugal (foram duas até agora, portanto). Diferentemente do que fez Luiz Felipe Scolari na Copa do Mundo de 2014, quando reuniu um pequeno grupo de jornalistas brasileiros para uma conversa quase em segredo, o português abre a reunião a todos os repórteres portugueses que marcam presença diariamente na concentração. Eles ficam livres para gravar e registrar imagens do encontro, que dura cerca de uma hora, sem qualquer restrição.

O limite do treinador nessas conversas é, compreensivelmente, não criticar seus comandados. Fernando Santos busca argumentos para defender seus atletas e evita fazer qualquer comentário que desabone a atuação de algum jogador. No último encontro, por exemplo, saiu em defesa do criticado João Moutinho e garantiu Cristiano Ronaldo como o batedor de pênaltis oficial da equipe, independentemente do erro diante da Áustria.

É evidente que nem todos concordam com os pontos de vista apresentados pelo treinador nessas conversas. Mas o fato de serem apresentados de maneira tão transparente e calma vem chamando a atenção. Nos encontros, Fernando Santos explica o esquema e as variações táticas que usa (ou o que pretende utilizar). Fala também sobre suas opções na escalação e analisa atuações individuais (nesse caso, sempre puxando para o lado positivo). Comenta até assuntos que não são diretamente relacionados ao futebol.

Fernando Santos parece entender muito claramente que, ao falar com jornalistas que cobrem o dia a dia da seleção portuguesa, está se dirigindo, na verdade, aos torcedores. Ao explicar suas opções, ele dá chance de as pessoas saberem o “outro lado” da história, ainda que não se concorde com alguma atitude ou decisão do treinador.

O que acontecer com a seleção lusitana dentro de campo na Euro, para o bem ou para o mal, terá peso na avaliação do trabalho do técnico. E esta avaliação não pode (e nem deve) ser influenciada pela simpatia dele no trato com os profissionais de imprensa e pela preocupação em dar satisfação sobre suas escolhas. Mas a atitude de Fernando Santos – e da Federação Portuguesa, que apoia os encontros – merece todos os elogios. É algo que poderia ser copiado por muita gente.