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À medida que as principais competições europeias passaram a decidir pelo retorno do futebol, um movimento iniciado pela Bundesliga e que, por fim, chegou à Premier League, à Serie A e a La Liga, a insatisfação com o fim antecipado da Ligue 1 cresceu na França. Mais do que a retomada ou não do campeonato, o que se põe em questionamento é a pressa com que a decisão foi tomada. Revelações dos bastidores apontam para lobbies, uma disputa entre Lyon e Olympique de Marseille e, como noticiado nos últimos dias, a interferência de Emmanuel Macron, que teria atropelado o processo que vinha sendo feito para o reinício da competição.

Como nos outros países, a organizadora do campeonato local, a Liga de Futebol Profissional (LFP), trabalhava em um protocolo de retomada da Ligue 1 mesmo em meio aos dias mais difíceis da crise que o governo francês tratava como “uma guerra”. Os esforços de distanciamento social passavam a dar resultados na sociedade, e no futebol o protocolo para o reinício era exaustivamente trabalhado. O objetivo era ter um plano definido para quando a situação sanitária permitisse. Por fim, sob o comando do diretor executivo Didier Quillot, a LFP tinha pronto um plano que se assemelhava ao da Alemanha para a retomada do futebol, na esperança de voltar aos gramados em junho.

Até que, em 28 de abril, durante pronunciamento à nação, o primeiro-ministro da França, Édouard Philippe, anunciou que a temporada do futebol francês não poderia ser retomada, e que esportes profissionais não poderiam voltar antes de 1º de setembro. Do ponto de vista político, não havia muita contestação à decisão. A prioridade era a saúde da população, e o fim da Ligue 1 era apenas um dano colateral do combate à pandemia. Dois dias após a fala de Philippe, a Ligue 1 confirmava a classificação final a partir da média de pontos por jogo de cada equipe. Evidentemente, os clubes mais afetados não viram desta maneira.

Ainda com chances matemáticas de se salvarem, Amiens e Toulouse acabaram rebaixados e, obviamente, são duas das partes interessadas em um reinício da competição. Mas é um terceiro ator, o mais pesado deles, que toma a dianteira na briga pela volta do campeonato: o Lyon, de Jean-Michel Aulas.

Ao longo das últimas semanas, Aulas virou um porta-voz ferrenho pelo retorno da Ligue 1. O motivo é fácil de entender: pela classificação final determinada, o Lyon, sétimo colocado, ficaria de fora de uma competição europeia pela primeira vez em mais de 20 anos. Um saldo bastante negativo face a um futuro próximo difícil financeiramente, em decorrência das perdas causadas pela pandemia.

Jean-Michel Aulas, presidente do Lyon (Divulgação)

Quase todos os dias ao longo de maio, Aulas ganhava manchetes na imprensa francesa, com acusações, questionamentos e até mesmo sugestões de como o Campeonato Francês poderia ser reiniciado: entre elas, a ideia de playoffs. Grande clube como é, o Lyon é alvo natural de torcidas de outras equipes, e o espetáculo midiático de Aulas era visto como prato cheio para o deboche. Mas o presidente lyonnais ganharia apoiadores nas últimas semanas como consequência das decisões tomadas nos países vizinhos.

A Bundesliga puxou o bonde entre as grandes competições europeias ao anunciar seu retorno. Mais recentemente, Premier League, Serie A e La Liga fizeram o mesmo, tudo enquanto a França parecia controlar cada vez mais a pandemia e avançava com seu plano de desconfinamento. A opinião pública agora tomava um lado claro: “Como idiotas?”, questionou o L’Équipe em sua capa de 29 de maio, apontando o reinício de todas essas competições enquanto a Ligue 1 havia sido encerrada.

A essa altura, estava claro que, na melhor das hipóteses, o futebol francês havia se precipitado em sua decisão de terminar o campeonato antecipadamente. Mas um último detalhe viria para ser a faísca final da confusão: a interferência de Emmanuel Macron.

Conforme revelado por veículos como o jornal Le Parisien e a emissora RMC Sport, em seu discurso de 28 de abril, Édouard Philippe estava sendo apenas o mensageiro de uma escolha que havia sido tomada, na verdade, por Macron. O presidente da França, no final de semana de 25 e 26 de abril, entrou em contato por telefone com quatro figuras do futebol nacional para uma consulta sobre a viabilidade de uma retomada da Ligue 1. Primeiro, com Pierre Ferracci, presidente do Paris FC, clube da segunda divisão francesa, e pai de Marc Ferracci, próximo de Macron. Segundo a RMC Sport, Marc havia dito a Macron que retomar o futebol seria um erro político.

O próximo na lista foi Noël Le Graët, presidente da Federação Francesa (FFF). Sua preocupação, como ficou claro em entrevista após o anúncio de Philippe, era especialmente uma: salvar a final da Copa da França e os jogos da seleção francesa em setembro. Não se sabe qual foi seu posicionamento na conversa com Macron, mas anteriormente Le Graët era favorável ao retorno.

A terceira figura consultada, então, foi Didier Deschamps, técnico dos Bleus. Segundo a reportagem da RMC Sport, seguindo o espírito do momento, o treinador achava que o futebol não deveria retornar e imaginava que outras ligas também não voltariam. Seu posicionamento mais recente segue de apoio ao fim da Ligue 1, de forma a evitar ir de encontro ao governo francês.

Por fim, a quarta e mais polêmica consulta feita por Macron foi com Jacques-Henri Eyraud, presidente do Olympique de Marseille. A revelação da conversa já suscita irritação pelo fato do clube marselhês ter se beneficiado com a decisão pelo fim antecipado da Ligue 1. Em dificuldades financeiras e vivendo um momento de escrutínio por parte do Fair Play Financeiro, a equipe terminou na segunda colocação, garantindo um retorno à Champions League após sete anos, resultado importante para as futuras finanças do clube. Para piorar, Macron é publicamente torcedor do Olympique de Marseille.

Jacques-Henri Eyraud, presidente do Olympique de Marseille (Divulgação/Ligue 1)

Isso tudo rolava nos bastidores, mas a batalha de lobbies entre Eyraud, do Marseille, e Aulas, do Lyon, era bastante pública, com troca de acusações entre os dois presidentes, insultos partindo de ambos os lados em uma reunião dos clubes com a liga em abril e a percepção crescente de que cada ator do futebol nacional estava agindo apenas por seus interesses próprios.

A decisão então tomada por Macron e anunciada por Édouard Philippe é, por fim, também um instrumento de comunicação e política. O entendimento seria de que, se o futebol voltasse, com testes à disposição dos jogadores enquanto estão em falta na sociedade, a percepção pública seria ruim, especialmente após o que ficou visto no país, em março deste ano, como o “escândalo das máscaras”, quando foi constatado que a França tinha um estoque de apenas 110 milhões de máscaras FFP2, eficazes contra a disseminação do Coronavírus, quando este número era de mais de um bilhão dez anos atrás.

Paralelamente, exceto pelos clubes diretamente afetados pela decisão, Lyon, Amiens e Toulouse, nenhuma outra equipe se atreveu a se posicionar a favor do retorno do campeonato, porque isso seria visto como um posicionamento guiado pela visão financeira em detrimento da saúde da população. Com a garantia de um empréstimo do estado aos clubes para o rescaldo da crise sanitária, tampouco havia grande motivação para isso.

Apesar da alteração na balança da opinião pública sobre o caso, é bom salientar que dificilmente a escolha pelo fim da temporada 2019/20 será revertida. Na quinta-feira (4), Lyon, Amiens e Toulouse, clubes que brigam na justiça contra a decisão, estiveram em audiência no Conselho de Estado, defendendo seu caso na última instância possível nesta briga. A imprensa francesa, no entanto, antecipa que dificilmente uma deliberação favorável a eles será tomada. A expectativa é de uma resposta definitiva no início da próxima semana.

Cabe ressaltar também que, ainda que juntos na briga contra a decisão tomada pelas autoridades, Amiens, Toulouse e Lyon têm demandas diferentes. Enquanto os dois clubes rebaixados pedem apenas uma solução que invalide a determinação de sua queda, possivelmente com uma Ligue 1 de 22 clubes em 2020/21, o Lyon busca o reinício do campeonato para que possa ter uma chance, ainda que pequena, de classificação a competições europeias.

Didier Quillot, diretor executivo da Liga de Futebol Profissional, reforçou que sua entidade existe “para representar o interesse geral dos 40 clubes (das duas primeiras divisões), e temos diante de nós três clubes que só estão aqui para falar de seu interesse particular”.

Em toda a bagunça que esta novela já gerou, não é simples chegar a um consenso sobre qual teria sido a decisão mais acertada. O que parece cada vez mais próximo de uma unanimidade é a noção de que houve, sim, pressa para se definir o passo final para a temporada. Ainda assim, é preciso levar em conta que as próprias competições que anunciaram seu retorno estão tomando um risco, diante da situação sem precedentes que vivemos e das poucas informações que ainda temos sobre a Covid-19 e suas consequências a longo prazo.