Não era um jogo dos mais importantes, com a Primeira Liga ainda engrenando. Mas era um clássico, e só por isso já se torna o principal duelo do ano. Atlético Mineiro e Cruzeiro se encontraram no Mineirão para fazer seu primeiro confronto em 2017. Primeiro confronto também com as arquibancadas divididas (50% dos ingressos cedidos a cada torcida) desde a reinauguração do estádio em 2013. O que se viu, além da vitória celeste por 1 a 0, foi um belo espetáculo nas arquibancadas. Não foi o melhor dos públicos, com 41,5 mil presentes. Ainda assim, uma multidão. E, segundo a Polícia Militar, não houve registro de ocorrências dentro do estádio e em seus arredores – apesar de relatos isolados.

Embora esparsas (como ocorre no Rio de Janeiro e no Ceará, por exemplo), as experiências com arquibancadas divididas podem ser bem sucedidas no Brasil. Assim como outras iniciativas que deixam de tratar todo e qualquer torcedor como vândalo para compreender um pouco mais a cultura da arquibancada – como a torcida mista em um dos setores do GreNal, o que não seria a solução em todo estádio, mas tornou o espaço mais plural e recebeu elogios. O que vem sendo comum, entretanto, é a reserva de uma cota mínima de ingressos aos rivais – o que pode ser interessante ao clube em jogos decisivos, mas tira o caráter do que é realmente o clássico. Para dividir o espaço, basta conciliar os interesses, como Atlético e Cruzeiro fizeram – ainda que em um contexto determinado, dentro do formato da competição. E isso quando não se insiste na vazia “solução” com torcida única, indicando que a convivência sadia no estádio se tornou irremediável. Algo que, além de ignorar uma compreensão básica sobre a representação do futebol, se mostra um mero paliativo. Quem quer brigar, vai brigar, nos arredores ou longe do estádio. O que se faz necessário é mais inteligência e mais prevenção.

Em Belo Horizonte, o principal “segredo” esteve no policiamento massivo nos arredores do Mineirão. A polícia militar enviou um contingente numeroso e armou um esquema, evitando que torcidas rivais se encontrassem durante a entrada ao jogo. Utilizou o planejamento para traçar rotas, a partir do conhecimento adquirido nos últimos grandes eventos realizados no Brasil. Expertise para isso certamente não falta. Mas também depende da boa vontade das autoridades – de cartolas a políticos, passando por funcionários públicos e membros das próprias torcidas.

Obviamente, o debate não entra na conta apenas do poder público. Também há a negligência dos clubes, que quase nunca encaram o problema de frente e, pior, são permissivos por conta de jogos de poder; e também das torcidas organizadas, que, embora não tenham exclusividade nas brigas, representam uma parcela considerável. Ao invés de priorizarem o intuito primordial de torcer, seu verdadeiro DNA e motivação a grande parte de seus membros, elas acabam sendo também complacentes com seus violentos, quando deveria existir um controle interno. Diante do quadro, a passividade das autoridades públicas complementa e amplifica o entrave. Não se veem discussões de medidas que podem ser realmente efetivas, como um sistema de monitoramento funcional, a exigência de um controle sobre os próprios clubes e organizadas ou até mesmo um cerco maior sobre reincidentes. No fim das contas, a resolução é a que nada soluciona, “torcida única”, um atestado de incompetência para lidar com as verdadeiras raízes do problema.

É bom frisar que a violência relacionada ao futebol não será extirpada apenas com o planejamento maior nos dias de clássico ou de controles internos em clubes e organizadas. Isso depende de preceitos fundamentais, que extrapolam os limites do esporte e se mostram um problema na sociedade como um todo: educação, respeito, humanidade. A questão é ampla e global – afinal, o comportamento agressivo de torcedores, uniformizados ou não, não é exclusividade do Brasil. No entanto, não é por isso que se deve desdenhar da sociabilidade de todos e colocá-los no mesmo balaio. Há um caminho possível, de compreensão, como demonstrado no Mineirão.

Infelizmente, o futebol se acostumou a percorrer o caminho mais curto possível, muitas vezes vendendo um discurso radical – que pode até partir do poder público, mas tantas vezes acaba abraçado pelos clubes, por interesses dos mais variados tipos. Preferem dar mais atenção à minoria que causa problemas, do que à maioria, prejudicada pelas medidas que tentam simplificar uma questão complexa. Torcida única não tirará a necessidade de policiamento do estádio, sob o risco de brigas internas. Assim como não evitará o cuidado no monitoramento de diversos pontos da cidade, para identificar focos de conflitos longe do estádio. Mas vai, sim, afastar o torcedor comum, aquele que gosta de acompanhar seu clube em toda e qualquer circunstância, ainda mais no clássico, a maior representação no ato de torcer. Com isso, perdem o torcedor visitante, o clima nas arquibancadas e, infelizmente, aqueles que continuarão inocentemente atingidos pela violência que não se resolverá assim.

O que se sente, quase sempre, é que se ignora uma das características mais básicas do ser humano: a sociabilidade. E, de certa forma, também a racionalidade. Como já dissemos aqui na Trivela, “excluir torcida visitante é mais uma prova de como autoridades não gostam de lidar com pessoas”. Mais do isso, afasta a possibilidade de ocupação do lugar público e do convívio. Transmite uma ideia que o lugar ideal para se assistir ao futebol é o sofá. Isola torcedores de cores diferentes e torna o rival cada vez mais em alheio, quando o incentivo deveria ser justamente na convivência, para tentar romper o medo.

Neste sentido, há uma mensagem contundente transmitida a cada jogo com torcida única: que o estádio de futebol é um local onde a violência pode romper a qualquer momento. Que não é um “espaço para as famílias”. Algo que, por fim, acaba tornando mesmo o sofá no lugar ideal. Retroalimenta um sentimento de barbárie que cada vez mais afasta as pessoas do estádio e ressoa entre quem sequer frequenta as arquibancadas. Não deve ser assim, por mais que a questão (outra vez) se amplie além dos limites do futebol – e há um problema grave quando aqueles que deveriam ser agentes de segurança também se transformam em agentes do medo, com episódios de brigas que desatam entre policiais e grupos de torcedores.

Só que não é pela existência de facções violentas ou de policiais mal preparados que deixaremos de sair às ruas. É fundamental a prevenção sobre a ação da violência, assim como um investimento maior nas forças de segurança, não só em equipamentos, mas também na própria preparação psicológica. E, dentro deste universo, o futebol não deixa de inserir. O estádio nada mais é do que uma extensão das ruas, em uma situação específica, com a multidão concentrada. Deve receber soluções que não ignorem direitos e caráteres diversos. Que não generalize.

Desta maneira, o exemplo dado pelo Atlético e Cruzeiro desta quarta vai no sentido contrário das impressões sempre deixadas pela torcida única ou pela cota mínima. Nem precisa chegar aos 50%, mas dá para ir bem além dos 10%. O clássico mostrou, sim, que é possível haver sociabilidade. Que prevenção e inteligência não são tarefas hercúleas, existindo planejamento. Que o estádio de futebol, assim como as ruas, deveria ser um espaço de convivência. Uma maneira contundente de combater o medo. E exatamente este movimento contra a corrente do lugar comum que pode ajudar o futebol a se tornar novamente plural, com pessoas trocando o sofá pelo concreto das arquibancadas – ou pelas cadeiras de plástico nas novas arenas.

Não vamos ser ingênuos de achar que a violência relacionada ao futebol vai se extinguir. Mas ela não precisa ser perpetuada através do alarmismo exagerado ou de medidas que já se mostraram ineficazes, mas se repetem, e se repetem. Contudo, a melhora na situação precisa de uma atenção maior à questão, que se insere profundamente na sociedade. E, em um momento no qual parece mais fácil ter ranço do que criar empatia, a convivência começa a soar como utopia. Felizmente, atleticanos e cruzeirenses (assim como as autoridades e os dirigentes) nos mostraram como a realidade não está tão distante assim da tal utopia. E como foi bonito ver o Mineirão, dividido e pulsante, para viver o clássico em sua essência.