Sem poder contratar, o Chelsea foi obrigado a dar chance aos garotos nesta temporada e, até aqui, eles vêm correspondendo. Tammy Abraham, Mason Mount e Fikayo Tomori são os principais destaques. Há expectativa pelo retorno de Callum Hudson-Odoi e Reece James impressionou em sua estreia, na Copa da Liga Inglesa. Mesmo em um ambiente favorável a jovens, um deles não está conseguindo somar muitos minutos em campo, um que não foi formado pelos Blues, mas contratado por € 64 milhões antes de o embargo de transferências entrar em vigor.

Christian Pulisic, 20 anos, americano mais caro da história, saiu do banco de reservas no St. Mary’s Stadium, no último domingo, e deu assistência para o quarto gol, marcado por Michy Batshuayi. Os 10 minutos que disputou foram os seus primeiros desde setembro, com exceção do jogo contra o Grimsby Town, pela Copa da Liga Inglesa, competição na qual os treinadores de clubes grandes colocam em campo justamente os jogadores que não estão sendo muito utilizados.

Pulisic admitiu estar um pouco frustrado com a situação, mas não acredita que seja um problema de adaptação a um novo país. “Em relação à cultura, tem sido mais fácil do que na Alemanha. Obviamente, não tenho recebido tantos minutos quanto gostaria. Eu sei que minha hora chegará. Não vou simplesmente desistir, nunca, então, se estou no banco, não significa que o treinador não pensa que eu seja parte do time. Tenho que continuar tentando”, disse.

A imprensa americana parece preocupada com a falta de minutos de Pulisic, porque o garoto precisa deles para se desenvolver e se tornar um jogador ainda melhor para a seleção dos Estados Unidos, e o fato de que, mesmo em um time que se forma quase do zero, um reforço caro como ele tenha passado mais de um mês praticamente sem entrar em campo, até fora do banco de reservas contra o Lille, é realmente um pouco estranho, mas também compreensível por alguns pontos de vista.

O primeiro é que muita coisa mudou no Chelsea desde janeiro, quando ele foi contratado e depois emprestado de volta ao Borussia Dortmund, e setembro. Quem aprovou sua chegada foi Maurizio Sarri, e não Lampard. Isso não significa que o ídolo dos Blues esnobará o garoto, mas também nada indica que ele tenha uma predileção especial por Pulisic. É mais um jogador que encontrou no elenco e ganhará seus minutos de acordo com desempenho, treinamentos e escolhas táticas do treinador.

Como sempre deveria ser. Acontece que nem sempre foi assim no Chelsea, mas esse perfil também mudou de uma temporada para a outra. Em momentos anteriores, reputação e etiqueta de preço poderiam garantir mais algumas oportunidades a Pulisic, mas elas dizem pouco em um projeto que se propõe a desenvolver pratas da casa e montar uma equipe que se identifique com as arquibancadas.

Esse desenvolvimento aumentou a concorrência no ataque do Chelsea. Quando foi contratado, Pulisic chegaria para ser uma terceira opção no setor de criação, preparando a saída de Hazard, ao lado de Pedro e Willian. No entanto, Mason Mount cresceu demais neste começo de temporada e, dentro dessa nova abordagem, Hudson-Odoi também aparece à frente, apesar de ter se machucado.

Hudson-Odoi é uma grande promessa do futebol inglês e chegou a ser especulada uma transferência ao Bayern de Munique porque ele não estava conseguindo muito tempo de jogo no Chelsea. Foi mais utilizado na reta final da temporada com Sarri e se convenceu a renovar contrato, então é natural que, uma vez em forma, enfim ganhe a chance de descobrir como é ser um jogador regular da Premier League.

Tudo isso para dizer que não existe nenhum Complô Contra a América que impede Pulisic de entrar em campo, nem problemas físicos, até onde se sabe. No momento, é simplesmente uma questão de escolha. Ele teve oportunidades no começo da temporada, titular em quatro das cinco partidas, inclusive na Supercopa da Uefa contra o Liverpool, quando deu uma assistência. Não explodiu, e Lampard buscou outros caminhos.

Nesses caminhos, que incluem às vezes jogar com três zagueiros ou mudar do 4-2-3-1 para o 4-3-3, o que tira uma vaga que poderia ser de Pulisic, encontrou um ataque que tem funcionado muito bem. O Chelsea tem o terceiro melhor setor ofensivo da Premier League, com 18 gols, atrás apenas dos anormais Liverpool e Manchester City, e anotou 12 tentos nas quatro rodadas de setembro e outubro. Se Pulisic estiver treinando bem, mas não excepcionalmente bem, não há motivo para Lampard mexer nos jogadores de frente.

E, também, em um momento no qual o Chelsea aposta tanto em garotos, é importante que haja também jogadores mais experientes em campo, que estejam em boa fase. No critério de desempate, faz sentido que Lampard prefira Willian ou Pedro para equilibrar a juventude do seu time com um pouco mais de rodagem.

“Eu tenho que escolher um time. Ele jogou algumas partidas”, explicou Lampard, após a derrota para o Liverpool, por 2 a 1, quando Pulisic não saiu do banco de reservas. “Willian voltou e está afiado, parece em forma. Eu decidi colocá-lo ao lado de Mason porque precisávamos de força no meio-campo e Mason sobe bastante. Foi minha escolha. Ele terá muitas oportunidades. É um jovem também, como todos dos quais estão falando, Mason, Tammy, Fikayo. Ele é tão jovem, senão mais jovem, do que alguns deles. Suas chances chegarão”.

“Eu tenho que fazer escolhas. Ele está no banco, Pedro está no banco, Ross Barkley está no banco, Batshuayi, que merece mais minutos pela maneira como está treinando no momento. São escolhas ingratas que eu preciso fazer”, completou o treinador.

Pulisic é um jogador que despontou precocemente. Estreou pelo Dortmund aos 18 anos e passou por altos e baixos. Depois de uma temporada como titular, foi reserva (20 jogos de Bundesliga, nove como titular) também em sua última campanha no Westfallen Stadion, perdendo espaço para Jadon Sancho. Tem muito a evoluir em termos de consistência e poder de decisão. Em 127 jogos pelo Borussia Dortmund, fez 19 gols e deu 22 assistências. E também faz parte do seu desenvolvimento forçar Lampard a escolhê-lo.

O treinador da seleção americana, Gregg Berhalter, não está preocupado. “Seu status não mudou no nosso time. Ele é um jogador muito importante para nós, o catalizador do nosso ataque. Ele consegue fazer jogadas e fazer as coisas acontecerem nos jogos internacionais. Quando você olha para a situação dele no Chelsea, não é incomum um jogador levar algum tempo para se assentar e se adaptar. Acreditamos que, em longo prazo, ele ficará bem”, afirmou, segundo a Sports Illustrated.

A adequação ao futebol inglês pode ser complicada, e jogadores que brilharam na Alemanha, como Kagawa e Sahin, por exemplo, não conseguiram completá-la. Pulisic mal começou a fazê-la. Precisa de tempo, e o ambiente atual do Chelsea é favorável a garotos talentosos. Ele só precisa convencer Lampard de que é um deles.