O que não falta em São Paulo, no sábado à noite, é opção de lazer. Para todos os preços e todos os gostos, e com um pouquinho de paciência, quem não quiser ficar em casa pode encontrar um pagode regado a cerveja e torresminho ou entrar em uma cara balada da Vila Olímpia. Mas 360 bravos heróis preferiram outro programa e rumaram ao Estádio do Canindé, na Zona Norte, para assistir ao jogo entre Portuguesa e Luverdense (o público oficial foi 361, contando este repórter, que estava no local por motivos profissionais). O preço do ingresso mais barato, para a arquibancada, era de R$ 40, mas muitos presentes haviam comprado o pacote de sócio-torcedor da Lusa que dá direito a todas as partidas. Ainda assim, qual a motivação para vestir o agasalho, ignorar o frio e o chuvisco e enfrentar uma partida completamente sem propósito entre um time já rebaixado e outro sem pretensões no campeonato?

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A maioria citou a paixão, e ela, por si só, basta. O amor por um clube, ou mesmo por uma pessoa, não precisa de uma razão. Ele apenas existe dentro de cada pessoa e o contexto para expressá-lo é irrelevante. Pode ser uma final de campeonato mundial ou uma 34ª rodada da segunda divisão, sem nenhum objetivo ao alcance. Completamente fiéis a essa filosofia, três torcedores apaixonados da Portuguesa cantavam e apoiavam os jogadores. Também tentavam animar os seus colegas, muitos deles jogados nas arquibancadas, com uma animação mais condizente com a de quem acordou cedo no sábado para prestar o Enem.

Tanta paixão tem que vir acompanhada de um pouco de exagero. Guilherme de Oliveira Gomes, corretor de imóveis de 21 anos, o homem de dreads que pula no vídeo abaixo, começou a frequentar o Canindé em 2011, na época da Barcelusa, e faz parte da torcida organizada do clube, a Leões da Fabulosa, há cerca de três meses. Tem planos megalomaníacos para a Portuguesa. “Desde pequeno sonhei em ver a Portuguesa na Libertadores, ganhando um título mundial”, afirma. “Hoje, eu fico triste. A culpa é da diretoria, não dos jogadores. Ano que vem, é obrigação ganhar a Série C, a Copa do Brasil e o Campeonato Paulista. Falam que somos time pequeno, mas não somos. Somos time grande. Eu amo meu time. Pode estar na Série W que eu estarei aqui chorando e torcendo para a Portuguesa”.

Naquela linha tênue entre o amor e o ódio, outra parte da torcida parece ter comparecido ao Canindé apenas para xingar, do aquecimento ao apito final. “Ninguém dá risada, caralho”, era o aviso que um dos torcedores mais exaltados passava aos jogadores que desciam aos vestiários antes da partida começar. “Sabe jogo de Copa Kaiser? Esse time não aguenta, não”, avaliava o mesmo fã, em referência ao famoso torneio de várzea de São Paulo. Em ritmo de eleição, “vai para o Pronatec, bando de desempregados” também era bastante ouvido. O alvo preferido das ofensas era o goleiro Rafael Santos, revelado nas categorias de base do Corinthians. Toda vez que segurava a bola, as arquibancadas emulavam a torcida mexicana e começavam o coro de “ooooooo filho da puta!”.

A maior dificuldade durante os 90 minutos da partida não era fazer o meio-campo do Luverdense ou da Portuguesa acertar seis passes seguidos, mas encontrar algum torcedor da Lusa que não culpasse a diretoria pelo rebaixamento à Série C. O ditado que estava na ponta da língua de todos dizia que o ex-presidente Manuel da Lupa matou o clube e o atual Ilídio Lico apenas enterrou. “Se não viermos, fica do jeito que eles querem”, explica o cartunista Paulo Batista, de 48 anos. “Continuamos vindo para mostrarmos que continuamos aqui”. E a torcida deixou isso bem claro antes do jogo, com um protesto organizado pela Leões da Fabulosa, que reuniu aproximadamente cem pessoas, um terço do público total do Canindé na noite de sábado.

O Canindé quase vazio para Portuguesa e Luverdense (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)
O Canindé quase vazio para Portuguesa e Luverdense (Foto: Bruno Bonsanti/Trivela)

Dentro da responsabilidades da diretoria pelo rebaixamento da Portuguesa à Série C, que começou no final do Campeonato Brasileiro do ano passado, com aquela escalação irregular do Héverton contra o Grêmio, há quem acredite que Manuel da Lupa vendeu a vaga na Série A. Para quem? Não se sabe. Para onde foi o dinheiro? Também não. É apenas uma teoria da conspiração, sem nenhuma prova ou evidência. Mas não deixa de ser assunto nas rodas de discussão da Lusa. “Falavam isso quando aconteceu, e agora que está na merda, estão falando de novo, mas acho que é boataria. Ele é dono de metade da zona norte. Precisaria de muito dinheiro para se vender”, analisa o médico Marcelo Cascapera, 32 anos, no Canindé por motivos quase pragmáticos. “Não sabemos quando vai ser o último jogo da (história da) Portuguesa. Se for esse, eu vim ao último”.

O caso Héverton divide a opinião pública entre a legalidade que salvou o Fluminense do rebaixamento e a legitimidade que manteria a Portuguesa na primeira divisão, mas nada disso importa para o torcedor lusitano, certo de que o seu clube foi injustiçado. E a crueldade final da injustiça é quando o mais fraco cai no esquecimento e os mais fortes seguem em frente, como se nada tivesse acontecido. A missão de Antônio Dionísio, com uma camiseta na qual colou os ingressos de todos os jogos do clube em 2012 e 2013, é lembrar constantemente que a Portuguesa foi rebaixada por causa da CBF. Com todo o ar que consegue recolher nos pulmões cansados de um aposentado de 74 anos, grita que a Lusa venceu Atlético Mineiro e Ponte Preta em campo para escapar da degola. Entrou em campo apenas para cumprir tabela contra o Grêmio, quando houve a irregularidade de Héverton, e foi rebaixada no tapetão.

Agora, o futuro da Portuguesa é nebuloso. Desde o rebaixamento, houve conversas sobre fechar o departamento de futebol, atrair investimento estrangeiros e até vender parte do Canindé, reduzi-lo e modernizá-lo. Provavelmente, muitos garotos serão utilizados no Campeonato Paulista, uma forma de montar a equipe sem muitos custos e ao mesmo tempo resgatar uma tradição lusitana de formar craques. “Temos que investir na molecada, acreditar nela, mesmo levando porrada uma ou duas vezes”, comenta o representante Armando Rodrigues, 65 anos. “A torcida também precisa ajudar. Vem um garoto da base, erra alguma coisa e recebe a maior vaia. Ninguém incentiva. Acho que tem que mudar a mentalidade”. As palavras de Armando foram quase uma premonição. Ao fim do jogo, mesmo com a vitória da Portuguesa por 1 a 0, metade da torcida subiu no alambrado para gritar “timinho” e xingar os jogadores. Outra metade resolveu cantar “Lusa!, Lusa!”, em apoio aos jovens. Houve até troca de farpas entre eles, em um comportamento quase esquizofrênico de uma torcida que ficou perdida em meio a tantos golpes que sofreu.

Mas ninguém está mais interessado no que será o clube do que Vinicius que, aos 13 anos, viu épocas gloriosas de São Paulo e Corinthians, mas nunca pensou em amar vestindo outras cores que não fossem o vermelho e o verde. “É a minha vida, minha família, minha casa. Eu me sinto à vontade aqui”, conta. O futuro da Portuguesa, no fundo, é Vinicius e outras dezenas de jovens que consideram as arquibancadas do Canindé a sua sala de estar e que comemoraram o gol de Luan sobre o Luverdense, esquecendo por alguns milésimos de segundo que ele não valia absolutamente nada. Porque no fim do dia, depois de rebaixamentos e humilhações, xingamentos e reclamações, na primeira, na terceira ou na décima quarta divisão, um gol da Portuguesa continua sendo um gol da Portuguesa. E enquanto houver garotos como Vinicius para comemorá-lo, a paixão pelo clube seguirá existindo.

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