“O tal do Van Bommel vai numa maldade…” Assim criticou o narrador João Palomino, dos canais ESPN, durante a Copa do Mundo de 2010, na semifinal entre Holanda e Uruguai, narrada por ele. Pouco antes, após a final da Liga dos Campeões daquela temporada, entre Bayern Munique e Internazionale, José Trajano, que comentou a partida em Madri e era o diretor de jornalismo dos canais à época, reclamou: “O Van Bommel não jogava nem no América!”.

Não importa que Mark Peter Gertruda Andreas van Bommel houvesse sido um meio-campista razoável em sua carreira, desde 1992, quando teve seu primeiro jogo no Campeonato Holandês, pelo Fortuna Sittard, até 2010, quando atingiu o ponto alto de sua carreira, sendo um dos líderes da seleção holandesa que seu sogro Bert van Marwijk treinava, no vice-campeonato mundial. O fato é que a imagem de “feio, sujo e malvado” que o meio-campista deixou na Copa colou nele.

E Van Bommel tem sofrido com isso em sua volta ao PSV, na atual temporada. O que era para ser uma espécie de “retorno à velha casa”, para encerrar a carreira – quem sabe, levantando a Eredivisieschaal -, tem sido o sofrimento com os árbitros. A tal ponto que, ao levar o cartão amarelo contra o Utrecht, no domingo passado, o camisa 6 dos Eindhovenaren via pela quinta vez um daqueles na temporada 2012/13.

Um recorde: nunca um mesmo jogador recebera tantos cartões amarelos nas primeiras rodadas de um Campeonato Holandês. O mais punido fora Raymond Atteveld, com cinco cartões amarelos em quatro jogos, atuando pelo Vitesse, em 1996/97. Entretanto, Atteveld já fora suspenso numa das partidas. Van Bommel só será suspenso agora.

E, claro, o amarelado reclamou bastante de suposta perseguição. Após levar o quarto cartão, no 5 a 1 dos PSV’ers contra o AZ, sugeriu que a Eredivisie adotasse o mesmo esquema usado em ligas maiores da Europa: a cada cinco cartões amarelos, não há suspensão, mas sim uma multa a ser paga pelo clube: “Aí, os amarelos são mais frequentes, mas todo mundo os aceita, porque ninguém será suspenso tão rápido”.

Não adiantou: contra o Utrecht, uma falta sobre Edouard Duplan rendeu-lhe o quinto amarelo, dado por Kevin Blom – cartão até justo, já que a infração veio por uma carga excessiva, após Duplan dar a primeira entrada forte, que passou em branco. Fulo da vida (até pela derrota do PSV, nas circunstâncias em que ocorreu – 1 a 0, mesmo tendo um a mais em campo), Van Bommel preferiu nem tocar no assunto: “Deixe que todos opinem e tirem suas conclusões. Minhas palavras já foram tiradas do contexto algumas vezes.”

E o experiente jogador pode até reclamar, e com alguma razão, mas o fato é que devia saber que árbitros têm seus “visados”. Ainda mais quando se trata de um jogador como Van Bommel. Que até conseguia contrabalançar sua excessiva vontade com o talento na saída de bola e os bons chutes de fora da área, quando era mais novo. Mas que foi tendo somente a marcação e o espírito de liderança como pontos fortes, com a idade chegando. Qualidades que nem sempre bastam numa equipe, como a Euro 2012 revelou – alguém se lembra de MvB saindo já no intervalo do jogo contra a Alemanha, por não aguentar o ritmo imposto pelo meio-campo do Nationalelf?

Além do mais, Van Bommel é o típico “mala”. Não um jogador necessariamente desleal, mas chato, daqueles que não para de falar durante os 90 minutos. Os árbitros das partidas da Copa de 2010 que o digam: a opinião corrente é de que o meio-campista deveria ter recebido muitas sanções, mas sempre se livrava na base da conversa.

E seu temperamento também o faz tomar atitudes polêmicas. Um bom exemplo é a “banana” mandada para a torcida do Real Madrid, em pleno Santiago Bernabéu, ao marcar o segundo gol do Bayern, no jogo de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões 2006/07. Nem é nada de se recriminar (ninguém tem sangue de barata), mas é polêmico. Ou, então, ao brigar com Marco van Basten durante a Copa de 2006, deixando-a com a promessa de nunca mais aceitar convocações para a seleção enquanto “San Marco” fosse o técnico, o que o tirou da Euro 2008. Ou os desentendimentos que tinha com Edgar Davids, vez por outra. E por aí vai.

O pior é que o nervosismo de Van Bommel, contratado para ser “a voz” do técnico Dick Advocaat em campo, acaba deixando o PSV sem uma direção psicológica. Coisa que faz com que uma campanha ainda solucionável tenha entrado em parafuso precocemente, após a derrota para o Utrecht e o mau começo na Liga Europa, com o 2 a 0 sofrido para o Dnipro. E que faz com que problemas aparentemente pequenos, como o fato de Tyton ter sido barrado por Advocaat, virarem uma avalanche.

Continuando assim, o PSV não terá sob si o trauma das últimas temporadas, quando era favorito ao título até a virada do turno, e fraquejou depois. Porque nem à disputa do título chegará.