Por Fernando Martinho

Em novembro de 2018, o valor do dólar na Argentina era de aproximadamente 40 pesos argentinos. Entre um jogo e outro da final da Libertadores entre Boca Juniors e River Plate, quando de tudo aconteceu, era possível fazer a seguinte conta: 1 real é igual a 10 pesos. O dólar tinha uma cotação de mais ou menos R$ 4 à época.

Um ano depois, o valor do peso argentino caiu e muito. O ano eleitoral acompanhado de uma péssima política econômica do governo Mauricio Macri faziam a moeda americana se valorizar e a inflação atingir níveis recordes. Em 2019, a inflação passou de 54% ao longo do ano [na região, só a Venezuela possui um índice superior: 10 bilhões percentuais], de acordo com o Indec, o órgão responsável pelas aferições econômicas do país.

Naquela final entre Boca e River, o camisa 7 dos Xeneizes e o número 10 dos Millonarios eram Cristian Pavón e Gonzalo “Pity” Martínez. Ambos foram atrás dos valiosos dólares em 2019 e se juntaram a outros argentinos que já jogavam na MLS.

Pity Martínez e Pavón não encontraram somente seus compatriotas jogando, mas também dirigindo times da MLS como Gerardo “Tata” Martino do Atlanta United e Guillermo Barros Schelotto do Los Angeles Galaxy. Até aqui tudo parece normal ou meras coincidências.

Entretanto, existe um fluxo que vêm acontecendo silenciosamente, sem nenhum alarde, mas que aponta uma realidade já. Se forem desconsiderados os canadenses, afinal, três times/franquias canadenses disputam a liga norte-americana, a Argentina é a nacionalidade com maior representatividade na competição.

Em um artigo recente sobre a presença de Daniele De Rossi no Boca Juniors, o renomado jornalista e escritor Jonathan Wilson escreveu em sua coluna no The Guardian que mais de 1800 argentinos jogam no exterior. Quinze deles jogam na Série A do Brasileirão e 32 na MLS.

Para efeito de comparação, em La Liga, são 26 argentinos e na Serie A italiana são 24 hermanos, competições historicamente muito mais relacionadas com jogadores platinos até por questões históricas, já que milhões de argentinos são descendentes diretos de imigrantes espanhóis e italianos e o futebol não ficaria imune a esse fluxo migracional que aconteceu até meados do século XX de forma mais massiva.

O expressivo número desses argentinos na MLS se dá por escolha e por uma circunstância mercadológica que tem tudo a ver com a situação econômica e política da Argentina que atinge diretamente o futebol do país.

Eleito em 2015, o governo Macri prometeu uma política econômica bem diferente da anterior. Sua antecessora, Cristina Kirchner, deixou o cargo com uma economia muito conturbada. Intervenções no câmbio eram de praxe, desde o preço fixado de acordo com o humor da presidenta até a limitação de compra da moeda americana (ou de qualquer outra). Um cidadão argentino só podia comprar uma determinada quantidade por mês nos bancos e casas de câmbio.

Em 2015, o valor do dólar oficial era de aproximadamente 9 pesos argentinos. No mercado paralelo, onde os cidadão podiam comprar quaisquer quantidades livremente, o valor chegava a 13 pesos.  Após assumir a presidência, Mauricio Macri acabou com a intervenção no câmbio e o próprio mercado passou a estipular as cifras diariamente.

Mas com uma economia que nunca decolou como Macri prometera, a incerteza levou os argentinos à tradicional prática: comprar dólares para não perder suas poupanças para a inflação. O preço subia a cada mês e nada era capaz de conter a desvalorização da moeda.

Em agosto de 2018, na prévia do jogo de volta das oitavas de final da Libertadores contra o Libertad em Assunção no Paraguai, Daniel Angelici declarou à Fox Sports da Argentina que seria muito difícil repatriar jogadores com o aumento do dólar: “Vai ser difícil contratar jogadores que ganhem altos salários, pois apesar de fixarmos em pesos, partimos de valor em dólares. Quando fizemos as operações o dólar estava 22 pesos e vou ter que revisar vários contratos, pois o valor já não corresponde ao que foi acordado.”

Antes disso, no final de 2017, uma transferência peculiar talvez tenha marcado essa tendência, mas na época foi encarada como uma aberração ou um ponto fora da curva. Após ser campeão da Sul-Americana com o Independiente sobre o Flamengo em pleno Maracanã, o destaque e mais promissor jogador do Rojo, Ezequiel Barco, foi contratado pelo Atlanta United por 14 milhões de dólares quando ele tinha ainda 18 anos.

Como o técnico naquela altura já era Tata Martino, pareceu ter sido uma indicação do treinador, o que justificava a transferência atípica. Mas após as chegadas de Pity Martínez também ao Atlanta United e de Guillermo Barros Schelotto e Cristian Pavón ao LA Galaxy, ficou claro que havia um fluxo e não era por acaso.

Os argentinos ficaram mais suscetíveis a aceitar propostas que garantiam contratos estáveis e, mais do que isso, que fossem confiáveis. Muitos clubes atrasam os salários dos jogadores e técnicos e na MLS isso simplesmente não acontece. No entanto, a instabilidade cambial passou a ser determinante.

Os argentinos passaram a ser muito mais baratos do que os mexicanos que cobram altos salários na sua liga e qualquer franquia da MLS pode oferecer um contrato que somente Boca ou River poderiam arcar na Argentina e fora do país, com a disparidade financeira que passou a existir dos grandes clubes europeus em comparação com médios e pequenos, menos times podem pagar o que as franquias dos EUA pagam, ainda mais por jogadores que são apostas, seja como Ezequiel Barco, de 18 anos, seja Pity Martínez, já aos 26 anos.

Assim a MLS passou a ser um destino para os jogadores argentinos sejam veteranos ou jovens como é o caso de Matias Pellegrini do Estudiantes de La Plata, que assinou com a nova franquia Inter Miami, de propriedade de David Beckham. O jovem talento de 19 anos foi comprado por um valor que pode chegar aos US$ 9 milhões.

Pellegrini será o 33.º jogador argentino a jogar na MLS em breve. Além dos já citados Pity Martínez, Barco e Pavón, ele se juntará a Nico Gaitán do Chicago Fire, que teve passagens por Benfica e Atlético de Madrid, e Maxi Moralez, que jogou quatro temporadas na Atalanta.

A presença de argentinos é tão significativa que serão, a partir da chegada de Pellegrini, onze os “jogadores designados”, aqueles que ganham acima do teto salarial, como ocorre nas ligas esportivas norte-americanas. A Argentina é quem tem mais jogadores designados, mais que os próprios EUA, que tem 7 “designated players”.

Sebastián Blanco, um dos vários argentinos entre os jogadores designados, falou que é difícil pensar em voltar pro seu país. Em entrevista à TyC Sports em dezembro de 2018, ele comentou que lá é possível sair com a família mesmo quando as coisas não vão bem e que isso pesa.

Diego Valeri, companheiro de Sebastián Blanco e de Brian Fernández no Portland Timbers, tem sido uma espécie de embaixador argentino na MLS. Ele acabou convencendo Blanco, com quem jogou junto nos tempos de Lanús com seus relatos.

Em fevereiro de 2018, concedeu um entrevista ao jornal Página 12, e disse que o principal razão por trás da mudança de ares foi a violência de seu país. Ele é de Lanús e jogava pelo clube de sua cidade quando seu carro com a sua família foi alvo de um ataque. “Foi violento e sofremos muito. Somos de Lanús e sempre convivimos com isso. É algo que pode acontecer com qualquer um. Portland me preencheu em alguns aspectos e também por viverem o futebol muita paixão.”

Diego Valeri ressaltou que não foi um decisão pensada somente no lado financeiro: “Claro que isso é importante, mas quando tomamos a decisão, decidimos pensando nos três da família, eu, minha esposa e minha filha. Isso era o mais importante, a família era a minha prioridade.”

Logo antes da segunda partida da final da Libertadores entre Boca e River, disputada em Madri, Diego Valeri também estava prestes a disputar a final da MLS Cup e durante a entrevista coletiva prévia ao jogo foi perguntado sobre a diferença entre as realidades, da Argentina e dos EUA quanto às suas torcidas, ele respondeu de forma que explicava bem o porquê de sua comodidade em terras norte-americanas: “O futebol argentino está doente. É uma doença a questão dos barrabravas e como estão organizadas as torcidas e é algo verdadeiramente difícil de solucionar. Não sei qual é a cura dessa doença.”

Essa doença a qual ele se refere e essa estrutura organizada das barrabravas são parte de esquema mafioso onde dirigentes e jogadores acabam sendo os principais financiadores em troca de proteção das torcidas contra elas mesmas. “Los aprietes” ou “las apretadas”, são coações feitas sobretudo em épocas prévias à Copas do Mundo ou de finais da Libertadores quando os barrabravas desejam viajar para acompanhar à seleção ou seus times jogarem. Um esquema vicioso que é complexo e antigo no futebol argentino e como disse Valeri, não há cura.

No último domingo, Mauricio Macri perdeu as eleições presidenciais para o opositor Alberto Fernández que terá como vice, a ex-presidenta Cristina Kirchner. O fator determinante para a perda de popularidade de Macri foram os péssimos índices econômicos. Além de também ter gerido muito mal economicamente o país em seus dois mandatos, Cristina causou um grande problema pro futebol argentino com a criação do programa Fútbol para Todos que até hoje ainda deixa sequelas.

Apesar de aumentar significativamente as receitas dos clubes com dinheiro do Estado, os dirigentes aumentaram ainda mais as dívidas das agremiações, sem contar o inchaço de times na primeira divisão, que chegou a ter 30 participantes. Porém, como os clubes conseguiram separar a organização do campeonato da AFA, criando assim a Superliga Argentina em 2017, esse risco não parece existir, mas em se tratando de futebol argentino, assim como na política, tudo pode piorar sempre.

Alberto Fernández declarou à rádio FM Cielo, de La Plata, que não existe a possibilidade do futebol voltar a ser “patrocinado” pelo estado argentino. Para ele, o país tem outras prioridades: “a Argentina tem mil problemas mais importantes que o futebol. Não está nos primeiros mil lugares das minhas prioridades”, rechaçando qualquer possibilidade de envolvimento com o esporte mais popular do país. “Isso do Estado ir em socorro do futebol, não. O Estado tem que ir em socorro dos pobres”, agregou Fernández.

O futebol argentino segue como um dos mais tradicionais do mundo e dos mais fortes da América do Sul e das Américas em geral. Seus jogadores, porém, seguem decidindo trilhar o caminho dos Estados Unidos em busca de uma vida melhor.