Tradição, rivalidade, camisas pesadas, alçapões, muitos craques. Não dá para negar: em nenhum outro lugar do mundo, as Eliminatórias são tão acirradas quanto na América do Sul. Por mais que as dez seleções não estejam no mesmo patamar, o nivelamento é por cima. E, com cinco vagas em disputa, nenhum país deixa de sonhar com a classificação à Copa do Mundo. Um torneio que segue em alta voltagem durante as suas 18 rodadas, suas 90 partidas. Que permite falar, sem pensar muito: é o melhor campeonato de pontos corridos do mundo.

Sem querer entrar nos méritos da interminável discussão entre pontos corridos e mata-mata – este GreNal que assola as conversas de bar no Brasil há alguns anos. Cada lado tem seus pontos e seus argumentos válidos. Mas, entre as seleções sul-americanas, há um sentimento diferente mesmo para os amantes mais convictos dos mata-matas: os pontos corridos das Eliminatórias guardam uma emoção praticamente constante. Basta comparar com as últimas edições da Copa América, o tradicional mata-mata sudaca. Por mais que o torneio conte com alguns jogos bacanas, algumas edições se arrastam. Diferente do que rola no qualificatório ao Mundial. A quantidade de partidaças é considerável. E por diferentes fatores.

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Obviamente, o número de classificações em jogo ajuda bastante. Com quatro vagas diretas à Copa e uma à repescagem, todo mundo está no páreo durante a maior parte do tempo – embora, na reta final, um ou outro país ganhe folga no topo da tabela. Ainda assim, a importância de cada duelo é enorme. São vários confrontos diretos pelo caminho. Como, por exemplo, já dá para notar nessa primeira rodada. O Brasil tenta não perder pontos contra o melhor Chile da história em Santiago. A Argentina tem a obrigação de fazer o seu dever contra o Equador. A Colômbia joga sob a pressão de estrear com vitória sobre o ascendente Peru. O Uruguai tenta superar os desfalques na altitude contra a Bolívia. E até a Venezuela tenta somar os primeiros pontos contra outra seleção candidata a surpreender, o Paraguai.

Caindo no velho clichê, toda rodada vale seis pontos. Ainda mais considerando a qualidade que está do outro lado. Nove das dez seleções já foram a uma Copa do Mundo. Sete delas estiveram em ao menos uma das duas últimas edições do Mundial. E até os venezuelanos, que sempre foram carta fora do baralho, cresceram na última década e sonham com a vaga inédita. Brasil e Argentina são os favoritos perenes na competição. Chile e Colômbia contam com gerações brilhantes. Equador e Uruguai já viveram momentos melhores recentemente, mas ainda seguem fortes. Ou mesmo Peru, Bolívia e Paraguai apresentaram campanhas interessantes na última Copa América.

Mas, além dos craques ou da fase das equipes, o que também conta muito para o sucesso nas Eliminatórias é o fator campo. Cada país possui a sua particularidade e a sua força de jogar em casa. Algumas seleções sabem usar isso de um jeito melhor, em especial Bolívia e Equador, verdadeiros leões na altitude. Seja pelo ambiente do estádio ou por outra questão geográfica, o clima também é uma ferramenta nos jogos. Não à toa, nas Eliminatórias para a Copa de 2014, os mandantes venceram 42 dos 72 jogos disputados, enquanto os visitantes só se deram melhor em apenas 12 confrontos. O índice é o maior entre os seis continentes.

Você pode até discutir se o formato da competição é o ideal para permitir surpresas. Com 18 rodadas pela frente, as equipes mais fortes têm tempo para se recuperar. Diferente do que acontecia no modelo anterior, com grupos de cinco equipes. Basta ver o sufoco que Brasil e Argentina passaram rumo ao Mundial de 1994. Para a Bolívia sonhar com o retorno à fase final da Copa, precisa ser muito mais regular no atual formato. Mesmo assim, não é impossível, considerando a quantidade de elementos envolvidos – sobretudo, os extracampo.

Messi, Neymar e Suárez farão falta nestas primeiras rodadas. Mesmo assim, a quantidade de estrelas é de se impor respeito. E o principal trio de craques sudacas terá tempo para brilhar. Considerando o alto nível das Eliminatórias, parece um pouco mais difícil a alguma seleção disparar na liderança. Além disso, depois da festa que os vizinhos fizeram nos estádios da Copa de 2014, agora eles poderão repetir a vibração e a paixão em suas próprias casas. Clima fantástico para uma disputa que promete tirar o fôlego pelos próximos dois anos.