Com audiência maior que os playoffs da NBA, a seleção feminina americana batia o Japão na final da Copa do Mundo do ano passado, levando a terceira conquista em sete edições disputadas. Avançando quase um ano, chegamos à terça-feira, quando a seleção masculina americana venceu por 4 a 0 a Guatemala, evitando uma eliminação precoce e vexatória na briga por uma vaga no Mundial de 2018. É incontestável que as mulheres americanas são muito mais bem sucedidas que os colegas homens quando o assunto é seleção, e mesmo assim, historicamente, eles sempre receberam mais para representar o país do que elas.

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Essa diferença não pode nem mais se apoiar naquele argumento de que o futebol masculino gera mais dinheiro que o feminino. Nesta quinta-feira, cinco atletas da seleção americana (Carli Lloyd, Hope Solo, Alex Morgan, Megan Rapinoe e Becky Sauerbrunn) entraram com uma ação contra a federação por discriminação nos salários, por meio da Comissão de Igualidade de Pagamento e Oportunidade. Baseiam-se em um relatório financeiro da própria federação americana de futebol: apesar de as mulheres terem gerado US$ 20 milhões a mais de lucro do que os homens,  a seleção feminina recebe quatro vezes menos que a masculina.

A projeção financeira futura também aponta para o futebol feminino arrecadando mais do que o masculino na seleção americana. Segundo estimativas da Federação Americana, entre abril deste ano e março de 2017, a seleção feminina deverá gerar US$ 17,6 milhões de renda com eventos e jogos, contra US$ 9 milhões da seleção masculina.

Isso não se reflete nos pagamentos. Um exemplo: pelo aclamado título da Copa do ano passado, cada jogadora do elenco recebeu US$ 75 mil de bônus, enquanto, por chegar às oitavas  em 2014, cada um dos homens embolsou US$ 407 mil. Enquanto uma jogadora da seleção feminina leva uma espécie de bicho de US$ 99 mil se vencer 20 amistosos no ano, um jogador da seleção masculina, pelo mesmo feito, recebe US$ 263.320. E mesmo que perca todos esses 20 jogos, tem um “bônus” garantido de US$ 100 mil apenas por jogar.

Por vitória contra times do top 10 do ranking da Fifa, cada jogadora ganha US$ 1.450, enquanto a mesma meta para os homens é recompensada com US$ 17.625. Contra adversários abaixo do top 25 no ranking, as mulheres não recebem nada em caso de empate ou derrota, enquanto os homens ganham US$ 6.250 por um empate e US$ 5 mil pela derrota.

Duas das figuras mais simbólicas da atual geração da seleção, Hope Solo e Carli Lloyd conversaram com o portal ESPNW, explicando a motivação para a ação legal e o momento em que fazem isso. “Tentamos conversas significativas com a Federação. Tentamos nos encontrar com eles em diversas ocasiões. Tentamos ser lógicas. E, continuamente, nos diziam a mesma coisa: que alocavam uma certa quantidade de dinheiro para nós e que isso não subiria”, explicou Solo. “Os números falam por si só. Somos as melhores do mundo, temos três Copas do Mundo, quatro títulos de Olimpíadas, e a seleção masculina recebe mais apenas para aparecer do que nós recebemos por vencer os principais campeonatos”, completou.

Lloyd reforçou o discurso de que a trajetória vencedora da seleção feminina americana lhes dá direito a pelo menos um pagamento igual ao recebido pelos homens: “Fatos são fatos. Provamos nosso valor ao longo dos anos com quatro Olimpíadas, três Copas do Mundo. É a hora certa (de agir)”.

O argumento imediato de quem é contra a luta por remuneração justa das mulheres é de que o futebol masculino movimenta muito mais dinheiro com direitos de televisão de seus campeonatos e que isso é o que torna as remunerações dos homens superiores. Entretanto, especificamente no caso da seleção americana, este argumento não é válido, considerando que a federação negocia os direitos de suas duas seleções em conjunto. Certamente para barganhar melhores acordos, baseada no sucesso esportivo e de audiência de sua equipe feminina, já que o mesmo não seria possível com a seleção masculina.

Com todos os números apresentados pelas jogadoras, providos pela própria Federação, e com o sucesso dentro de campo da equipe ao longo das últimas décadas, é difícil não falar em discriminação no pagamento. A pressão coletiva, a divulgação desses números e a repercussão em cima dessa batalha podem ser justamente os elementos que faltavam para, enfim, algo ser feito. O status quo não se altera sozinho, e a maneira como as atletas entenderam isso, expressa em cada entrevista que toca neste assunto, dão a sensação de que não haverá alternativas para a Federação.