No final do ano passado, a revista alemã Der Spiegel, com apoio de documentos vazados pelo Football Leaks, hacker que vem revelando informações secretas do mundo do futebol, publicou uma séria acusação de estupro contra Cristiano Ronaldo. Cinco meses depois, nada aconteceu. Na última terça-feira, a ESPN americana publicou uma matéria que tenta explicar o motivo.

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Em 2009, Ronaldo e Kathryn Mayorga, em um hotel de Las Vegas, fizeram sexo que a modelo americana afirma não ter sido consensual. Na época, intimidada por acusar uma estrela mundial, Mayorga aceitou um acordo de confidencialidade no valor de US$ 375 mil. Estava proibida de falar no assunto, inclusive em terapia, e seria obrigada a provar que destruiu todos os materiais relacionados ao assunto.

A primeira reportagem da Der Spiegel, publicada em 2017, não continha o nome da mulher. A segunda, um ano depois, trouxe depoimentos de Mayorga e documentos em que Cristiano Ronaldo admite que ela “disse ‘não’ e ‘pare’ várias vezes”. Os advogados do jogador da Juventus contestam a veracidade do documento e o acusam de ter sido obtido ilegalmente. Ronaldo disse que a história é “fake news”. Saiba mais sobre a acusação neste texto da Trivela de outubro de 2018.

O novo advogado de Mayorga, Leslie Stovall, considera que o acordo de confidencialidade não é válido “por vários motivos, inclusive porque Ronaldo não cumpriu parte dele”, de acordo com a reportagem da ESPN americana. Ele denuncia que houve uma “tentativa imprópria” de abafar o crime e abriu uma ação civil contra o português.

Essa é uma das vias em andamento que podem levar Ronaldo à Justiça. O problema, aqui, é de lei internacional. Ronaldo ainda não foi oficialmente intimado sobre a ação. A reportagem afirma que intimar alguém que vive em outro país é um “processo complicado que exige seguir as regras estabelecidas por tratados internacionais”.

Ronaldo não autorizou seu advogado americano, Peter S. Christiansen, que nem está listado como o representante legal do jogador na ação protocolada por Mayorga e cuja suposta secretária expulsou os repórteres do seu suposto escritório no começo da matéria, a receber a intimação.

Pessoas que trabalham com Stovall passaram quatro meses tentando entregar a intimação para Ronaldo na Itália, sem sucesso. Expirado o prazo de 120 dias para fazer isso, o advogado entrou com uma moção pedindo mais tempo e alegou que “jogadores da Juventus são tratados como realeza, quase impossíveis de serem acessados”. Na moção, ele também pediu à Justiça autorização para entregar a intimação no centro de treinamento da Juventus ou publicá-la em jornais de Las Vegas e Turim.

Abed Awad, especialista legal com experiência em direito internacional consultado pela reportagem da ESPN, afirmou que enrolar para receber a intimação é uma “tática, uma estratégia calculada” de réus ricos e famosos. “Às vezes funciona, às vezes é um tiro no pé”, afirmou.

A segunda via contra Ronaldo é uma investigação criminal reaberta pela polícia de Las Vegas, oito anos depois de ser fechada. Segundo a matéria, o inquérito está mais parado ainda. Desde que foi reaberto, não houve um anúncio de que algo foi descoberto ou se acusações oficiais seriam realizadas contra o jogador. A única requisição foi de uma amostra de DNA do português, o que a matéria afirma ser comum e que, como não está em disputa que Ronaldo e Mayorga fizeram sexo, pode muito bem dar em nada.

Desde a matéria da Der Spiegel, patrocinadores de Ronaldo, como EA e Nike, expressaram “preocupação”, mas não tomaram nenhuma ação concreta. A Juventus apoiou-o institucionalmente por meio do Twitter: “Cristiano Ronaldo mostrou, nos últimos meses, seu grande profissionalismo e dedicação, apreciados por todos na Juventus. Os eventos que supostamente aconteceram 10 anos atrás não mudam nossa opinião, compartilhada por todos que entraram em contato com esse grande campeão”.

Ronaldo, além de bradar “fake news”, defendeu-se “negando terminantemente as acusações de que sou alvo”, e segue sua vida normalmente. “Considero estupro um crime abjeto, contrário a tudo aquilo que sou e em que acredito. Não vou alimentar o espetáculo midiático montado por quem quer se promover às minhas custas”, disse.