Por que Pochettino e Tottenham formam o casamento perfeito

Com uma filosofia diferente dos anteriores, Pochettino monta uma base do Tottenham para o time parar de patinar

Por Raphael Harris*

Existe um adjetivo da língua inglesa que define algo ou alguém que falha em estar de acordo com suas devidas expectativas – “spursy”. Sim, isso mesmo. O Tottenham já conseguiu pisar na bola tantas vezes nos últimos anos que virou adjetivo. Talvez seja um pouco cruel com o time do norte de Londres, mas, de fato, podemos enumerar algumas ocasiões que geraram esse neologismo: estar à frente do rival Arsenal por 12 pontos na tabela e terminar a temporada atrás dos Gunners; perder sua vaga de classificação para a Champions League por que o Chelsea, mesmo tendo terminado a Premier League fora do G4, conseguiu ser campeão da Europa (e, portanto, teve o direito de defender seu título na temporada seguinte); gastar 110 milhões de libras em reforços para suprir a venda de Bale e se livrar da maioria deles na temporada seguinte. Eu poderia citar mais exemplos, mas aí pareceria que eu gosto de sofrer.

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Na temporada 2013/2014, André Villas-Boas contava com suas sete contratações (Eriksen, Lamela, Soldado, Paulinho, Chiriches, Capoue e Chadli) vindas para melhorar o time e substituir a perda de Gareth Bale para o Real Madrid. Inicialmente, os Spurs não estavam tão mal – Soldado marcou alguns gols, mas não chegava aos pés do jogador que era pelo Valencia; Paulinho mostrava-se habilidoso nas partidas que jogara. Porém, as rodadas foram se passando e ficava cada vez mais claro que os Lilywhites eram medíocres. Após sofrerem uma goleada de 5-0 para o Liverpool em pleno White Hart Lane, Villas-Boas foi despedido. Tim Sherwood foi contratado como técnico até o fim da temporada.

2013/14 apenas reforçou a atribuição do adjetivo “spursy” ao Tottenham. Com o fim das 38 rodadas da EPL, Daniel Levy decidiu despedir Tim Sherwood, que, apesar de alguns bons resultados, alcançou apenas o 6° lugar com os Spurs. Sem técnico, sem contratações que renderam e sem uma estrutura bem posta para levar o clube para frente, o chairman Levy foi procurar. A resposta estava não muito longe de Londres.

O Southampton, que voltou à elite do futebol inglês em 2012, enfrentou dificuldades sob o comando de Nigel Adkins. O inglês foi prontamente substituído por Mauricio Pochettino, ex-técnico do Espanyol. A transformação do futebol dos Saints sob direção do argentino  foi clara – a defesa, que antes não conseguia ficar sem levar gol, passou a ser compactada e disciplinada; o ataque, liderado principalmente por Ricky Lambert, Adam Lallana e Jay Rodriguez, passou a ser um dos mais interessantes e divertidos de ver na Premier League. Pochettino conquistou vitórias sobre Manchester City, Chelsea e Liverpool enquanto estava em St. Mary’s, terminando a temporada 2013/2014 em 8°. O ex-zagueiro do Newell’s Old Boys notoriamente utilizou muitos jogadores das categorias de base na equipe titular, revelando jogadores como Luke Shaw, Calum Chambers e James Ward-Prowse. Para um clube que acabara de voltar à primeira divisão, um excelente trabalho.

Mauricio Pochettino recebeu grande reconhecimento pelo seu trabalho com o Southampton, e, em maio de 2014, ele se mudou para o norte de Londres para comandar o Tottenham na temporada 2014/2015. Para muitos seguidores do clube, a chegada do argentino representou uma esperança de que os Spurs deixariam de ser “spursy” – e não é que aconteceu? Pochettino não fez contratações caras, não prometeu conseguir a classificação para a Champions League e nem vencer a Europa League. Ele começou do zero. Para que o time pudesse atingir as expectativas que não vinham atingindo nas temporadas anteriores, Mauricio precisou fazer algo que nenhum outro técnico antes dele havia feito: desenvolver o time já existente. Seria muito fácil vender o time todo e comprar um novo, repetindo o ciclo de transição que o clube se encontrava, porém, ele foi ousado.

Você ouviu bastante de um tal de Harry Kane, não? Aquele  mesmo que surgiu do nada e fez 31 gols em 51 jogos em todas as competições pelo Tottenham em 2014/15. Pois é, quem teve a ideia de desenvolver e usar o moleque foi o Pochettino. Naturalmente, Kane foi o jogador que mais se destacou sob o comando do técnico argentino, mas ele não foi o único que mereceu destaque – Danny Rose, Nabil Bentaleb e Ryan Mason mostraram que são muito competentes para o time titular dos Spurs. Se você nunca ouviu falar de algum deles, é por que são jovens desenvolvidos da própria base do Tottenham. Das contratações que não renderam no comando de Villas-Boas e Sherwood, Chadli, Eriksen e Lamela mostraram o seu valor para o técnico e para os torcedores. Mauricio levou o rejuvenescido e vigoroso time de White Hart Lane ao 5° lugar na Premier League, além de ir para a final da Copa da Liga inglesa contra o Chelsea (perdemos, no caso).

Com uma base montada e uma estrutura definida, era hora de Pochettino construir seu time para 2015/16. Vendeu Soldado, Capoue, Chiriches e Paulinho – quatro das sete contratações feitas por Villas-Boas com o dinheiro da venda de Bale. O argentino contratou o zagueiro Toby Alderweireld, o atacante Clinton N’Jié, o lateral Kieran Trippier e o ponta esquerda Son. Mauricio também manteve sua política de dar chance aos jovens jogadores da base, relacionando Alex Pritchard, Josh Onomah e Harry Winks a equipe principal. O goleiro Hugo Lloris recebeu a faixa de capitão e, Kane, o moleque de apenas 22 anos, ficou como vice-capitão e número 10 do time titular. Franco Baldini, diretor de futebol responsável pelas contratações fracassadas de 2013/2014, foi despedido, e contrataram Paul Mitchell, o ex-“Head of Recruitment” do Southampton, com o objetivo de contratarem jogadores mais novos com potencial e por um preço bom.  Tudo isso representou, de certa forma, que uma era de fracassos e frustrações agora seria substituída por uma era de esperança e confiança, algo que faltava muito nas arquibancadas do estádio nos anos anteriores. O “spursy” está morrendo, lentamente.

E onde está o casamento entre Pochettino e o Tottenham no momento? Em 5° lugar, 20 pontos ganhos (apenas cinco atrás do primeiro colocado, Manchester City), com a melhor defesa do campeonato depois de 11 rodadas e invicto desde a primeira rodada, quando perdeu pro Manchester United por 1 a 0, em Old Trafford. Vale lembrar que os Spurs têm o time mais jovem da Premier League, o que evidencia a tática do técnico argentino.  Números à parte, podemos destacar individualmente a performance de jogadores como Eric Dier, zagueiro inglês de 21 anos que está impressionando a todos com sua impecável execução de proteger e fechar o meio de campo. Dele Alli, o meia de 19 anos que veio de Milton Keynes Dons (terceira divisão inglesa) já é um forte concorrente ao jovem jogador da temporada, sem contar que ele já conseguiu sua estreia pela seleção inglesa principal. O argentino Erik Lamela, de 23 anos, dá novos indícios a cada jogo de que ele vai atingir seu potencial vestindo as cores do Tottenham, superando o início ruim que teve quando chegou em 2013.

Mauricio Pochettino reinstaurou o otimismo e levantou o espírito de tudo e todos conectados ao clube, e por tal fato somos eternamente gratos. Esperamos que a lua de mel traga sucesso, e, quem sabe, os filhos dessa união possam desfrutar da glória que um dia marcou gerações de torcedores. Confiamos em você, Poche.

*Inglês de 16 anos, torcedor do Tottenham, morando no Brasil. Quer virar técnico de futebol no futuro.
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