A torcida do Selhurst Park terminou o primeiro tempo sem fôlego. Assistiu a cinco gols, duas bolas na trave e outras grandes chances criadas pelo time visitante, cuja defesa instável permitiu que o anfitrião fosse duas vezes às redes. Mesmo com uma etapa final mais morna, os 45 minutos iniciais valeram o ingresso. Foram divertidos, mesmo para quem não torce para nenhum dos times, como muitos jogos do Liverpool de Jürgen Klopp este ano.

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Não é novidade que o técnico alemão busca montar equipes que jogam com intensidade e para frente, o que é sempre agradável de se ver. Uma filosofia que vem sendo lapidada durante a sua passagem por Anfield Road e já começa a render frutos. O Liverpool divide a liderança da Premier League, ao lado de Manchester City e Arsenal. E, sob o comando de Klopp, já tem um currículo razoável de partidas eletrizantes: 5 a 4 contra o Norwich, 4 a 3 contra o Borussia Dortmund, 4 a 3 contra o Arsenal e o 4 a 2 do último sábado em cima do Crystal Palace.

“Não jogamos desse jeito porque queremos mostrar alguma coisa”, afirmou Klopp, depois do jogo. “Fazemos isso porque esse tipo de futebol nos ajuda. Porque acreditamos que a melhor maneira de defender é manter a bola. No nosso mundo, é assim que funciona. Enquanto tivermos a bola, é bastante lógico. Então, não pensamos em entreter”.

Vocês não precisam nem de duas tentativas para adivinhar qual o time que tem a maior média de posse de bola da Premier League. É evidentemente o Manchester City de Guardiola, que tem essa característica como um de seus principais dogmas. Fica com a pelota no pé durante 60,7% do tempo nas partidas. Em segundo lugar, aparece justamente o Liverpool, com 58%.

Ter a bola, para defender ou para atacar, é uma característica nova nos times de Klopp, provavelmente uma reação a um sistema defensivo frágil do Liverpool desde os tempos de Brendan Rodgers. Não foi assim no Borussia Dortmund – que tinha jogadores de defesa muito melhores. Nas últimas seis temporadas do treinador no Westfallenstadion (de 2009 a 2015), a média de posse de bola do Dortmund foi de 52,3%. Nos dois títulos de Bundesliga, em 2010/11 e 2011/12, foi respectivamente 51,4% e 53,3%. Na temporada passada, o Liverpool teve 55% – Klopp chegou em outubro.

Mas a posse de bola praticada por Klopp é diferente em relação à de Guardiola. O espanhol instrui seus jogadores a cozinharem mais o adversário, rodando a bola de um lado para outro em busca de espaço. Os times de Klopp são mais verticais: agridem e, quando não marcam, pressionam imediatamente para recuperar a posse. Questão de gosto, mas o estilo de Klopp contribui para uma partida mais aberta. O Liverpool finaliza mais que o City (18.2 chutes por jogo contra 17.2), o que indica menos paciência na conclusão das jogadas. Também desarma mais (média de 19.1 contra 17.9), o que, por sua vez, indica que a bola tem que ser recuperada mais vezes.

Isso só funciona com um alto índice de trabalho, dedicação e concentração dos jogadores, principalmente dos atacantes, já que a pressão tem que começar no campo de ataque. E, depois de algumas tentativas, Klopp encontrou um quarteto ofensivo ideal em Firmino, Coutinho, Mané e Lallana. “Quando você tem esses garotos, faz sentido (jogar assim). Eles são capazes de fazer isso e é só nisso que pensamos”, explicou o treinador, que tem méritos nessa formação. Recuperou Firmino e Lallana, contestados na reta final de Rodgers, bancou a contratação de Mané, mesmo a um preço que parecia alto demais, e Coutinho nunca jogou tão bem.

Contra o Crystal Palace, o meia brasileiro deu outro show. Criou a jogada que terminou no primeiro gol com um lindo passe para Moreno. Deu assistência para o lateral esquerdo acertar a trave e em boa chance de Lallana. Começou o lance que Mané perdeu, livre, na entrada da pequena área. Acertou a trave em uma cabeçada. E cobrou os dois escanteios que resultaram em gols de Lovren e Matip. Em dez jogos na Premier League, marcou quatro vezes e criou 25 chances, média de 2,5 por partida, quatro das quais viraram gol.

Outro homem importante nessa equação é Firmino, que marcou um belo gol no segundo tempo para fechar o placar a favor do Liverpool, completando uma bola longa de Henderson com uma cavadinha sobre o goleiro do Crystal Palace. O atacante tem executado a função de centroavante, o tal “falso 9” se você preferir, com bastante movimentação. “Ele o puxa ao redor do campo, aparece no meio, e quando ele está no meio, alguém o substitui (perto da área). É um pistão em uma engrenagem”, analisou Alan Pardew, técnico do Palace. Em nove jogos pela liga inglesa na temporada, Firmino tem os mesmos quatro gols e 25 chances criadas do companheiro Coutinho.

Um time que ataca melhor do que defende, que protagoniza jogos de muitos gols e se apoia nos jogadores de frente. Isso lembra alguma coisa? O torcedor mais atento do Liverpool já deve ter percebido que nos referimos à equipe de Rodgers na temporada 2013/14, quando os Reds ficaram muito próximos de quebrar o jejum de títulos ingleses. Como naquela época, o clube não disputa competições europeias e pode se concentrar exclusivamente na Premier League. Mas também há algumas diferenças.

O Liverpool daquela temporada tinha Luis Suárez, um atacante de primeira linha que resolvia jogos sozinhos e marcou 31 vezes na liga. Por melhores que Coutinho e Firmino estejam, ainda parecem um pouco distante desse nível. Também havia uma forte liderança na figura de Steven Gerrard. Jordan Henderson consegue desempenhar esse papel? Por outro lado, Klopp tem mais opções no banco de reservas. Além dos titulares, conta Sturridge, Origi, Wijnaldum e outros jogadores que podem ser importantes.

O começo de temporada do Liverpool é muito bom, e o futebol desempenhado, animador. Ainda não dá, no entanto, para ter certeza que brigará pelo título até o fim. Precisa amadurecer, principalmente na defesa – também responsável por partidas com tantos gols. Lovren falhou contra o Palace, Karius virou titular, mas ainda não passa muita confiança, e Milner tem quebrado o galho de lateral esquerdo porque ninguém confia em Moreno. Mas a evolução do time de janeiro para cá tem sido visível. Poderá crescer a ponto de enfrentar Manchester City, Chelsea, Arsenal e Tottenham de igual para igual até o fim da temporada?