O torcedor de futebol é ansioso por natureza, mas era justificável se o do Liverpool assim se sentisse. Havia sido informado sobre ou visto com os próprios olhos um time que no máximo passava um ano sem conquistar o Campeonato Inglês. A partir de 28 de abril de 1990, quando os Reds venceram o Queens Park Rangers e conquistaram seu 18º título, o um virou dois, depois virou quatro, depois virou dez e na última terça-feira completou 30 anos sem o gostinho de ser o melhor do país.

A expectativa do torcedor era que não chegasse a tanto. Em condições normais, a espera terminaria antes de virar um número cheio, graças à fenomenal campanha dos homens de Jürgen Klopp. A pandemia de coronavírus, porém, obrigou a paralisação do futebol ao redor do globo, e agora a ansiedade é outra: o que será da Premier League? Será possível que depois de tudo isso a temporada será cancelada?

Enquanto essas respostas não chegam, podemos olhar para o passado e mergulhar em alguns dos motivos que levaram a máquina de títulos iniciada por Bill Shankly, refinada por Bob Paisley, muito bem conduzida por Joe Fagan e Kenny Dalglish a entrar em pane, a ponto de ter demorado tanto tempo para que ela fosse reformada.

A ruptura: quando o declínio começou

Souness (Foto: Getty Images)

Quando o fim chega, e eventualmente ele sempre chega, nunca é por um único motivo, mas por vários que coincidem e abalam as estruturas que serviam de sustentação. Um domínio como o do Liverpool, quase 20 anos sendo campeão em uma liga de alta rotatividade de vencedores quase toda as temporadas, foi excepcionalmente longo e, na virada da década de oitenta para a de noventa, muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo.

A primeira delas foi a tragédia de Hillsborough, a segunda envolvendo o Liverpool em quatro anos. Se houve culpa dos torcedores vermelhos em Heysel, em 1989 o sentimento na cidade era de luto, raiva e confusão. Os jogadores tinham papéis a desempenhar como representantes do clube. Compareciam a funerais e enterros. Partidas foram adiadas, e o calendário ficou congestionado – sete jogos em pouco mais de três semanas em maio. A derrota para o Arsenal na última rodada, com um gol no último minuto que custou o título, não foi por acaso.

O Liverpool recuperou a coroa inglesa na temporada seguinte, o título que completou 30 anos nesta semana e continua sendo o último do clube até a atual Premier League ser definida. Era uma situação com a qual todos estavam acostumados: se não ganhassem um ano, ganhariam no outro. Ninguém percebeu que a maré estava mudando. “Você poderia olhar para o time que venceu a liga em 1990 e dizer que faltavam algumas peças, mas 30 anos sem título? Ninguém pensou nisso”, disse Jan Molby, um dos integrantes daquele elenco, em entrevista ao Goal. “A cada ano, perdíamos camadas. Estávamos perdendo jogos que precisávamos vencer e isso não acontecia há muito tempo”.

Em ninguém as repercussões de Hillsborough pesaram tanto quanto em Kenny Dalglish, que havia assumido o time pouco depois de Heysel e o conduzido a um grande sucesso em âmbito nacional. A renúncia em fevereiro de 1991, em meio à temporada, foi um choque. Mas, como diria depois, era isso ou ficar maluco. “Eu não percebi no momento, mas Hillsborough foi o fator mais importante na minha decisão de deixar o Liverpool”, escreveu em sua autobiografia. “Eu falava para mim mesmo: ‘Por que eu deveria sentir pressão?’. As pessoas sob pressão eram as que haviam perdido aqueles que amavam. Na verdade, eu queria deixar Anfield em 1990, um ano antes de renunciar. Nos 22 meses entre Hillsborough e minha renúncia, a corda foi esticando até finalmente estourar”.

“Comecei a ter dúvidas sobre minha habilidade de tomar decisões. No passado, eu tomava a decisão geralmente mais certa do que errada e não pensava mais naquilo. Mas, naquele momento, eu agonizava com tudo”, completou. O Liverpool havia perdido não apenas o técnico, como também sua maior bandeira, mas não era uma situação tão incomum. Bill Shanky também renunciara do dia para a noite. Joe Fagan, campeão europeu de 1984, pediu o boné em apenas dois anos, influenciado por Heysel. A memória institucional de Anfield tinha elementos para lidar com essa situação e tentou manter a fórmula que vinha funcionando.

De Shankly para Bob Paisley, de Paisley para Fagan, de Fagan para Dalglish, o Liverpool sempre buscou a sucessão interna. Havia uma crença, confirmada pelos resultados, de que o sistema implementando por Shankly funcionava e era mais importante alguém que soubesse trabalhar dentro dele do que trazer grandes nomes de fora. Por isso, é difícil culpar a diretoria por escolher Graeme Souness, antigo capitão campeão europeu, figura de liderança dentro do vestiário, personalidade forte e não apenas com experiência de ter treinado o Rangers, como também badalado por ter restaurado os Teddy Bears como potência da Escócia.

O Liverpool perdeu o Campeonato Inglês de 1990/91 para o Arsenal, e Souness adotou uma postura agressiva no mercado. Não estava errado no diagnóstico de que uma renovação era necessária. O elenco estava envelhecido. Nomes como Ronnie Whelan, Steve Nicol, Ian Rush e Bruce Grobbelaar aproximavam-se do momento de considerar uma nova carreira. O problema foi na hora de decidir qual jogador iria embora e qual seria contratado, e esses eram erros que o Liverpool não costumava cometer.

“Era um grande trunfo do Liverpool acertar as grandes decisões”, continua Molby. “Eles vendiam jogadores cinco minutos antes do tempo deles chegar ao fim”. No entanto, atletas que ainda seriam úteis por mais alguns anos em outros lugares foram despachados sem muita cerimônia. Peter Beardsley, contratado por ninguém menos do que o Everton, foi o melhor exemplo. E na plataforma de embarque, Souness também cometeu muitos erros de recrutamento.

“Não acho que havia algo de errado no pensamento de Souness. Para manter o fogo vivo, ele sentia que precisava fazer algo. Mas o fez de uma maneira que ele olha para trás agora e sabe que foi errada. O principal não foi os jogadores que ele dispensou, mas os que ele comprou. Foram os jogadores que contratamos que nos mataram no fim”, disse Molby.

“Não achávamos que havia acabado quando o Arsenal venceu a liga em 1991, mas, quando o recrutamento não é o que costumava ser, o momento se arrasta e você começa a pensar que precisa de uma reconstrução. E quando havia sido a última vez que o grande Liverpool precisou de uma reconstrução?”, completa. E foi no final da década de sessenta, quando Shankly finalmente aceitou que o seu primeiro time, o que havia tirado o Liverpool da segunda divisão, conquistado a liga duas vezes e a primeira Copa da Inglaterra da história do clube, precisava ser renovado.

Um dos jogadores contratados nesse processo foi Kevin Keegan, que defendeu o Liverpool por seis anos, fez gols decisivos, ganhou três ligas e uma Copa dos Campeões. Com o dinheiro da venda ao Hamburgo, Kenny Dalglish foi trazido do Celtic. As £ 33 mil pagas ao Scunthorpe United em 1971 transformaram-se em dois craques que marcaram duas décadas de conquistas dos Reds. Souness não precisava ter feito negócios tão bons assim, mas poderia pelo menos ter chegado um pouco mais perto.

Era o pior momento para errar porque o futebol inglês começava a passar por uma transformação que o tornaria o mais rico do mundo, com a fundação da Premier League e polpudos contratos de televisão. Clubes como Arsenal e Manchester United aproveitaram essa injeção de dinheiro para estabelecer bases para o futuro, enquanto o Liverpool a usou para trocar jogadores envelhecidos por jogadores inferiores.

Em 1991/92, o Liverpool de Souness gastou aproximadamente € 9 milhões em Dean Saunders, Mark Wright, Mark Walters, István Kozma, Rob Jones, Lee Jones, Scott Paterson e Michael Thomas. Você não precisa saber quem eles foram, quase ninguém sabe, apenas que, naquela mesma temporada, o Manchester United pagou € 750 mil em Peter Schmeichel. Na seguinte, o Liverpool desembolsou € 4,1 milhões em Paul Stewart e David James. O United, € 1,8 milhão em Eric Cantona. Quer mais uma? Em 1993/94, Neil Ruddock, Nigel Clough e Julian Dicks custaram € 8 milhões aos cofres de Anfield, mais ou menos o que Ferguson liberou por Roy Keane.

A repentina riqueza inglesa também mudou as relações de vestiários. Os jogadores, especialmente os mais velhos, não quiseram perder a chance de um último grande contrato. Cobranças por maiores salários tornaram-se comuns. Os métodos de administração de egos e vaidades dos tempos em que Souness era jogador em Anfield naturalmente não funcionavam mais. Conceitos de camaradagem e auto-regulação que foram pilares dos 20 anos de sucesso haviam ruído. E como Souness não tinha a personalidade mais fácil do mundo, o problema se agravou.

No momento em que outros clubes aproveitam o aumento de receitas para se fortalecerem, o Liverpool se enfraquecia gastando muito e errado, com um treinador que reconhecidamente não soube lidar com tantas mudanças ao mesmo tempo e ainda não contou com a sorte porque John Barnes sofreu uma séria lesão no Tendão de Aquiles e ele próprio precisou passar por cirurgia no coração. “Se eu pudesse começar a ser treinador novamente, eu seria diferente. Seria menos agressivo, menos abrupto, menos exigente. No fim da minha carreira (em 2006), percebi que nem todo mundo poderia ter a mesma atitude que eu tinha em relação ao jogo. Algumas pessoas são um pouco mais relaxadas”, diria, anos depois.

“O futebol estava mudando e, como um clube de futebol, nós fomos muito lentos para segui-lo”, complementa Molby. “Ainda estávamos nos segurando ao que havia dado certo nos anos setenta e oitenta, enquanto o futebol ao nosso redor acelerava para uma nova era. Quando aquele trem partiu, nós não estávamos nele. E demorou muito para o alcançarmos. Para começar, não percebemos que tínhamos um problema. Pensávamos que era apenas um percalço e que as coisas eventualmente se encaixariam”.

Tanto que quando Souness foi embora, em 1994, o Liverpool deu sua última cartada com a linhagem de treinadores preparados pela Boot Room, a sala de chuteiras onde a comissão técnica costumava discutir assuntos relacionados ao time e aos adversários que ganhou ares místicos e, simbolicamente, foi destruída durante a passagem de Souness. Roy Evans, ex-jogador de pouco sucesso, havia integrado a equipe de Paisley no início da década de setenta e não hesitou em aceitar o cargo de treinador. E não fez feio. O Liverpool voltou às primeiras posições da tabela, após dois sextos lugares e um oitavo, e chegou até a brigar pelo título em 1995/96.

No entanto, no que Souness era muito bravo, Evans era bonzinho demais, e os jogadores popstars proliferavam. Ele teve que lidar com um grupo particularmente animado com Robbie Fowler, Jamie Redknapp e Steve McManaman, os poucos bons legados de seu antecessor, batizados de Spice Boys pelo estilo de vida chamativo fora de campo e que não poderia ser mais diferente ao que Evans estava acostumado. Não que os jogadores daquela época fossem santos. O próprio Souness não ganhou o apelido de “Champagne Charlie” porque gostava de beber leite. Mas tanta badalação e atenção da imprensa eram novidades. Para se ter uma ideia, Keegan fazendo comerciais nos anos setenta já havia sido uma quebra de paradigma. Havia no geral uma aura mais austera e pés no chão que foi abruptamente modificada nos anos noventa.

O exemplo final de como o Liverpool havia perdido o rumo é que alguém no clube que nunca havia ouvido a expressão “cachorro que tem dois donos morre de fome” decidiu contratar Gérard Houllier para ser o co-treinador da equipe ao lado de Evans, no começo da temporada 1998/99. “Em resumo, os jogadores não sabiam o que estava acontecendo”, afirmou Evans. “O clube nunca iria demitir Gérard assim que o contratou, então eu renunciei, pensando no melhor para o clube”.

Passada a confusão inicial, o Liverpool estancou a sangria com Houllier. Começou a contratar um pouco melhor (mas não muito) e a prestar atenção em talentos além da ilha. Jovens como Michael Owen e Steven Gerrard começaram a brilhar e a passar esperança. O treinador francês conduziu boas temporadas, como a de 2000/01 com três títulos de copas, mas era tarde demais. Enquanto tentava desvendar o novo futebol inglês que surgia, compreensivelmente apegado aos conceitos do passado que haviam dado tão certo, foi relegado à terceira força do país – e o contexto estava prestes a ficar pior para o Liverpool.

Evasão de talentos

Michael Owen comemora com Steven Gerrard em jogo do Liverpool (Getty Images)

O Liverpool poucas vezes precisou lidar com jogadores forçando a barra para serem transferidos. O mercado não era tão globalizado, o que restringia a concorrência à Inglaterra, onde ele reinou durante 20 anos como o melhor time do país. Acostumou-se a ver seus principais nomes superando os 400 jogos e, quando decidia vender, era normalmente em seus próprios termos. Foi assim até com Keegan, que manifestou o desejo de trocar de país em 1976 e acabou ficando mais um ano enquanto o clube mapeava as possibilidades de reposição – e encontrou Kenny Dalglish. Ian Rush foi um raro caso em que o clube sucumbiu ao poderio financeiro de uma liga italiana que contratava todo mundo e, ainda sim, era um momento circunstancial de fraqueza pela exclusão das competições europeias de toda a Inglaterra como punição por Heysel. E ele acabou voltando um ano depois. O panorama no começo do século era muito diferente.

A começar que o Liverpool não era mais a principal força do país. Na melhor das hipóteses, era o terceiro, atrás de Manchester United e Arsenal, e foi empurrado para trás duas vezes seguidas pelo Chelsea antes mesmo de Roman Abramovich comprá-lo. Quando o dinheiro russo começou a jorrar no oeste de Londres, foi ultrapassado de vez. Não era uma hierarquia rígida e algumas vezes Rafa Benítez conseguiu levá-lo à frente de um Arsenal que também entrava em certa decadência e estava com as finanças comprometidas com a construção do Emirates.

Ao mesmo tempo, porém, o mercado se inflacionou de uma maneira que um clube saudável financeiramente como o Liverpool, mas não excepcionalmente rico, não conseguia mais competir em salários e taxas de transferência. A concorrência agora era global. Equipes como Barcelona e Real Madrid tornaram-se potências e buscavam reforços em outros países. Além disso, paciência virou uma palavra obsoleta. Os principais jogadores passaram a adotar o discurso de que suas carreiras são curtas, que precisam brigar por títulos e jogar a Champions League todos os anos. Os clubes que não estivessem equipados para oferecer isso com segurança corriam o risco de precisar vender suas principais estrelas e, sendo um deles, o Liverpool passou 15 anos precisando lidar com esta uma nova realidade: nem todo mundo queria defendê-lo para sempre.

O primeiro caso célebre foi Michael Owen, cria da casa, futuro do futebol inglês, vencedor da Bola de Ouro. A ideia do Liverpool era construir um time em torno dele e Steven Gerrard, mas o Real Madrid bateu à sua porta e o poder de atração dos Galacticos, de jogar ao lado de Zidane, Ronaldo, Beckham, Raúl e Figo, foi forte demais para o garoto. E mesmo parecendo uma transferência óbvia naquele momento, Owen sofreu para decidir.

“A última coisa que eu pensava era que eu deixaria o Liverpool. Eventualmente, eu concordei, mas sabe quando você assina algo e pensa que não há mais volta? Eu me lembro de ter chorado e chegado ao aeroporto pensando ‘o que estou deixando para trás?’. Eu simplesmente tinha um sentimento muito forte sobre isso. Pensava que se fosse, já havia jogado muito pelo Liverpool e sempre poderia voltar. Eu tinha que ir e tentar. Os Galacticos, aquele uniforme branco, o estádio maravilhoso, uma cultura diferente”, contou Owen à revista FourFourTwo.

A saída de Owen quase precipitou também a da Gerrard. No documentário Make Us Dream que relata a trajetória do capitão vermelho, Gerrard deixa claro um pouco de ressentimento porque a expectativa era que ambos, juntos, reerguessem o Liverpool. De repente, ele estava sozinho, precisando lidar com a pressão de uma torcida muito intensa e que ama demais aquele clube, o que é ótimo nos bons momentos e pode ser sufocante nos ruins. Foi um dos elementos que pesou, junto com a relação fria que teve com Rafa Benítez, no momento em que Gerrard mais ficou próximo de deixar o Liverpool, depois do Milagre de Istambul.

O Liverpool não voltou a ser potência com Benítez, mas teve uma sequência de ótimas campanhas na Champions League, com duas finais e um título, e até conseguiu brigar pela Premier League, mas, no fim da década, houve mais saídas com as quais precisou lidar, a começar pela de Xabi Alonso para o Real Madrid, que não teve tanto a ver com a estatura do clube e mais com uma relação conturbada com Benítez.

Segundo Alonso, o estopim de sua saída foi a perseguição meio insana de Benítez por Gareth Barry, então no Aston Villa, para substituí-lo. O treinador espanhol explicaria que estava preocupado com a regra que exigia um mínimo de jogadores formados no país, e Barry era inglês e atuava em diversas posições. Alonso também teve uma queda de desempenho, mas, considerando a bola que jogou depois por Real Madrid e Bayern de Munique, talvez fosse melhor esperar um pouco, até porque Barry acabou jogando pelo Manchester City.

E se você acha que a decisão de Benítez não foi muito inteligente, você ainda está sendo mais gentil com o espanhol do que Gerrard. “Benítez que foi tão esperto em comprá-lo foi igualmente estúpido em vendê-lo para o Real Madrid cinco anos depois”, escreveu em sua autobiografia. “Ele é de longe o melhor meia com o qual joguei. Foi uma decisão desastrosa vender Alonso, especialmente por apenas £ 30 milhões. Eu culpo Rafa inteiramente pela perda de Alonso. Ele poderia ter jogado pelo Liverpool por mais seis ou sete anos além de 2009”.

Provavelmente não. O Liverpool teve uma péssima temporada seguinte dentro de campo, terminando apenas em sétimo lugar. Benítez, que já vinha de longas trocas de farpas com os novos donos Tom Hicks e George Gillett, foi embora. A ausência da Champions League levou a novas saídas, primeiro de Javier Mascherano e depois de Fernando Torres. E como dizem, a história primeiro se repete como tragédia. Mais uma vez, o Liverpool reinvestiu muito mal o dinheiro que tinha à disposição. Para o lugar de Alonso, por exemplo, trouxe Alberto Aquilani, da Roma, em um mercado no qual a maior compra foi Glen Johnson, por € 20 milhões. Mascherano foi transformado em Raul Meireles e Christian Poulsen. Torres virou Andy Carroll, embora também tenha ajudado a trazer Luis Suárez.

Agora como farsa, a decisão de trocar Benítez por Roy Hodgson foi desastrosa e, pelo menos, durou poucos meses. Kenny Dalglish, então diretor, saiu da aposentadoria para um breve e moderadamente razoável novo período como treinador do Liverpool, mas os novos donos, agora John Henry, proprietário do Boston Red Sox, queriam mais modernidade e o trocaram por Brendan Rodgers.

Bom acertador de times, Rodgers fez com que o Liverpool brigasse a sério pelo título em 2013/14, misturando a experiência de Gerrard, a contundência de Suárez e as juventudes de Sterling e Coutinho. A quebra do jejum ficou muito próxima, mas Gerrard escorregou, o Liverpool perdeu do Chelsea, depois deixou o Crystal Palace empatar uma partida ganha e teve que ver o City tirar o doce de sua boca.

As especulações de que Suárez seria o próximo a ir embora foram grandes antes do início daquela temporada. O principal candidato era o Arsenal, que se propunha a pagar a curiosa cláusula de £ 40 milhões + £ 1, que no fim não servia para rescindir o contrato de Suárez, apenas para abrir negociações. O uruguaio foi convencido por Gerrard a ficar mais um ano. Suas atuações naquela campanha, porém, foram tão excepcionais que não dava mais para segurá-lo, e o Barcelona o levou por aproximadamente £ 75 milhões que – de novo – viraram um pacote de jogadores que até trouxe alguns nomes que se tornaram úteis (Can, Lallana, Lovren e Origi), mas outros como Lambert, Markovic e Alberto Moreno, além de Balotelli, reposição imediata a Suárez enquanto Rodgers queria Alexis Sánchez.

Um ano depois, foi a vez de Raheem Sterling pedir para sair, outra cria da casa que sentiu a necessidade de trocar de clubes porque sentia sua carreira estagnada. O Manchester City apareceu com £ 50 milhões, muitas das quais viraram Christian Benteke, mantendo esse hábito do Liverpool de reinvestir muito mal o dinheiro das suas vendas, o que sem dúvida o atrapalhou bastante ao longo desses 30 anos.

E mudou com a chegada de Jürgen Klopp. Com certeza todos esses casos apareceram nas mentes dos torcedores do Liverpool quando Philippe Coutinho pediu para sair ao Barcelona. E embora não tenha sido ideal que a transferência ocorresse no meio da temporada, o clube pelo menos conseguiu segurá-lo por mais seis meses e forçou uma taxa de transferências vultuosa que, desta vez, serviu para contratar Van Dijk naquela mesma janela e Alisson na seguinte. Uma troca muito melhor.

Donos atrapalhados

John Henry, dono do Liverpool (Foto: Getty Images)

O lendário presidente John Smith, responsável por supervisionar as décadas de setenta e oitenta, passou as rédeas do Liverpool para David Moores em 1991, no momento em que começou o declínio do clube. Quando Abramovich comprou o Chelsea, Moores percebeu que o futebol estava mudando e que não poderia mais competir financeirmente. Começou a procurar novos donos para vender os Reds. Ele os encontrou em 2007: os americanos Tom Hicks e George Gillett.

Moores contou que o processo demorou porque ele se empenhou para encontrar a pessoa certa para o Liverpool, que fez as “perguntas difíceis”, porque queria estar seguro que deixaria o clube em boas mãos. Falhou tanto nessa empreitada que essas declarações foram publicadas em uma carta aberta, três anos depois, em que pedia que Hicks e Gillett “parassem de punir os torcedores”. Àquela altura, fora da Champions League, as dívidas estavam na casa das £ 282 milhões. Benítez estava prestes a ir embora, depois de sérias discussões com os americanos. Os bons resultados dos anos anteriores foram conquistados apesar deles e os méritos de ter montado um bom time são bem reduzidos pelo fato de que ele estava sendo dizimado. Ou “construído por Shankly, destruído pelos ianques” como diziam faixas nas arquibancadas de Anfield naquela época.

A maioria das dívidas era com o Banco Real da Escócia que perdeu a paciência e nomeou um diretor interino para tocar a transição. Hicks e Gillett ainda tentaram manobras para manter o controle do clube, mas, em outubro de 2010, perderam a briga, a New England Sports Venture assumiu o controle o Liverpool, com a experiência esportiva de ter quebrado o jejum de títulos do Boston Red Soxs no beisebol americano.

Acontece que nem tudo que funciona no beisebol funciona no futebol. O Red Sox conseguiu montar um time vencedor usando a estratégia do Moneyball, política de recrutamento que olha mais para números e estatísticas do que fama e intuição que havia levado o Oakland Athletics a uma campanha histórica anos antes. Os números também são importantes no futebol, mas precisam ser bem aplicados. No Liverpool, foram usados para contratar Stewart Downing, Charlie Adam e Jordan Henderson, o único que deu certo – e ainda assim, quase foi trocado por Clint Dempsey.

Eventualmente, os donos pegaram o jeito do futebol e melhoraram as suas contratações. Reforços como Daniel Sturridge e Philippe Coutinho foram grandes sacadas. Mas raras. Como relatado acima, houve mais erros do que acertos no mercado de transferências, além do famoso comitê, em que Rodgers tinha a palavra final na chegada de jogadores, mas muitas vezes precisava convencer os outros membros ou escolher de uma lista em que constavam apenas a terceira ou a quarta opção para cada posição. Como exemplo, queria Sánchez para o lugar de Suárez e precisou decidir entre Balotelli e Eto’o. Queria Ryan Bertrand e Ashley Williams, mas o clube insistia em jovens e empurrou Alberto Moreno e Dejan Lovren.

Difícil saber se, sozinhos, eles eventualmente conseguiriam formar um time campeão no Liverpool com os métodos que haviam colocado em prática. A chegada de Jürgen Klopp nos impede de ter a resposta. O alemão trouxe consigo uma filosofia que permeia todas as decisões do futebol. Há diálogo e colaboração, mas tudo acaba passando por ele. E, como depois de toda essa jornada, a única coisa que ficou entre o Liverpool e o título inglês foi uma pandemia, não dá dizer que o clube não está, finalmente, em boas mãos.

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