Os alto-falantes tocavam “God Save the Queen“, e folhas com a Cruz de São Jorge, bandeira da Inglaterra, eram levantadas pela torcida da casa. A descrição poderia caber a uma partida realizada no Wembley, mas a cena era mesmo em Pristina, capital do Kosovo, em um jogo de Eliminatórias da Eurocopa.

A Inglaterra encerrou sua participação nas eliminatórias para a Euro 2020 como fez em boa parte da campanha: com boa exibição e goleada no placar final. O 4 a 0 sobre o Kosovo no domingo foi motivo de sorrisos ao técnico Gareth Southgate pelo desempenho em campo, mas, fora dele, os ingleses também tiveram razões para sair contentes.

Durante a reprodução do hino nacional inglês, a torcida kosovar presente no Estádio Fadil Vokrri ergueu bandeiras da Inglaterra, confirmando a expectativa de boa recepção aos ingleses na capital Pristina. A cena foi apenas uma das diversas demonstrações de acolhimento caloroso da equipe local, depois de dois jogos fora de casa marcados por insultos racistas aos jogadores ingleses, na Bulgária e em Montenegro.

O clima favorável era esperado. Isso porque, 20 anos atrás, acabava a Guerra do Kosovo, um sangrento conflito que matou por volta de 13 mil pessoas – e cujo desenlace e anos seguintes de pacificação se deveram muito à intervenção inglesa. Os reflexos deste período fraternal entre as nações podem ser vistos ainda hoje na sociedade kosovar.

O Kosovo, um território de maioria étnica albanesa, pertencia à Sérvia (então Iugoslávia ao lado de Montenegro), mas mantinha uma condição de autonomia constitucional. Diante da tentativa de Slobodan Milosevic, então presidente da República Sérvia, de revogar essa situação, protestos pacíficos começaram a surgir no fim da década de 1980.

Em 1996, alguns insurgentes decidiram partir para a luta armada, criando o Exército de Libertação do Kosovo, que tinha como objetivo final a independência da Iugoslávia e a criação da Grande Albânia, juntando territórios de maioria albanesa. A escalada dos ataques do grupo paramilitar a políticos e policiais sérvios desencadeou, dois anos mais tarde, o início da Guerra do Kosovo.

O confronto durou até 1999, quando a OTAN interveio com suporte aéreo ao Kosovo em março. Após quase três meses de bombardeios, que forçaram os sérvios para fora da província, um acordo entre Milosevic e líderes ocidentais encerrou o conflito e deu espaço a uma força de paz no local.

Das 13 mil vítimas do conflito, estima-se que cerca de 11 mil delas tenham sido albanesas. Além disso, mais de 90% da população kosovo-albanesa foi deslocada por causa da guerra (aproximadamente 1,45 milhão), segundo a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Na força de paz instalada no Kosovo após o conflito, um grande número dos soldados eram ingleses – cerca de 19 mil, mais especificamente. Sua presença no território, patrulhando as ruas, aos poucos permitiu que parte da população que havia fugido retornasse para tentar retomar sua vida em casa.

O futebol, naturalmente, era um dos passatempos das crianças que voltavam para Pristina, e, segundo Atdhe Muharremi, uma dessas então crianças, entrevistado pelo Guardian, os soldados ingleses frequentemente se juntavam ao grupo para bater bola. “Nós os víamos como heróis. Eles eram muito legais e carinhosos conosco. Era uma espécie de um certo amor mútuo, sem palavras. Essa era a energia que sentíamos”, contou Muharremi ao jornal.

As marcas inglesas ficaram no Kosovo. Tony Blair, primeiro-ministro britânico na época e essencial nas políticas que levaram à intervenção da Otan, é hoje o nome de ruas no país – além de inspiração para diversos “Toniblers” que nasceram após 1999.

A imprensa europeia escreve que, antes do jogo, faixas espalhadas por Pristina davam as boas-vindas aos ingleses. “Welcome, broooo” dizia uma, acompanhada por uma foto de Sterling; “Welcome & Respect” dizia outra, enquanto dezenas de bandeiras de Inglaterra e Kosovo balançavam penduradas perpendicularmente em toda a extensão de uma rua na cidade. Nos bares e cafés, garçons serviram os clientes vestidos com camisetas que também davam boas-vindas aos visitantes.

O prefeito da cidade, Shpend Ahmeti, ventilou até a ideia de um evento com cerveja de graça aos torcedores ingleses, mas desistiu, sob aconselhamento da embaixada inglesa em Pristina.

Com o fim das eliminatórias tradicionais para a Euro, restam quatro vagas para a Eurocopa em 2020. Com base no desempenho na Liga das Nações 2018/19, 16 seleções disputarão quatro vagas em playoffs a serem jogados em março do ano que vem. Kosovo estará envolvido nessa disputa e, se conseguir a classificação, terá mais uma chance de encontrar sua nação-amiga, desta vez em sua primeira competição de alto nível da Uefa – a seleção só foi aceita como membro da entidade em 2016.

Neste cenário hipotético, a amizade fica para fora das quatro linhas.