Para alguns, o jogador mais habilidoso que já surgiu na Itália. O lendário jornalista Gianni Brera sequer acompanhou o auge de Roberto Baggio, falecendo em 1992. Mesmo assim, afirmou que Il Divin Codino era o melhor futebolista italiano que viu. E isso para quem teve a honra de assistir a Giuseppe Meazza, Valentino Mazzola, Gianni Rivera, Gigi Riva, entre tantas outras lendas. Questão de gosto, logicamente. Mas, ao longo das décadas, são pouquíssimos os homens de frente que se comparam em talento ao camisa 10.

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A arte de Baggio era tamanha que ele chegou mesmo a ser comparado com Rafael, mestre da pintura e da arquitetura durante o Renascimento. O craque era completo: passes, chutes, dribles, domínios. E apaixonado pela bola. Sexto filho em uma família de oito irmãos, cresceu dormindo abraçado com o objeto de seus sonhos. Que, graças aos seus pés, alimentou também os sonhos de tantos e tantos torcedores.

A carreira de Baggio não foi impecável. Longe disso. Teve altos e baixos, sem grande identificação com um único clube – mas ídolo em sete, além da seleção. Apesar das 22 temporadas como profissional, as lesões cobraram um preço alto. Ainda assim, as mostras de sua magia foram frequentes. Dois dias depois do aniversário de 50 anos do craque, relembramos uma lista de motivos pelo qual ele foi (e segue sendo) tão adorado.

Seu intuito no futebol

“Quando eu era pequeno, eu sonhava em me tornar um jogador profissional. E meu único objetivo era divertir as pessoas. O número 10 é aquele que diverte mais gente. Isso não significa que outras posições não são importantes, pelo contrário. Mas quando você tem o 10 sob as costas, sabe que os torcedores vão esperar mais de você. É normal. Caso contrário, você usaria outro número. Para entreter as pessoas, era simples: eu tentava fazer o que os outros não faziam. Não era necessariamente complicado. E o 10 tem essa característica, ver uma situação antes dos outros. Ou seja, fazer um passe quando, normalmente, se fariam três para chegar ao mesmo ponto. É justamente o que entusiasma as pessoas, que as torna felizes. É uma qualidade que nem todos tem, mas um componente do camisa 10”, declarou, em entrevista à revista SoFoot.

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Inspirado por dois grandes 10 sul-americanos

Fã do futebol brasileiro, Roberto Baggio afirma que sua principal influência no estilo de jogo foi Zico. “Eu adorava o Zico, era meu grande exemplo quando eu era garoto. Sempre assistia aos jogos do Flamengo na televisão. E não era como hoje, quando todos os jogos passam na TV. Não. Na época, era um evento quando uma partida era transmitida. Eu sempre via quando tinha um jogo do futebol brasileiro. Assim que me apaixonei por Zico. Ele fazia mágica sobre o gramado. Ele cobrava muito bem as faltas, marcava gols de tudo quanto é jeito. Era magnífico vê-lo jogar”. Depois, se aproximou também de Maradona, de quem se tornou amigo. Enquanto um fazia chover no Napoli, o outro começava a despontar no Calcio. Anos depois, no Jogo da Paz organizado pelo Papa em 2014, puderam compartilhar o mesmo lado em campo: ambos vestiram o mesmo número 10 e formaram uma dupla divinal no Estádio Olímpico.

Craque do acesso com 18 anos

Roberto Baggio iniciou sua carreira no pequeno Caldogno, de sua cidade natal, aos nove anos de idade. Aos 13, acabou levado pelo Vicenza. Aos 16, fez sua estreia na terceira divisão do Campeonato Italiano. Aos 17, anotou o primeiro gol. E, aos 18, já era o dono do time. Marcou 12 tentos e foi eleito o melhor jogador da Serie C em 1984/85, fundamental na conquista do acesso para os alvirrubros. O suficiente para chamar a atenção da Fiorentina, que contratou o prodígio.

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Os joelhos

Já ao final de sua grande temporada pelo Vicenza, Baggio começou a lidar com o fantasma que o perseguiria pelo resto da vida. O prodígio rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito e também lesionou o menisco. Alguns médicos chegaram a avaliar que sua carreira estava comprometida. Mesmo com o problema, a Fiorentina bancou sua contratação e também a cirurgia necessária. Esta seria apenas a primeira das seis contusões graves que sofreu nos joelhos, quatro no direito e duas no esquerdo. Em 1986, enfrentou sua situação mais dramática, quando nova lesão o obrigou a tomar 220 pontos na perna, com o tendão sendo ligado à tíbia. Alérgico a anti-inflamatórios, o jovem enfrentou uma dor terrível. Perdeu 12 kg e atingiu o limite de pedir à própria mãe para matá-lo, tamanho era o desespero.

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O gol fabuloso

Baggio enfrentou seu sacrifício e se recuperou em oito meses, voltando a campo em maio de 1987. Para, a partir de então, oferecer momentos de pura magia à torcida da Fiorentina. Como, por exemplo, este golaço anotado diante do Napoli, em setembro de 1989.

A volta da Viola a uma final europeia

Mesmo sem se sagrar campeão, Baggio liderou a Fiorentina em campanhas de respeito. A melhor delas, na Copa da Uefa 1989/90. A Viola não disputava uma final continental desde 1962, quando caiu diante do Atlético de Madrid na Recopa Europeia. Pois o camisa 10 ajudou a quebrar a espera de 28 anos. Os florentinos deixaram pelo caminho adversários de peso, como o Atlético de Madrid, o Dynamo Kiev e o Werder Bremen. Na decisão, porém, os violetas não resistiram ao poderio da Juventus, que levou a taça.

O gol da Copa

A primeira oportunidade de Roberto Baggio em uma Copa do Mundo aconteceu em 1990, no próprio quintal. O prodígio começou a competição como reserva, mas não desperdiçou a chance em sua estreia. Anotou um gol antológico, para fechar a vitória por 2 a 0 sobre a Tchecoslováquia, que valeu a liderança do Grupo A aos anfitriões. Nas oitavas contra Uruguai e nas quartas contra a Irlanda, tornou-se parceiro de Totò Schillaci no ataque. Foi preterido por Gianluca Vialli na semifinal contra a Argentina, entrando no segundo tempo. Depois, converteu sua cobrança na disputa por pênaltis que, entretanto, assegurou os sul-americanos na final. Restou a decisão do terceiro lugar, com o novato abrindo a vitória por 2 a 1 sobre a Inglaterra.

O amor em um cachecol

Roberto Baggio deixou a Fiorentina logo após a Copa de 1990. Rumou à Juventus, naquela que se tornou na época a transferência mais cara da história. Um negócio que resultou em uma onda de fúria nas ruas de Florença, sobretudo contra a postura da diretoria em fazer dinheiro com o craque. O próprio camisa 10 saiu a contragosto. E eternizou o seu carinho na visita ao Estádio Artemio Franchi, em abril de 1991. O juventino se recusou a cobrar um pênalti, alegando que o arqueiro do antigo clube conhecia suas artimanhas. Depois, substituído, pegou um cachecol atirado das arquibancadas quando caminhava até o banco de reservas. Ali se materializava o apreço pela Viola, algo que os bianconeri não engoliram bem.

Roberto Baggio – Foi com 27 anos que o camisa 10 italiano viveu o seu maior desgosto, ao errar o fatídico pênalti na final da Copa de 1994. Mesmo assim, já tinha registrado alguns dos momentos mais brilhantes da sua carreira, com as camisas da Fiorentina e da Juventus, além de ter conquistado a Bola de Ouro.

Craque em terra de craques

Justo no momento áureo do futebol italiano, Roberto Baggio representava demais. Era o craque local que conseguia competir em talento com as contratações estelares de fora do país. Não à toa, em tempos nos quais os clubes costumavam concentrar suas vagas para estrangeiros principalmente ao setor ofensivo, o camisa 10 valia ouro. Que a Itália tenha contado com outros gênios no período, especialmente na defesa, Il Divin Codino era único. Não à toa, chegou à Juventus para ser a principal referência técnica do time, em dificuldades de se acertar desde a aposentadoria de Michel Platini.

A Europa e a Bola de Ouro

Baggio não conseguiu dar a Turim um scudetto como protagonista. Sua conquista aconteceu em 1994/95, em temporada na qual voltou a sofrer com as lesões e começou a perder espaço para Alessandro Del Piero. Ainda assim, teve papel notável na campanha, com oito gols e oito assistências em 17 partidas, servindo os companheiros em três tentos no jogo que assegurou o título. Naquela temporada, também conquistou a Copa da Itália. Mesmo assim, nenhum ano foi maior ao camisa 10 do que 1993. Primeiro, porque ele conquistou seu título de maior expressão da carreira, aquele que faltara com a Fiorentina, a Copa da Uefa. Brilhou principalmente na semifinal, ao marcar os três gols que eliminaram o forte PSG de George Weah e David Ginola. Já na decisão, desequilibrou principalmente na ida, no Westfalenstadion, anotando dois tentos nos 3 a 1 sobre o Borussia Dortmund. Consagração como capitão, que o tornou praticamente unânime na eleição da Bola de Ouro, em dezembro. Recebeu 112 pontos de 120 possíveis, em pódio completado por Dennis Bergkamp e Eric Cantona.

Eliminatórias, Copa de 1994

Roberto Baggio teve um desempenho brilhante para classificar a Itália rumo à Copa do Mundo de 1994. Anotou cinco gols em 10 partidas pelos azzurri, artilheiro da equipe na competição. Teve atuações memoráveis, como no empate contra a Suíça ou na imposição sobre Portugal em pleno Estádio das Antas. Além disso, participou do gol que confirmou a viagem aos Estados Unidos, com Dino Baggio assegurando a vitória sobre os portugueses no San Siro.

Nigéria, Copa de 1994

Apesar das enormes expectativas que carregava, Roberto Baggio decepcionou na primeira fase da Copa do Mundo. O camisa 10 pouco ajudou os azzurri na fraca campanha, avançando apenas como um dos melhores terceiros colocados. Enfrentava as críticas da imprensa e as rusgas com o técnico Arrigo Sacchi, especialmente por ter sido substituído aos 22 minutos contra a Noruega, após a expulsão de Gianluca Pagliuca. Mas tudo se transformou a partir dos mata-matas. Em 5 de julho, a Itália encarava a surpreendente Nigéria em Foxborough. Amuneke abriu o placar para as Super Águias. Até Baggio decidir o drama. Empatou aos 43 do segundo tempo, em chute cruzado. Levou o confronto à prorrogação. E resolveu, iniciando a jogada que garantiu um pênalti, convertido por ele mesmo.

Espanha, Copa de 1994

Nas quartas de final, a Itália tinha outro confronto de peso. Pegava a Espanha, dona de uma das melhores campanhas até então no Mundial. Mas, de novo, a Azzurra contou com Roberto Baggio. O camisa 10 ajudou a construir o primeiro gol da partida, aos 25 minutos, anotado por Dino Baggio. A Fúria empatou no início do segundo tempo, com José Luis Caminero. E, outra vez aos 43 do segundo tempo, Il Divin Codino chamou a responsabilidade para balançar as redes e decretar a vitória por 2 a 1.

Bulgária, Copa de 1994

Mais do que um jogo decisivo, também um sacrifício de Roberto Baggio. A Itália cruzava com a Bulgária, uma das sensações da Copa até então, especialmente após eliminar a Alemanha. Mas nem Stoichkov ou qualquer outro craque búlgaro seria capaz de competir com o camisa 10 italiano em East Rutherford. Primeiro, chamou a defesa para dançar e bateu com categoria, abrindo o placar. Depois, acertou belo chute após cruzamento de Albertini, ampliando. Em 25 minutos, a partida estava resolvida, por mais que Stoichkov tenha descontado pouco depois. Só que Baggio não durou os 90 minutos em campo. Foi substituído no meio do segundo tempo. Havia estirado o músculo da coxa.

O sonho

“Aquele pênalti está preso em mim. E assim vai ficar pelo resto da minha vida. Quando eu era pequeno, sonhava em conquistar uma Copa do Mundo com a Itália, contra o Brasil. Era o sonho perfeito, meu sonho favorito. Só que eu não sabia como esse sonho terminava. Acabou da pior maneira possível. Eu sempre pensei que seria melhor perder a final por 3 a 0 do que nos pênaltis. É meu maior arrependimento, minha maior amargura. Se você perder um jogo, perdeu, acabou. Mas houve um erro, um erro de que? De centímetros. Fica para toda a sua vida. E não só para mim. Toda vez que vejo uma disputa de pênaltis, me boto no lugar de quem vai perder. Está marcado em mim para o resto da vida. Eu nunca vou superar esse episódio, aprendi a conviver com isso. Tento não sofrer muito, pelo menos não além do que já sofri. Mas, toda vez que eu penso, isso volta. Minha filosofia de vida me ajudou, porque me ensinou a pensar para frente, sem olhar para trás. Mas é algo que está lá. É uma ferida dormente. Então você fala sobre isso, e ela volta a doer”, afirmou à So Foot.

Baggio cobrou o último pênalti na decisão de 1994. A Itália perdeu para o Brasil (AP Photo/Luca Bruno)

Outra vez campeão

Após a dobradinha com a Juventus em 1995, Roberto Baggio foi contratado pelo Milan na temporada seguinte. Não viveu os seus momentos mais brilhantes nos rossoneri. Mesmo assim, se fez ídolo e bicampeão italiano. Atrapalhado pelas lesões em seus primeiros meses, o camisa 10 era uma das referências na equipe de Fabio Capello. Anotou sete gols e ofereceu dez assistências na conquista do scudetto em 1995/96. Além disso, foi votado pelos torcedores como o melhor jogador da temporada, mesmo em uma equipe com George Weah voando na linha de frente – e, claro, aproveitando os passes do fantasista.

O renascimento no Bologna

Assim como acontecera na Juventus, Baggio saiu do Milan em litígio. Muitos esperavam que sua carreira degringolasse, aos 30 anos e um histórico imenso de lesões. Assinou com o Bologna, acostumado a papéis de coadjuvante na Serie A. Pois os rossoblù representaram o ressurgimento do craque, de olho em uma vaga na Copa do Mundo de 1998. Naquela temporada de 1997/98, Baggio cortou o famoso rabo de cavalo, para sinalizar a nova fase. E teve mais fome de gols do que nunca. Balançou as redes 22 vezes, artilheiro do Italiano. Também concorreu ao prêmio de melhor jogador da competição. Mais importante, retomou a confiança em seu futebol, convocado por Cesare Maldini para o Mundial da França.

Os novos pênaltis em Copas

Titular contra o Chile na estreia da Copa do Mundo de 1998, Roberto Baggio acabou desafiado a voltar para a marca da cal. Aos 39 do segundo tempo, placar empatado e pênalti para a Itália. O camisa 18 partiu para a cobrança. Uma tempestade acontecia em sua cabeça. Cessada com o barulho das redes estufando. O craque exorcizou o trauma decretando a vitória por 2 a 1. Depois, perdeu a posição na sequência da competição, embora tenha dado assistência diante de Camarões e anotado o segundo gol contra a Áustria – nesta ocasião, saindo do banco após ter seu nome gritado pela torcida, para igualar Paolo Rossi como o maior artilheiro italiano na história das Copas. Reserva nas oitavas, diante da Noruega, voltou a contribuir na despedida, diante da anfitriã França. Entrando no lugar de Alessandro Del Piero, o veterano quase anotou o gol de ouro na prorrogação. Não deu. Já na disputa por pênaltis, abriu a série para a Azzurra, convertendo a primeira cobrança. Albertini e Di Biagio seriam os vilões desta vez.

A atuação mágica que valeu a Champions

Segundo a mãe de Roberto Baggio, seu filho era interista durante a infância. Sonho completado após a excelente passagem pelo Bologna, chegando à Internazionale logo na sequência da Copa de 1998. Foram dois anos ao lado de outros grandes jogadores em Milão, mas de poucos resultados. Em meio à bagunça vivida pelos nerazzurri em 1998/99, o craque teve bons momentos em sua temporada de estreia, mesmo que as lesões outra vez tenham custado tempo em campo e esforço. Já o segundo ano acabou marcado pelas rusgas com Marcello Lippi e o tempo na reserva. Ainda assim, a vitória mais importante da Inter só foi conquistada graças a Baggio. Quarta colocada na Serie A, a equipe disputou um jogo de desempate com o Parma, em Verona, para decidir quem ficaria com a última vaga na Liga dos Campeões. O físico debilitado não impediu o fantasista de acabar com a partida, anotando dois tentos na vitória por 3 a 1.

Terror dos técnicos

Apesar de seu caráter, que fique claro, Roberto Baggio nunca foi santo. E colecionou confusões com alguns dos melhores treinadores do futebol italiano. A lista estrelada inclui Arrigo Sacchi, Fabio Capello, Giovanni Trapattoni e Marcello Lippi. Em 1997, às vésperas de seu acerto com o Parma, Carlo Ancelotti recusou a contratação do camisa 10, afirmando que ele não se encaixaria no seu esquema – o que, tempos depois, admitiu ter sido um erro. “O futebol é feito por jogadores. Certo, um treinador pode tirar o melhor de um jogador, mas, no fim das contas, o que vale é um lançamento, um chute a gol”, dizia o craque que, desde menino, gostava de desafiar a autoridade dos professores na escola. “Se os livros fossem redondos, ele é quem daria aula para nós”, teria declarado um dos mestres.

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Um monstro em terras modestas

Aos 33 anos, Roberto Baggio optou por não renovar seu contrato com a Internazionale. Rumou ao Brescia, recém-egresso à elite do futebol italiano. Passou quatro temporadas na Leonessa, ratificando o status de lenda. Em dois destes anos, o clube chegou mesmo a brigar por vaga nas competições continentais, participando da antiga Copa Intertoto. Em outros dois, o camisa 10 o salvou do rebaixamento. Desde a década de 1970, sempre que subiu à Serie A, o Brescia logo caía novamente. O craque interrompeu a sina, que retornou justamente após sua aposentadoria. Somente na primeira divisão, foram 45 gols em 95 partidas pelo time, ainda brigando pelos prêmios de melhor em sua posição. Quando o veterano pendurou as chuteiras, em honra ao maior jogador da história do clube, a diretoria também aposentou a camisa 10.

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O gol favorito

Dérbi contra a Atalanta, 6 de abril de 2003. Segundo as palavras do próprio Baggio, seu gol mais bonito.

O escolhido do povo na seleção

Quando chegou ao Brescia, Baggio perseguia um sonho: disputar sua quarta Copa do Mundo. As boas atuações alimentavam o clamor popular. Até que outra contusão grave colocou o seu objetivo em xeque, ao romper o menisco em 31 de janeiro de 2002. O craque voltou a campo em 76 dias, em recuperação considerada milagrosa. Entretanto, Trapattoni preferiu não levá-lo ao Mundial da Coreia do Sul e do Japão. Queridíssimo pela torcida, houve ainda quem tenha o pedido nos Jogos Olímpicos de 2004, liderando os garotos na busca do ouro. Sua despedida dos azzurri aconteceu antes disso, em abril de 2004, em amistoso contra a Espanha, no qual brindou o público com mais uma dose de sua magia e deixou o campo ovacionado.

A despedida

Em 16 de maio de 2004, enfim, Roberto Baggio disputou sua última partida como jogador profissional. O Brescia não resistiu ao Milan, derrotado pelo já campeão italiano por 4 a 2. O camisa 10 serviu uma assistência. Mas o momento mais marcante veio em sua substituição, aos 43 do segundo tempo. No estádio onde foi adorado pelas duas torcidas, Baggio deixou o campo aplaudido de pé. Recebeu os cumprimentos de alguns companheiros – entre eles, outros mitos como Paolo Maldini e Andrea Pirlo. Saiu diretamente aos vestiários. Estava liberado da rotina de dor e sacrifício que o acompanhou por toda a carreira. Mas também se afastava daquela que sempre foi a sua maior paixão, a bola.

No patamar de Piola e Meazza

Apesar das recorrentes lesões, Roberto Baggio atingiu um nível gigantesco, tanto pela qualidade quanto pela longevidade. E uma marca expressiva são os 318 gols que anotou ao longo da carreira. Foi o primeiro jogador italiano desde os lendários Giuseppe Meazza e Silvio Piola a superar os 300 tentos no futebol local – algo que nem mesmo outras lendas, como Gigi Riva, conseguiram. Além disso, o camisa 10 também se colocou entre os maiores artilheiros da Serie A, com 205 bolas nas redes, atualmente o sétimo na lista histórica – superado apenas por Antonio Di Natale e Francesco Totti depois de sua aposentadoria.

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A influência

Não dá para negar a idolatria que tantos jogadores sustentaram por Roberto Baggio depois de sua eclosão. O camisa 10 serviu de parâmetro a outros gigantes do futebol italiano. Alessandro Del Piero, apesar da disputa por posição, sempre considerou o veterano como um grande amigo. Andrea Pirlo teve um mestre nos tempos de Brescia, eternizando a parceria em gol memorável contra a Juventus. Mas talvez a história mais marcante tenha sido protagonizada por Totò Di Natale. O artilheiro só se aposentou depois que superou o total de gols de Baggio pela Serie A. Queria cumprir uma promessa feita ao pai, falecido meses antes de atingir a marca.

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Engrandeceu outros grandes

E, além de servir como exemplo, Roberto Baggio firmou parceria com alguns dos melhores jogadores de seu tempo. Tantos possuem um lugar de destaque na história do futebol também pelos passes e pelos gols do camisa 10. A lista de craques que atuaram ao lado do Divin Codino é extensa. De Giancarlo Antognoni a Andrea Pirlo, passando por Gianluca Vialli, George Weah, Alessandro Del Piero, Christian Vieri e Ronaldo, qualidade é o que não faltou. Isso sem contar os defensores que se fizeram maiores graças ao desafio de marcar o fantasista – isso quando conseguiam, é claro.

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Adorado em todos os clubes pelos quais passou

Roberto Baggio não pode dizer que possui a camisa de um único clube como segunda pele, a exemplo de outros gigantes do Calcio, como Del Piero, Totti, Baresi, Maldini e Zanetti. Mas, por mais que suas trocas de time tenham sido constantes, ele pôde ser idolatrado por algumas das maiores torcidas do país. O nível apresentado não foi o mesmo, claro, mas o camisa 10 conquistou a adoração nos três grandes. Explodiu como xodó na Fiorentina. É o filho querido do Vicenza. Ofereceu momentos inesquecíveis ao Bologna. Despediu-se perpetuando o mito no Brescia. Não à toa, a identificação maior de Baggio costuma ser mesmo com a camisa da seleção italiana, onde as cores dos clubes já não importavam para aplaudir o talento.

Weah e Baggio comemoram: eram duas estrelas do Milan em 1996 (Ap Photo/Carlo Fumagalli)

O valor do treino

“Quando eu era pequeno, jogava bola todos os dias, de manhã à noite. Você treina, joga, treina. Assim, quando acontece uma situação, já viveu mil vezes antes. Há algo que consiste em entender a tendência de uma ação. Mas há também trabalho, esforço, treino. Quando eu me aproximava do gol, tinha a impressão que o tempo desacelerava. Porque eu tinha certeza do que deveria fazer. Era muito lúcido. Bom, nem sempre, é óbvio. Porque também existem adversários, obstáculos. Mas eu, ia com a ideia muito clara do que fazer”, disse, à So Foot.

Filme da Juventus foi exibido em festivais e tem imagens de Roberto Baggio (foto: divulgação)

Os dribles

Uma das características principais de Roberto Baggio se demonstrava quando a bola estava colada em seus pés. O camisa 10 tinha capacidade incrível para sair costurando as defesas em jogadas rápidas e incisivas. Talento nato, daqueles capazes de aproveitar cada milímetro do campo, ao mesmo tempo que percorria metros sem ser alcançado por ninguém. A coleção de mágicas é enorme, especialmente nos primeiros anos de sua carreira, quando as pernas pesavam menos e contribuíam com sua enorme aceleração.

Os passes

Maestro de chuteiras, Baggio tinha outra virtude em sua visão de jogo. A função do fantasista correspondia muito mais a sua capacidade de criar espaços para os companheiros onde eles pareciam não existir. Que tenha marcado muitos gols na carreira, sua criatividade chega a níveis ainda maiores pela excelência nos passes.

O primeiro toque

Muitas vezes, a qualidade de um grande jogador se nota pela facilidade que ele possui para dominar uma bola. Bastavam alguns minutos vendo Baggio para você perceber isso. Só que o craque ia muito além. Seu primeiro toque na bola não necessariamente significava o domínio para continuar a jogada. Às vezes, virava um chute de imensa categoria. Às vezes, até mesmo um drible, sem dar tempo para o marcador pensar no que fazer.

A frieza para matar goleiros

Michel Platini costumava definir Baggio como um “nove e meio”. Obviamente, havia ali o talento nato de um camisa 10. Mas também a capacidade ímpar de um verdadeiro matador, que ajuda a explicar o enorme número de gols. Só que apenas a categoria para bater na bola não bastava ao fantasista. Era impressionante a tranquilidade para fazer goleiros de gato e sapato, muitas vezes driblados de maneira humilhante. “Tinha gelo correndo nas veias”.

As cobranças de falta mágicas

E, como se pede no currículo de um craque, Roberto Baggio sabia cobrar faltas como poucos. Seu cartão de visitas na Fiorentina, aliás, foi assim. Justamente contra o Napoli de Maradona, anotou o seu primeiro gol pela Viola em um chute de fazer inveja a Diego. Marca registrada que se tornou célebre até mesmo em um jogo online de sucesso nos primórdios da internet: Roby Baggio’s Magical Kicks.

Super Campeão

Aliás, a fama de Baggio se estendeu por outros meios além do futebol. Nos jogos de videogame, era fácil identificá-lo com a cabeleira esvoaçante – e um tanto quanto quadrada, nos tempos de 32 bits. Além disso, também ganhou sua versão no desenho ‘Super Campeões’. Foi o único atleta representado com o nome real no anime japonês, encontrando-se com o fã Oliver Tsubasa no aeroporto.

Causas humanitárias

Em 2002, quando ainda defendia o Brescia, Roberto Baggio foi nomeado um dos embaixadores da boa vontade da ONU, atuando junto à Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO). Através da entidade, ajudou a arrecadar fundos para erguer hospitais em diferentes partes do mundo. Também envolveu-se diretamente com a reconstrução do Haiti após o terremoto sofrido em 2010. Além disso, participou da luta pela democracia em Myanmar, defendendo a libertação de Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1991. Por isso mesmo, o italiano foi condecorado com o Prêmio Homem da Paz, em 2010.

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A amizade com Borgonovo

Aposentado, Baggio organizou diversas partidas festivas, com o intuito de levantar dinheiro para determinadas causas. Nenhuma mais significativo, porém, que aquela de outubro de 2008. Fiorentina e Milan se enfrentaram em amistoso para auxiliar a luta de Stefano Borgonovo, portador de Esclerose Lateral Amiotrófica. Juntos, Baggio e Borgonovo formaram uma dupla de ataque famosa em Florença na Serie A 1988/89, conhecida como “B2”. A amizade continuou mesmo depois da transferência de ambos e se reforçou ao final das carreiras, com Roberto visitando Stefano durante o seu tratamento. Em 2013, o amigo não resistiu. “E sabe qual era então minha maior alegria? Mandar-te ao gol com uma assistência e ver nos teus olhos uma felicidade infinita”, escreveu Il Divin Codino, em carta de despedida.

Baggio e Borgonovo em jogo beneficente
Baggio e Borgonovo em jogo beneficente

A festa de 50 anos

Por fim, a prova mais recente da grandeza de Roberto Baggio aconteceu em seu aniversário de 50 anos. Passou o dia junto à família, mas visitando os afetados pelo terremoto no centro da Itália. “Você não pode dizer, de sua casa, o que realmente está acontecendo aqui. As imagens da televisão não são suficientes. É muito emocionante para mim viver tudo isso. Quis vir pessoalmente com a minha família, então pudemos todos perceber o que tantas pessoas estão passando”, apontou. Durante a manhã, almoçou com o prefeito, com voluntários e também com parte dos desabrigados. Durante a tarde, jogou bola com as crianças locais. Já à noite, cortou o seu bolo do aniversário.

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E ainda tem aquele pênalti

Sim, Roberto Baggio perdeu o pênalti que garantiu o tetracampeonato mundial à seleção brasileira. Com a perna pesada pelo cansaço e pelo estiramento sofrido dias antes, temia sequer ter forças para chegar às redes. Isolou. Apesar do erro crucial, sempre lembrado, sua carreira conseguiu ser muito maior do que isso. Prova disso é a admiração contínua na Itália (e em outras tantas partes do mundo), acima de qualquer vilanização do gênio.

“Por toda a vida eu busquei ser o garoto que sempre fui, que amava o futebol e dormia agarrado a uma bola. Hoje, a única diferença é que eu tenho alguns cabelos brancos a mais e muitas cicatrizes velhas. Mas meu sonhos continuam os mesmos. Os que se esforçam continuamente são sempre plenos de esperança. Abrace os seus sonhos e persiga-os. Os heróis do dia a dia são aqueles que dão sempre o máximo na vida”.

Abaixo, a homenagem feita pelo sempre imperdível Old School Panini:

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