O Mundial de Clubes já começou (o pequeno Hienghène, da Nova Caledônia, levou o jogo contra o Al -Sadd de Xavi para a prorrogação, como contamos aqui) e há uma certa expectativa aqui no Brasil para vermos o possível duelo entre o Flamengo, campeão da Libertadores e que apresentou grande futebol neste semestre, e o Liverpool, campeão da Champions League na temporada passada e atual líder da Premier League. Só que a forma como os ingleses em geral olham para o Mundial é muito diferente de como nós, sul-americanos, o fazemos.

Entrevistas com torcedores e com jornalistas no país, feitas pelo site de apostas online Betway Esportes, mostram que a maior parte nem lembra quando seus times estiveram no Mundial. A importância do torneio para os ingleses é quase que um amistoso de luxo. É uma visão atual sobre o torneio, reforçada nas palavras do repórter Liam Twomey, do site The Athletic. “É quase um inconveniente para os clubes ingleses”. Mas há outras razões que tornam a relação dos ingleses com o atual Mundial de Clubes bastante fria.

Os conflitos na época da Copa Intercontinental

O período de Copa Intercontinental, o Mundial da época, deixaram marcas nos ingleses, e nos europeus em geral, a ponto de mudar a fórmula de disputa por isso. Como mostramos nesta matéria do Guia do Mundial de Clubes de 2012, a primeira vez que os ingleses jogaram o Mundial foi tratado como um grande evento. O duelo era do Manchester United contra o Estudiantes, então campeão sul-americano. Os cartazes em Old Trafford descreviam o jogo como “World Championship”. Era o time de Bob Charlton em campo para tentar uma taça então inédita para os britânicos.

O contexto era de guerra: ingleses e argentinos tinham se enfrentado na Copa de 1966, aquela que teve uma imensa controvérsia, que teve a expulsão de Antonio Rattín, reclamada pelos argentinos até hoje e que foi o grande fator gerador da origem dos cartões amarelo e vermelho. Foi naquele jogo também que o técnico inglês, Alf Ramsey, descreveu os argentinos como “animais”. O desenrolar daquele confronto deixou muitas marcas. Os argentinos foram acusados de serem extremamente violentos no jogo de ida, em Buenos Aires. O árbitro permitiu o jogo violento dos argentinos e, assim que um inglês revidou, foi expulso. Os argentinos venceram por 1 a 0.

Em Old Trafford, os argentinos não se intimidaram com os mais de 60 mil torcedores no estádio e, mais uma vez com um jogo duro, arrancaram um empate com os ingleses, com direito a um gol de Juan Ramón Verón, pai de Juan Sebastián Verón, que levaria o Estudiantes a outro título da Libertadores muitos anos depois, em 2009.

Naquele jogo de 1968 em Old Trafford, as coisas ainda acabariam quentes. José Hugo Medina se envolveu em uma confusão com George Best e ambos acabaram expulsos. Medina sequer conseguiu chegar ao vestiário, porque os torcedores do United atiraram objetos em campo incessantemente. No final do jogo, com o empate por 1 a 1, um jogador do United deu um soco em outro do Estudiantes, o que gerou uma confusão. O time argentino tentou dar a volta olímpica no Old Trafford, mas os torcedores seguiam atirando objetos nos argentinos.

LEIA MAIS: Os 50 anos de Manchester United x Estudiantes, um jogo de controvérsias, mas ainda assim eterno

Os jogos entre europeus e sul-americanos já eram violentos naquela época, mas se tornaram ainda piores e as consequências deste duelo entre Estudiantes e Manchester United mudou a relação dos europeus com a Copa Intercontinental, especialmente os ingleses. Em 1977, o Liverpool, campeão europeu, se recusou a jogar contra o Boca Juniors. Quem foi para a disputa foi o vice, Borussia Mönchengladbach. Em 1978, o Liverpool novamente foi campeão e novamente se recusou a jogar o torneio. Desta vez, o jogo não aconteceu. O Boca Juniors, campeão sul-americano, não enfrentou ninguém.

Em 1979, o Nottingham Forest, campeão europeu, também abriu mão de jogar o torneio. Foi o Malmö o representante da Uefa, que acabou derrotado pelo Olimpia. Só cinco mil torcedores do Malmö estiveram no estádio no jogo na Suécia. O jornal Mundo Deportivo, da Catalunha, descreveu o torneio como “um cão sem dono”.

Com tantas abdicações seguidas, o formato de disputa foi alterado. Os ingleses se recusavam a vir jogar na América do Sul por acusaram os times daqui de jogarem sujo e serem violentos. Com o torneio tendo cada vez menos prestígio, a Toyota apareceu. Trouxe a solução: levar a disputa para um jogo único, no Japão. Assinou contrato com a Conmebol e Uefa, que estabelecia punições duras aos clubes que se recusassem a ir. Assim, em 1980, o Nottingham Forest foi para a disputa contra o Nacional, do Uruguai. O Liverpool foi atropelado pelo Flamengo em 1981. Em 1982, o Peñarol derrotou o Aston Villa. Em 1984, o Liverpool perdeu do Independiente. Nesses anos, os ingleses já disputaram com um certo desdém a competição, mas enfrentaram grandes times que, talvez, mesmo jogando com o que podiam, perdessem. A relação distante com o torneio, porém, já estava estabelecida.

A saída do Manchester United da FA Cup em 2000

Beckham, do Manchester United, entra em campo contra o Necaxa, no Mundial de 2000 (Getty Images)

Uma das origens do ranço moderno dos ingleses com o torneio vem da temporada 1999/2000. O Manchester United, que tinha ganhado a famosa Tríplice Coroa na temporada 1998/99. Só que na temporada seguinte, o clube precisou abrir mão da disputa da Copa da Inglaterra para encaixar no calendário a disputa do Mundial de Clubes de 2000, o primeiro organizado pela Fifa, que aconteceu em janeiro daquele ano.

Isso menos de um mês depois de ter disputado a Copa Intercontinental contra o Palmeiras, no dia 30 de novembro de 1999, no Japão. Pouco mais de um mês depois, começaria o Mundial de Clubes da Fifa, disputado no Brasil. O Manchester United estreou no dia 6 de janeiro, contra o Necaxa, em um jogo no Maracanã. Empatou por 1 a 1.

O United não queria abrir mão da Copa da Inglaterra na época e preferia disputar a tradicional competição local. Foi pressionado pela federação inglesa (Football Association, a FA) porque era importante, politicamente, que os ingleses participassem. A FA postulava sediar a Copa do Mundo de 2006 e manter as boas relações com a Fifa era importante naquele momento.

Contrariado, o Manchester United abriu mão da Copa da Inglaterra, o que gerou muitas críticas de público e crítica no país. Os ingleses tomaram um baile do Vasco de Edmundo e Romário naquele Mundial, mas pareceram nem se importar tanto. E seus torcedores também não.

O calendário maluco dos ingleses em dezembro

A época da disputa do Mundial não ajuda muito também. O mês de dezembro é o que mostra o calendário mais maluco para os ingleses, porque há vários jogos em sequência, inclusive o tradicional Boxing Day, que é alvo de críticas de técnicos e jogadores, mas é um sucesso de público nos estádios e de audiências na TV.

É uma tradição que outros países de colonização inglesa fazem, como Austrália, Estados Unidos, Irlanda e África do Sul, por exemplo, em seus esportes. O fim de ano é um momento de jogos da NBA e da NFL nos Estados Unidos, por exemplo. Há eventos de rúgbi na Austrália nesse período.

O Liverpool tem um calendário insano em dezembro e início de janeiro. No dia 10, nesta terça-feira, o time enfrentou o Red Bull Salzburg, e venceu por 2 a 0. No sábado, dia 14, joga contra o Watford, pela Premier League.

Depois, no dia 17, joga pela Copa da Liga contra o Aston Villa, com um time inteiramente sub-23, porque no dia seguinte, 18, joga a semifinal do Mundial de Clubes. No dia 21, joga ou o terceiro lugar, ou a final do Mundial. Retorna para jogar no dia 26 contra o Leicester, no Boxing Day, fora de casa. Fecha o mês no dia 29 contra o Wolverhampton. Mas a maratona continua.

Logo depois da virada do ano, joga pela Premier League no dia 2 de janeiro, em jogo contra o Sheffield. No dia 5 de janeiro, joga contra o Everton pela Copa da Inglaterra. Serão nove jogos nesse período, uma maratona que pode mexer muito com a campanha do time na Premier League, principal objetivo da temporada. Com tantos jogos no caminho, é de se imaginar que o time possa tentar tirar o pé ao menos do primeiro jogo da semifinal do Mundial.

Perguntado sobre o motivo dos ingleses não ligarem tanto, um torcedor do Chelsea indicou justamente o excesso de jogos como um dos problemas. “O calendário. É no meio da Premier League, nós já tivemos datas Fifa, que não servem para nada, e as pessoas querem ver o que vai acontecer na Premier League”.

A autossuficiência inglesa

O goleiro Farago, do Honved, em lance contra o Wolverhampton (Getty Images)

Há outros fatores que explicam um pouco do desdém dos ingleses pelo Mundial de Clubes. O primeiro é a sua autossuficiência. Lembremos que os ingleses se consideravam os melhores do mundo nas primeiras edições da Copa do Mundo, ignorando, assim, as edições de 1930, 1934 e 1938. Só entrariam na disputa em 1950, quando perderam dos Estados Unidos, sua ex-colônia e que até hoje passa longe de uma potência do esporte, e tomaram o famoso choque de realidade.

Mesmo na Europa, a sua aceitação da Champions League (então Copa Europeia) como algo importante não foi imediata. E isso porque eles mesmos provocaram a criação da Champions League depois que o Wolverhampton, então campeão inglês, venceu um amistoso com o Honved, da Hungria, que tinha os craques do país naquela época dos Mágicos Magiares. O jogo foi um ano depois do choque que a Inglaterra teve ao ser derrotada pela Hungria em um amistoso em Wembley pelo espantoso placar de 6 a 3.

Os ingleses passaram a olhar os húngaros como inspiração, justamente por terem feito o que foi considerado por Pat Ward-Thomas, jornalista do Guardian que relatou o jogo, como “provavelmente a melhor exibição de jogo ofensivo que já foi vista em uma partida internacional na Grã-Bretanha”. Seis meses depois, houve uma revanche, desta vez em Budapeste. E os húngaros reafirmaram a sua força com um 7 a 1.

Por tudo isso, quando o Wolverhampton venceu o Honved por 3 a 2 no Molineux, em 13 de dezembro de 1954, e os jornais ingleses cravaram que o time era “campeão mundial”, houve uma imensa reação na Europa que culminaria na criação da Copa Europeia, a atual Champions League, já na temporada 1955/56. Os ingleses, porém, boicotaram a sua primeira edição. O seu atual campeão, Chelsea, foi incentivado pela FA a desistir da disputa, e assim fez. Foi só o Manchester United, no ano seguinte, em 1955/56, o primeiro inglês a jogar o torneio europeu.

Mesmo hoje, em que os clubes ingleses dão muita importância à Champions League, a disputa da Premier League parece ficar acima até mesmo da conquista europeia em muitos casos. É o que está acontecendo com o Liverpool neste momento. Campeão inglês pela última vez em 1989/90, os ingleses amargam 30 anos sem levantar a taça de campeão nacional, um jejum que incomoda o clube a sua torcida. E mesmo sendo o inglês mais bem-sucedido na Europa, com seis conquistas, a última delas na temporada passada, 2018/19, o Liverpool parece sonhar mais com a reconquista da Inglaterra do que com um bicampeonato europeu. Que dirá um campeonato mundial.

O Mundial de Clubes se tornou mais um torneio em um país que tem um dos calendários mais criticados da Europa. Os ingleses já têm duas copas nacionais, mais a Premier League com muitos jogos em dezembro e no fim de ano, valorizam muito mais os seus torneios locais e ainda tem a Champions League muito antes de pensar em qualquer jogo que possa ser chamado de Mundial.

As entrevistas mostradas no vídeo abaixo deixam claro que o interesse dos ingleses não é muito grande no Mundial de Clubes. Seus torcedores não parecem nem mesmo lembrar que seus clubes disputaram a competição. Um dos torcedores mostrados abaixo deixa uma boa indicação sobre por que os ingleses valorizam tão pouco o torneio. “Nós geralmente jogamos contra um time sul-americano. E isso não parece ter nenhum significado”, disse o torcedor.

Há uma relação distante. Mas é sempre bom lembrar que no final, o jogo é jogado e, em campo, ninguém gosta de perder. Em 2005, mesmo que os ingleses tenham essa relação conturbada com o Mundial, sentiram a derrota para o São Paulo. Jogadores vencedores, como era o caso de Steven Gerrard, querem ter todas as conquistas possíveis no currículo. O Mundial não é prioridade para os ingleses, mas não há dúvida: uma vez que a bola rolar, ninguém irá querer perder. Ainda que, no dia seguinte, não tenha tanta gente assim se importando com o resultado na sua própria torcida.