Como todos sabem, futebol é o esporte mais popular do mundo. Em qualquer canto que se vá no planeta, não importa se num campo gramado, numa rua, na praia ou em um terreno baldio, seja uma bola 'oficial', de capotão ou de meia, crianças e adultos se divertem jogando este esporte que desperta paixões e é muitas vezes tratado como uma religião por seus seguidores.

Porém, justamente no país mais rico do planeta, nosso futebol não figura entre os esportes mais populares e seguidos pela população. Nos Estados Unidos, país completamente obcecado por esportes, o futebol que desperta paixões no 'resto' do mundo ainda é tratado como um esporte secundário. Não é nem chamado de futebol, mas sim de soccer!

Mesmo que este panorama esteja mudando nos últimos tempos e exista um consistente aumento de popularidade do futebol nos Estados Unidos (atualmente é o esporte coletivo que mais cresce no país e, segundo dados da FIFA, os EUA é o país com o maior número de jogadores federados no mundo), além do fortalecimento da MLS e a melhora da seleção norte-americana em campeonatos internacionais, o futebol ainda está longe de chegar perto da popularidade dos 'Big Three', os três esportes mais populares dos EUA: baseball, futebol americano e basquete (o hóquei sobre o gelo fazia parte desse grupo, mas perdeu muito espaço nos últimos anos e se afastou). Mas quais seriam as razões para este descaso dos norte-americanos com o esporte mais popular do planeta?

Importante ressaltar que esta coluna não tem qualquer pretensão de ser exaustiva e esgotar o assunto, nem sequer apresentar todas as razões que possam existir para este fato. Queremos aqui simplesmente fazer um breve exercício das principais razões (na nossa humilde opinião) que podem explicar o fato do futebol não ser popular nos EUA.

Uma outra importante ressalva a fazer antes de entrarmos na discussão propriamente dita, é o fato de que essa baixa popularidade que tratamos aqui se refere às ligas e disputas profissionais. Não há nenhuma dúvida que o futebol é um esporte muito popular entre as crianças e os adultos 'amadores', especialmente os de origem latina. O que vamos discutir aqui são as razões deste esporte não ser popular no nível profissional e não atrair a atenção do grande público.

Falta de tradição

O primeiro motivo que pode ser alegado para o futebol ser relegado a um plano secundário entre os esportes praticados nos Estados Unidos é a falta de tradição deste esporte no país. Deixando de lado as razões históricas, o fato é que o futebol chegou à América (nos moldes que conhecemos hoje) no século XIX, mas nunca conseguiu firmar-se entre os favoritos dos americanos, ao contrário de outros esportes.

Por este motivo, inúmeras gerações de norte-americanos cresceram aprendendo a cultivar seus ídolos no futebol americano, baseball e basquete, para ficar nos esportes mais populares. E essa transmissão de 'gosto' por esses esportes foi passando de geração a geração e, assim, foi formando a tradição desses esportes e o seu crescimento, chegando até hoje com ligas bilionárias que são acompanhadas não apenas nos Estados Unidos, mas também em diversas partes do mundo.

Portanto, por incompetência ou fatos alheios à vontade das pessoas que administravam o futebol nos Estados Unidos à época, o futebol perdeu seu espaço lá atrás, no começo do desenvolvimento dos esportes que conhecemos hoje, e por isso deixou de se desenvolver entre os gringos.

E a falta de tradição deu início a uma cadeia que foi afastando cada vez mais o futebol dos outros esportes mais populares. Isso porque os esportes que se desenvolveram no gosto dos norte-americanos foram cada vez mais atraindo público, e com isso geraram mais dinheiro, que atraíram jovens e crianças que queriam tornar-se profissionais, surgindo novos ídolos, que por sua vez atraíam mais público, etc. E o resultado hoje são ligas profissionais bilionárias que estendem seus braços para outras partes do mundo e que não dão espaço ao futebol.

Com isso, mesmo sendo os Estados Unidos um país grande e rico, com enorme apetite para assistir e jogar esportes, o espaço principal já está há muito tempo ocupado pelos 'Big Three'.

Aliás, um desses três esportes – o basquete – apresenta um obstáculo natural à aceitação nacional do futebol. Na visão do público norte-americano, os dois esportes são muito similares para que ambos tenham sucesso, afinal os dois esportes pertencem a uma categoria de jogos cujo objetivo é colocar uma bola dentro de um espaço determinado (a cesta ou o gol).

E pelo fato dos dois jogos apresentarem essa similaridade, eles têm o mesmo appeal. Os dois são esportes fáceis de seguir e pelo menos o objetivo de cada um é fácil de entender. Diferente de baseball e futebol americano, por exemplo, onde as regras e estratégias não são tão claras para os leigos. Futebol e basquete também são esportes fáceis de jogar. Eles não requerem equipamentos especiais e jogos informais podem ser feitos com um número pequeno de jogadores.

E na visão dos espectadores, ambos os esportes são muito criativos, pois trazem apresentações espontâneas de talento, com jogadores inovando diferentes maneiras de conseguir marcar um ponto.

Por essas razões, futebol e basquete são os dois esportes coletivos mais populares do mundo. No entanto, nos Estados Unidos, apenas o basquete até agora conseguiu atingir grande popularidade.

Questões culturais

Outro motivo que pode justificar o futebol não ter caído no gosto dos norte-americanos é a diferença nas suas regras e na sua apresentação ao público, em relação aos esportes 'tradicionais'. Todo esporte considerado bastante popular nos Estados Unidos, no geral, tem o tempo dividido e um cronômetro que pára quando a bola sai ou o time precisa de um tempo (com exceção do golfe e do tênis, por exemplo, onde os intervalos acontecem independentemente da contagem do tempo).

No futebol, ao contrário, existem apenas dois tempos e o cronômetro não pára até que o juiz apite o final de cada tempo. Isso pode parecer bobagem para um latino ou europeu acostumado às partidas de futebol, mas faz uma enorme diferença para o espectador norte-americano, e é muito diferente ao que este está acostumado nos outros esportes. Se o tempo não pára, tirando os 15 minutos de intervalo, quando o torcedor vai poder comprar suas comidas e bebidas? Quando as equipes ou os donos dos estádios terão tempo para colocar as cheerleaders ou fazer promoções? E, pior, como as redes de televisão vão colocar tantos anúncios no ar em tão pouco tempo?

Pode não parecer, mas essa questão 'cultural' faz sim muita diferença para o público norte-americano, especialmente para as redes de televisão, que não tem como encaixar muitos anunciantes nos curtos espaços de intervalo que o futebol proporciona.

Outro fator cultural que pode explicar a falta de interesse dos americanos no futebol é o fato de um jogo poder terminar empatado. Os americanos querem vencedores e resultados conclusivos para seus jogos. Baseball e basquete, por exemplo, têm regras que proíbem o empate: os dois times jogam até que saia um vencedor. No futebol americano, no entanto, os empates eram comuns até os anos 80, quando, em resposta às reclamações do público, as regras foram alteradas. Desde então, os jogos de futebol americano profissionais raramente terminam em empate.

Mesmo o método utilizado para acabar com os empates nos jogos de futebol não agradam os americanos. A disputa de pênaltis é vista como uma forma arbitrária de desempatar o jogo, da mesma maneira que se jogasse uma moeda para decidir o vencedor da partida.

E ambos os fatos 'culturais' aqui mencionados dão início à mesma cadeia de acontecimentos mencionada acima, que faz com que o futebol se afaste dos esportes mais populares dos Estados Unidos.

Desde 1994, com a Copa do Mundo nos EUA, e 1996, com a criação da MLS, o futebol tem cada vez mais ganhado a atenção dos norte-americanos. Se ainda está longe de chegar próximo aos 'Big Three', com certeza já não é mais considerado um esporte estranho praticado por estrangeiros.

Além disso, recentes escândalos mancharam um pouco a imagem dos ‘Big Three’. No futebol americano, o quarterback do Atlanta Falcons Michael Vick, um dos maiores nomes do esporte, está sendo acusado de financiar brigas de cachorros, participar em apostas ilegais e de maus tratos a animais.

No baseball, o jogador Barry Bonds do San Francisco Giants bateu o recorde de home runs que já durava mais de 30 anos. Só que o jogador é acusado de uso ilegal de anabolizantes, o que mancha este recorde histórico. Por fim, no basquete, o juiz Tim Donaghy é acusado de participar em apostas ilegais nos jogos em que atuava (Edílson?!), incluindo jogos dos playoffs da NBA.

Por outro lado, em meio a todos estes escândalos, teve a chegada de David Beckham à América, que espera-se que aumente a atenção e a popularidade do esporte entre os ianques.

Mesmo com todos os fatos negativos em relação ao ‘Big Three’ e com a festa em torno do soccer, quase nada deve mudar no panorama dos esportes nos Estados Unidos. Se o próprio Beckham admitiu que não tem a intenção de mudar a cultura norte-americana e criar uma tradição da noite para o dia, o que se espera é que pelo menos o futebol entre no radar dos fãs de esporte em todo o país e encontre seu nicho, e que aos poucos uma cultura futebolística seja criada nos Estados Unidos.

SHOOTOUTS

– Você sabe qual a origem da palavra soccer? O nome original do futebol é 'futebol associado', que em inglês é association football, cuja abreviação fica assoc. football. E o nome soccer vem justamente de uma derivação da abreviação de association, assoc., que virou soccer.

– O primeiro time oficial de futebol surgido nos Estados Unidos chamava-se 'Oneidas', e foi fundado em 1862 em Boston.

– A primeira tentativa de se formar uma liga profissional de futebol nos Estados Unidos ocorreu em 1884, com a Liga Americana de Futebol Profissional (American League of Professional Football). A tentativa, porém, foi frustrada, e a liga fechou no mesmo ano.

– A U.S. Soccer Federation, a federação de futebol dos Estados Unidos, foi criada em 1913. A nossa CBF (originalmente CBD) foi criada apenas em 1919.

– Segundo recente pesquisas, o esporte mais popular entre os americanos é o futebol americano, e o esportista mais popular é o jogador de golfe Tiger Woods.