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O Rennes vive um momento sui generis. Ao mesmo tempo em que faz boa temporada, ocupando a terceira colocação da Ligue 1 e tendo contratado no mês passado um campeão do mundo, Steven Nzonzi, o clube decidiu demitir o presidente cujo trabalho permitiu à equipe da Bretanha alcançar o nível que hoje o permite sonhar com uma inédita classificação à Champions League.

Desde o final da semana passada, Olivier Létang não é mais dirigente do Rennes. A decisão foi uma surpresa para torcida, imprensa, jogadores e mesmo para o próprio Létang – ainda assim, escreve a RMC Sport, uma escolha feita pelo bilionário francês proprietário do clube, François-Henri Pinault, desde o fim de dezembro.

Létang deixou claro que sua saída não foi uma decisão que passou por ele, ao se dizer “relutante em sair”. No cerne da demissão, está uma tensão interna entre o agora ex-presidente rennais e o técnico da equipe, Julien Stéphan, duas figuras importantes do sucesso recente do clube.

Olivier Létang se tornou presidente do Rennes em novembro de 2017, depois de passar quase cinco anos no PSG, lá sendo inicialmente diretor de futebol adjunto e, depois, diretor de futebol de fato. O que caracterizou seus 27 meses à frente do clube rennais foi sua falta de hesitação em demitir treinadores quando sentia que algo precisava ser mudado. Logo que chegou, se desfez de Christian Gourcuff. Trouxe para seu lugar Sabri Lamouchi, que conseguiu levar o clube à Liga Europa, com o quinto lugar na Ligue 1 de 2017/18.

Na temporada seguinte, Lamouchi não deu sequência ao bom trabalho e, mesmo após poucos meses de campanha, acabou demitido por Létang ainda em dezembro de 2018. Foi substituído então por Julien Stéphan, que era até então treinador da equipe B do Rennes. A aposta dá certo, e os rennais conseguem, com Stéphan, sua melhor campanha na história da Liga Europa, chegando pela primeira vez às oitavas de final depois de eliminar o Betis. Nesta fase, cai diante do finalista Arsenal, mas quase conseguindo a classificação depois de vencer a partida de ida por 1 a 0.

O melhor, no entanto, ainda estaria por vir. Sob o comando de Stéphan, a equipe, com Ben Arfa, Bourigeaud e Ismaïla Sarr, derrota o Paris Saint-Germain nos pênaltis e leva o título da Copa da França ao fim da temporada, o primeiro desde 1971. Este é um momento chave, porque ali se constrói uma dívida dos proprietários com o técnico que mesmo o impaciente Létang não poderia ignorar.

O troféu conquistado garantiu ao Rennes mais um ano na Liga Europa, mas desta vez a campanha passou longe do relativo sucesso anterior. No grupo E, a equipe da Bretanha terminou a chave como lanterna, com apenas quatro pontos conquistados em seis jogos: uma vitória, um empate e quatro derrotas. Desde o revés diante do Cluj, na quarta rodada, que selou a eliminação, Létang já confidenciava aos próximos sua insatisfação com o trabalho do técnico na temporada, e nomes começavam a pipocar nos bastidores, como os de Laurent Blanc e Rémi Garde.

O então presidente já visava a demissão do técnico, como o próprio Stéphan acabou revelando nos últimos dias à imprensa, no rescaldo do fim do reinado de Létang como presidente: “No fim de novembro, eu tinha três partidas para salvar o meu emprego, e eu via nomes surgindo na imprensa para me substituir”.

Há meses a relação entre os dois não era boa, e este é o segredo pior guardado do futebol francês nesta temporada. O próprio Stéphan, em entrevista coletiva no último sábado (8), falou com termos claros sobre isso: “Não era segredo para ninguém que nossas relações não eram sempre harmoniosas. No entanto, não posso esquecer que foi ele quem me deu a possibilidade de me encontrar nesta posição (de técnico do Rennes). (…) Não sei se existe um bom timing para isso, simplesmente devemos confiar no acionista em relação ao timing”.

No fim das contas, François-Henri Pinault optou por dar um fim ao padrão tão resultadista e implacável de Létang. No braço de ferro entre presidente e treinador, caiu desta vez o mandatário. Por um lado, foi com Létang que o Rennes alcançou o que alcançou nestes últimos anos. Por outro, Stéphan reagiu ao mal momento e, embora ainda viva uma situação irregular na temporada, segue como terceiro colocado da Ligue 1, ainda que os tropeços recentes tenham permitido a aproximação do Lille e dos outros concorrentes na tabela.

Toda essa situação, no entanto, coloca interrogação nos três meses finais de temporada dos rubro-negros. Létang era uma figura popular entre alguns jogadores. Segundo o L’Équipe, o ex-mandatário fez um discurso emocionado aos atletas, anunciando sua partida, e figuras como Mbaye Niang e Hamari Traoré teriam chegado a se recusar a treinar. Em um último ato no clube, Létang teria dissuadido a insurgência dos atletas, ressaltando a busca pela vaga na Champions League da próxima temporada.

Por mais que os planos de Létang para Stéphan tenham sido o principal catalisador da escolha dos proprietários, a falta de clareza do ex-presidente em suas tomadas de decisão também pesou, como ao demitir figuras menores mas importantes dentro do quadro do clube.

A demissão de Létang surpreende bastante pelo timing, mas este também se explica pelo fim dos trabalhos do dirigente na janela de transferências, que viu a chegada de Nzonzi. Agora, sob nova direção, ainda a ser definida, os Pinaults querem dar logo início ao novo trabalho que irá moldar os próximos anos do clube.

O sarrafo estará alto: em seu tempo no clube, Olivier Létang presidiu o quinto melhor time da Ligue 1, pelo menos em média de pontos conquistados ao longo das 88 partidas no período (1,57 por jogo). O balanço é o melhor entre os sete mandatos que o Rennes teve desde 1998. Jacques Delanoë assumiu interinamente, mas o festival de rumores já começou, incluindo até mesmo um certo Arsène Wenger – o que seria legal, mas talvez desafiador demais a uma figura que já escreveu seu nome no futebol mundial.