Por que nenhum clube da Premier League trocou de treinador para a nova temporada?

Quando a temporada termina, tudo para. Os jogadores entram em férias, há geralmente um mês – em países civilizados – até a retomada dos treinamentos e não há momento melhor para trocar de treinador. É a chance de começar um projeto do zero, com tempo de pré-temporada para assimilar conceitos, com o mercado aberto para adaptar o elenco a novas ideias, e talvez justamente por desta vez não ter havido intervalo razoável para nada disso a Premier League começará sem treinador novo em nenhum dos 20 clubes.

De cima para baixo, Jürgen Klopp, Pep Guardiola, Ole Gunnar Solskjaer, Frank Lampard, Brendan Rodgers, José Mourinho, Nuno Espírito Santo, Mikel Arteta, Chris Wilder, Sean Dyche, Ralph Hasenhüttl, Carlo Ancelotti, Steve Bruce, Roy Hodgson, Graham Potter, David Moyes e Dean Smith assinaram a súmula da última rodada da temporada 2019/20, em 26 de julho, e farão o mesmo na primeira da edição 2020/21, que terá início neste fim de semana.

Os três clubes promovidos da Championship também mantiveram os seus comandantes, o que costuma acontecer com mais frequência: Marcelo Bielsa no Leeds, Slaven Bilic no West Brom e Scott Parker no Fulham. Entre os rebaixados, Daniel Farke permaneceu no Norwich para a segunda divisão, Eddie Howe e Bournemouth encerraram um longo casamento e o Watford contratou um treinador novo porque havia demitido o seu anterior, Nigel Pearson, a dois jogos do fim da temporada, e porque o Watford contrata treinador novo a cada quinzena.

E não é a primeira vez. Aconteceu a mesma coisa em 2005/06 e houve outras ocasiões da era moderna do Campeonato Inglês em que apenas um ou dois clubes trocaram de treinador entre uma temporada e outra. Há, porém, uma tendência de crescimento em tempos recentes, com média sustentada entre três ou quatro mudanças desde 2006/07 e um pico de oito antes da temporada 2016/17. Logo, embora não seja inédito, o contraste com esse histórico recente indica que o tempo curto entre as temporadas pode ter sido um fator

Mas não o único. Porque, na Bundesliga, apenas o Hoffenheim contratou um comandante novo, Sebastian Hoeness, após demitir o holandês Alfred Schreuder a quatro jogos do fim, mas a Serie A terá cinco novidades, em comparação com sete na temporada anterior, e a Espanha, seis. A França, que suspendeu seu campeonato assim que o futebol parou na Europa e teve muito tempo para refletir, executou apenas três trocas. Existe também o fato de que praticamente todos os 20 clubes da Premier League nutrem algum nível de satisfação pelo trabalho de seus treinadores ou pelo menos acham que há motivos suficientes para insistir.

Jürgen Klopp, por exemplo, merece um voto de confiança, certo? Campeão inglês, europeu e mundial ao mesmo tempo. Também ninguém demitiria Pep Guardiola por tudo que ele fez, faz e ainda pode fazer – apesar de uma temporada cheia de problemas. O Sheffield United subiu como favorito ao rebaixamento e brigou por vaga na Champions League. Chris Wilder não foi treinador, foi milagreiro. Nuno Espírito Santos levou o Wolverhampton a dois sétimos lugares consecutivos.

Esses são os quatro que considero absolutamente intocáveis, sem uma vírgula que justificasse demissão, sem um outro nome que pudesse fazer melhor do que eles fizeram. Brendan Rodgers entraria nessa categoria também, não fosse a derrocada na segunda metade da Premier League que custou a vaga na Champions que parecia certa. Uma diretoria mais empolgadinha poderia tomar uma decisão precipitada, mas a do Leicester preferiu valorizar a maneira como o norte-irlandês elevou o patamar do time desde que substituiu Claude Puel.

Ole Gunnar Solskjaer e Frank Lampard não fizeram trabalhos impecáveis, passaram por temporadas com altos e baixos e com problemas táticos visíveis em seus times. Nomes como Mauricio Pochettino ou Massimiliano Allegri seriam mais seguros, mas Solskjaer e Lampard são muito identificados com os clubes em que trabalham. Estão em início de carreira, o que sempre vale um pouco mais de paciência e, no fim das contas, cumpriram o principal objetivo da temporada ao garantirem classificação à Champions League.

O mesmo pode ser dito de David Moyes. Não é o treinador dos sonhos do torcedores do West Ham. O crédito que ganhou em mais de dez anos no comando do Everton foi gasto em trabalhos ruins no Manchester United, na Real Sociedad, no Sunderland e no próprio West Ham, que não quis renovar o seu contrato cerca de 18 meses antes de recontratá-lo para o lugar de Manuel Pellegrini. Diante da situação em que assumiu os Hammers, porém, fez o que dava para ser feito. Melhorou ligeiramente o nível de desempenho, encaixou o time do meio para a frente e escapou do rebaixamento com mais tranquilidade do que se esperava.

Apenas permanecer na primeira divisão não era o objetivo do West Ham para a temporada, mas foi obrigado a se contentar com ele por causa das circunstâncias. O mesmo pode ser dito do Everton, cuja investida ao top seis da Premier League foi inviabilizada pelos resultados ruins dos primeiros meses de temporada. Demitiu Marco Silva na época do Natal e contratou Carlo Ancelotti. A chance de contar com um treinador desse calibre não seria desperdiçada por uma ou outra série de resultados ruins, que nem foi tão frequente assim na condução do italiano.

Ancelotti, além do calibre, passou sinais bons o suficiente pegando a temporada no meio do caminho para que se criasse expectativa sobre o que poderia fazer começando uma desde a primeira rodada. É o mesmo caso de Mikel Arteta, contratado na mesma época. Os dois inclusive assistiram quase lado a lado ao péssimo empate por 0 a 0 entre Everton e Arsenal, em dezembro. O Arsenal queria se classificar à Champions League e terminou com sua pior campanha em 25 anos, mas Arteta introduziu conceitos, administrou bem a temporada, conquistou a Copa da Inglaterra e pareceu promissor.

A situação de José Mourinho foi semelhante. Não conseguiu ficar entre os quatro primeiros, nem mostrou um futebol muito empolgante, mas arrancou para sexto na reta final e teve um dos melhores aproveitamentos da liga, contando os jogos depois de assumir o cargo, e agora terá a chance de uma campanha completa.

Steve Bruce quase perdeu o emprego. Nada a ver com seu trabalho porque acabou com uma campanha quase idêntica à última de Rafa Benítez, cuja saída causou a revolta em St. James Park, mas porque o consórcio saudita que quase comprou o Newcastle certamente o trocaria por um nome mais badalado. Como o negócio foi abortado, acabou mantido no cargo que sempre sonhou em ocupar. O Crystal Palace está entrando em sua oitava temporada seguida na Premier League, garantida com extrema facilidade por Roy Hodgson, apesar do baixo investimento.

Uma pesquisa entre torcedores dos dois clubes provavelmente descobriria que eles preferem treinadores mais arrojados, mas são dois projetos – um por realmente ter uma estrutura pequena, o outro porque o dono simplesmente não se importa – que preferem a estabilidade a arriscar potenciais prejuízos se ambicionar muito alto. O Palace inclusive chegou a fazer isso. Contratou Frank De Boer para o lugar de Sam Allardyce, na tentativa de levar uma experiência plástica mais satisfatória para o Selhurst Park, mas não deu mais do que cinco partidas – com quatro derrotas pela Premier League sem fazer um gol – antes de voltar à velha fórmula do treinador inglês experiente, simples e eficiente.

O perfil é parecido com o do Burnley, mas lá há sinais de um natural fim de ciclo. Sean Dyche é o treinador mais longevo da liga inglesa e terminou a última campanha aparentando frustração. Cobrou mais investimentos da diretoria ao conseguir a sua segunda temporada entre os dez primeiros, apesar de gastado, em média, apenas € 15 milhões por ano na elite. O clube não quer, nem pode se dar ao luxo, de tentar um passo maior do que as pernas e tem o treinador perfeito para suas ambições. Uma troca poderia ter acontecido caso o próprio Dyche decidisse que era hora de respirar novos ares, e por enquanto, ainda não fez isso.

Graham Potter suou para manter o Brighton na Premier League, mas Chris Hughton também não havia conseguido com facilidade, e Potter está à frente de um projeto de médio prazo que vai além dos resultados, com a criação de uma identidade e de um estilo de jogo moderno, com o desenvolvimento de jovens jogadores. Ralph Hasenhüttl faz o mesmo com o Southampton e tem tanta confiança da sua diretoria que renovou o seu contrato até 2024 alguns meses depois de ter levado a maior goleada da história da liga inglesa moderna.

O único que realmente mereceria balançar no cargo é Dean Smith. Para os padrões de times promovidos, ele recebeu uma série de contratações interessantes e passou a temporada inteira torcendo para Jack Grealish fazer alguma coisa. É verdade que foi prejudicado por lesões sérias de jogadores-chave como Tom Heaton e Wesley, e também é que seu time nunca mostrou força coletiva. No entanto, tem identificação forte com o Aston Villa – seu pai, vítima de Covid-19, era fiscal do clube – e a diretoria preferiu reforçar o seu entorno, com a chegada de um novo diretor de futebol e Craig Shakespeare, ex-Leicester, Everton e Watford, para auxiliá-lo.

Curiosamente, o mais próximo que chegamos de uma mudança acabou sendo o Leeds. Marcelo Bielsa assinou contrato para trabalhar na Premier League apenas na última quinta-feira, mas nada tem a ver com o nível do seu trabalho ou da satisfação da diretoria. Foi porque Bielsa é Bielsa e faz coisas de Bielsa. A maneira como tirou o Leeds do purgatório do meio da tabela da Championship e o carregou à elite em dois anos foi irremediável e o argentino será uma das grandes atrações desta nova temporada. Comum com equipes promovidas, até por uma questão de merecimento, Slaven Bilic e Scott Parker também foram mantidos em West Brom e Fulham, respectivamente.

Além das circunstâncias excepcionais deste ano, quase todos os treinadores da Premier League alcançaram os objetivos que seus clubes estabeleceram antes do começo do campeonato, e os que não fizeram têm a justificativa de terem pegado o bonde andando. A confluência de todos esses fatores ajuda a explicar porque nenhum clube terá cara nova gesticulando na linha lateral nesta primeira rodada. A partir da primeira rodada é outra história. David Moyes é cotado pelas casas de aposta como o primeiro treinador a ser demitido, seguido por Roy Hodgson, Parker, Dean Smith e Steve Bruce. O mais seguro, pelo mesmo critério, é Klopp, com Arteta, Nuno, Guardiola e Wilder na sequência.

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