A noite de quarta-feira decidiu um novo rumo para o futebol da Argentina. A assembleia extraordinária da AFA decidiu pela criação da Superliga, mesmo ainda sem ter toda a regulamentação. A Fifa acompanhou a assembleia e ainda pode apontar irregularidades e, em um caso mais extremo, até vetar a mudança na estrutura do futebol argentino. Esta avaliação será feita na próxima semana, na comissão reguladora que interveio na AFA.

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A aprovação aconteceu por 70 votos a um. O único contrário à criação da liga foi Mario Giammaría, presidente da Asociación Rosarina de Fútbol. A principal crítica do dirigente é que está se copiando o modelo da liga espanhola, que “está em crise terminal”. Segundo Giammaría, “falta uma autocrítica profunda” por parte dos dirigentes.

A aprovação da Superliga significa que ela estará sob a AFA, mas terá independência dela para gerir a primeira e a segunda divisão do país. À AFA caberá administrar as divisões inferiores, da terceira em diante (com divisões já regionalizadas), além do Conselho Federal. Isso, claro, além da seleção argentina.

Por que os clubes argentinos criaram a Superliga?

O motivo é um só: receber mais dinheiro. A crise financeira dos clubes está imensa. Os clubes têm a percepção que podem conseguir muito mais dinheiro pelos direitos de televisão do seu campeonato. A percepção não é por acaso: a estatização do futebol na Argentina deixou os clubes à mercê do governo, que pagava pelos direitos de TV. A TyC, canal de TV da Torneos y Competencias (sim, aquela mesma do Fifagate) já sinalizou com uma proposta maior.

O governo Mauricio Macri, presidente eleito da Argentina no final de 2015, disse em campanha que pretendia manter o Fútbol para Todos, mas com mudanças. Tudo indica que as mudanças serão maiores do que se pensava, para não dizer que irão mesmo acabar com o que existe do Fútbol para Todos.

Os clubes grandes, aliás, são grandes entusiastas desta ideia, porque acham que a TV paga muito pouco comparado ao potencial do torneio. De novo, a percepção não é equivocada. O Campeonato Brasileiro vale, atualmente, o dobro do argentino. E os clubes sentem essa diferença em torneios internacionais.

O Fútbol Para Todos continuará até 2019, mas poderá licitar os direitos de TV para emissoras privadas e também internacionais. Com isso, o valor já aumentou e deve aumentar ainda mais. A FPT também será responsável pela publicidade e pelo streaming na internet. Depois de 2019, porém, o governo deve deixar de vez a Fútbol para Todos e a Superliga deve assumir o controle das negociações, o que mudaria bastante o cenário.

Fórmula de disputa

A mudança para Superliga não muda nada na fórmula de disputa. O Campeonato Argentino terá 30 clubes e jogarão todos contra todos em um só turno, totalizando, assim, 29 rodadas. Haverá uma rodada adicional só para clássicos. Quem jogou de mandante no clássico do turno, na rodada dos clássicos será visitante. Caem quatro times, de acordo com os mesmos critérios já utilizados, ou seja, o promedio, e sobem apenas dois. A diminuição de clubes visa chegar a 20 clubes no total, o que só será alcançado em 2020.

O campeonato começa no dia 19 de agosto, para que os clubes não percam seus jogadores para os Jogos Olímpicos por muitas datas. Os Jogos Olímpicos acontecem do dia 5 ou dia 21 de agosto e, assim, os clubes só perderiam seus jogadores por uma rodada, caso a seleção argentina chegue à final.

Conselho Diretor independente da AFA

A Superliga terá um Conselho Diretor próprio, diferente daquele da AFA, ainda que submetido a ela. Será composto por 18 membros, sendo 12 da primeira divisão e outros seis da segunda. Marcelo Tinelli, dirigente do San Lorenzo, se candidatou ao cargo, mas ainda não está decidido. Outros clubes preferem que seja um profissional de marketing no cargo.

Vice-presidente do San Lorenzo, Marcelo Tinelli (esq.), abraça Daniel Angeleci, presidente do Boca Juniors (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Vice-presidente do San Lorenzo, Marcelo Tinelli (esq.), abraça Daniel Angeleci, presidente do Boca Juniors (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Controle de gastos e punição a clubes com dívidas

Haverá uma espécie de Fair Play Financeiro, ainda que com muitas restrições aqui. A liga fará um controle de gastos maiores e irá estipular uma punição às equipes que, na temporada 2017/18, tiverem dívidas. Os clubes endividados não poderão fazer contratações.

A divisão do dinheiro da TV

O total do dinheiro de TV pago aos clubes participantes da Superliga será de 2,5 bilhões de pesos argentinos por temporada, algo em torno de R$ 550 milhões. Um valor é que cerca de metade do que é pago pelo Campeonato Brasileiro (em torno de R$ 1,1 bilhão). O ponto mais importante é que a gestão deste dinheiro não será mais feita pela AFA, mas sim pela Superliga. Uma mudança importante, porque tira da AFA o poder de usar isso em seu favor. Ao menos em tese.

A esse valor, se soma 120 milhões de pesos da venda de direitos internacionais e se desconta também 7%, de acordo com o decreto 1212, que destina esse dinheiro aos profissionais que trabalham com futebol (jogadores, técnicos, médicos). Sendo assim, o total arrecadado é de 2,43 bilhões de pesos.

A divisão desse total, porém, beneficiará todos os níveis do futebol argentino, não só os da primeira divisão. Será assim:

– Clubes da primeira divisão ficarão com 78% desse total;
– 12% irão para os clubes da Nacional B, segunda divisão do país;
– 2,5% para sustentar a estrutura e gastos da Superliga;
– 7,5% para as categorias de futebol profissional que não pertencem à Superliga (terceira divisão para baixo).

Todos os clubes conseguiram um aumento de ao menos 25% no valor que recebem. Diferente do que acontecia no Fútbol para Todos, a divisão não será igual entre todos. Haverá três faixas de pagamento do dinheiro:

– Grupo I: River Plate e Boca Juniors, que recebem 97,86 milhões de pesos (R$ 26,62 milhões);
– Grupo II: Independiente, San Lorenzo, Racing e Vélez Sarsfield , que recebem 74,61 milhões de pesos (R$ 16,47 milhões);
– Grupo III: Os outros 24 clubes da primeira divisão, que recebem 55,59 milhões de pesos (R$ 12,27 milhões).

Falta de um estatuto definitivo

O maior problema é que a Fifa pode barrar o movimento por encontrar 13 divergências que precisam ser regularizadas. Entre as principais estão a reeleição indefinida do presidente, a cessão dos direitos televisivos da AFA à Superliga sem tempo determinado, a constituição dos órgãos de governo e a criação de um tribunal de justiça desportiva de um só membro dependente do presidente.

Haverá outras reuniões na AFA para desenhar o estatuto definitivo, que resolva todos estes problemas. A Fifa já deixou claro que, como está, a Superliga não pode ser aprovada. “Depois desta assembleia deverão ser revistos artigo por artigo do estatuto para ver se pode chegar a um texto final adaptado ao padrão do futebol internacional”, disse uma fonte da Fifa, da Suíça, ao jornal argentino La Lación.

As negociações entre o governo argentino, a AFA e os dirigentes da Superliga visam agilizar todo este processo e tornar possível que todo este laço seja perfeitamente amarrado, sem problemas com a Fifa. Há pouco mais de um mês para que o torneio comece e, até lá, é preciso que tudo esteja de acordo. Tudo indica que todas estas questões devem ser resolvidas nos próximos dias.

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