Por que Son precisou se apresentar às forças armadas e como será o treinamento de quatro semanas

Quando conquistou a medalha de ouro nos Jogos Asiáticos de 2018, Son Heung-min comemorou duplamente. O título com a seleção era motivo de alegria, claro, mas o significado do ouro no peito ia além: graças àquele triunfo, o atacante e seus companheiros ganharam dispensa do serviço militar compulsório na Coreia do Sul. O astro do Tottenham, no auge de sua carreira, não correria o risco de interrompê-la para se juntar às forças armadas durante 24 meses – o que traria consequências óbvias ao seu rendimento em alto nível. Ainda assim, Son precisaria se apresentar a quatro semanas de atividades militares e, neste momento, aproveita a pausa nas competições para cumprir suas obrigações.

Conforme a legislação da Coreia do Sul, todo cidadão sul-coreano deve se alistar antes de completar 28 anos, para realizar o serviço militar. No entanto, o governo local permite algumas exceções. Após anistiar todo o elenco que participou da campanha até as semifinais da Copa do Mundo de 2002, a Coreia do Sul estabeleceu que medalhistas nas Olimpíadas ou vencedores dos Jogos Asiáticos estariam dispensados das forças armadas. Assim, Son correu atrás do ouro para ganhar a liberação.

Ao deixar a Coreia do Sul quando tinha 16 anos, para atuar no futebol europeu, Son postergou o seu alistamento. O atacante teve outras chances para ganhar a liberação, mas preferiu não disputar as Olimpíadas de 2012 (quando os sul-coreanos levaram o bronze) e não foi cedido aos Jogos Asiáticos de 2014 (quando faturaram o ouro). Assim, os Jogos Asiáticos de 2018 ofereciam a última oportunidade de evitar o serviço militar antes de completar os 28 anos. Caso não vencesse o torneio, o atacante precisaria se apresentar às forças armadas até o próximo mês de julho. Por não ter ensino superior, o astro provavelmente cumpriria seus 24 meses em serviços burocráticos ou em tarefas ligadas a instituições públicas, como escolas e hospitais.

A vitória com a seleção sul-coreana não desfalcará o Tottenham por duas temporadas e permitirá a Son manter seu desenvolvimento em alto nível na Premier League. No entanto, ao longo de quatro semanas, o atacante passará por um treinamento específico nas instalações militares da Coreia do Sul. Os Spurs anunciaram nesta semana que o jogador foi liberado para viajar ao seu país, onde realizará as atividades básicas de instrução e treinamento, compulsórias também aos dispensados. O atacante embarcou no final de março e atualmente cumpre quarentena. Dentro de alguns dias, iniciará o alistamento e retornará a Londres em maio.

Son deverá fazer seus treinamentos com a infantaria da Marinha, em uma base militar localizada na ilha de Jeju. Segundo informações de um fuzileiro naval à agência Reuters, o futebolista realizará diferentes simulações, em versão abreviada da rotina comum aos jovens recrutas. O atacante participará de uma marcha de 30 quilômetros, aprenderá exercícios de combate e praticará tiro. Também há testes de orientação para diferentes tipos de ataques – incluindo com armas biológicas, radiológicas e nucleares. Em uma das atividades, os recrutas entram em uma câmara de gás lacrimogêneo e precisam resistir por alguns minutos.

“Quando você está nas forças armadas, pode precisar disparar um rifle, respirar no gás e participar de uma batalha, rolando e rastejando pelo campo de guerra. Durante a marcha de 30 quilômetros, nossos recrutas regulares podem carregar até 40 quilos em equipamentos, mas isso tende a ser mais leve para outros novatos, dependendo do programa”, apontou o oficial da Marinha, à Reuters. Por causa da pandemia, os soldados recebem verificações médicas regulares e mantêm a distância entre si nas atividades.

Vale lembrar que Son se recupera de uma fratura no braço, sofrida contra o Aston Villa em fevereiro. O atacante precisou se submeter a uma cirurgia e deveria ficar de fora do restante da temporada. Em sua nota oficial, o Tottenham declarou que segue em contato com o jogador e seus médicos acompanham a recuperação da lesão. As forças armadas também se prontificaram a atender o astro em caso de necessidade. Até por isso, suas atividades podem ser ainda mais leves. O camisa 7, afinal, não precisa estar fardado para defender seu país da melhor maneira possível e representar o orgulho de uma nação.