Sempre que se lê algo em inglês sobre o país que tem como capital mais conhecida Amsterdã (embora Haia seja a sede da Coroa representada pelo rei Willem-Alexander), há dois nomes usados para representá-lo: “Netherlands”, mais comum, e “Holland”, um pouco mais raro, pelo menos em outros países. Já aqui no Brasil, é diferente: sempre que se fala da seleção conhecida como “Laranja”, o nome massivo é “Holanda”, mas sempre há uma ou outra pessoa que reclama disso, apontando corretamente que o nome oficial da nação dos tamancos de madeira e do queijo Gouda é Países Baixos, e que Holanda nomeia apenas duas das 12 províncias de seu território. O governo holandês sabe dessa alternância. E pretende acabar com ela – desde outubro, quando lançou um projeto para que “Netherlands” (em português, “Países Baixos”) seja o único nome pelo qual ela é conhecida no exterior. Será difícil. Ainda mais por causa do futebol.

As razões da mudança

Justiça seja feita: a mudança tem lá suas razões de ser. A primeira delas é sociogeográfica: as províncias de Holanda do Norte e Holanda do Sul são das mais conhecidas e economicamente fortes do país – quando nada, porque nelas estão cidades como Amsterdã, Alkmaar e Volendam, locais de turismo considerável (norte) e Leiden, forte centro universitário (sul). Já era assim na Idade Média, quando, aí sim, a Holanda era uma entidade geográfica oficialmente constituída. O nome e o Reino dos Países Baixos só surgiram em 1815, quando as províncias se uniram tão logo as tropas de Napoleão Bonaparte caíram, na Batalha de Waterloo.

A partir disso, por serem mais faladas e terem mais poder, Holanda do Norte e Holanda do Sul acabam causando certo desapontamento em outras províncias dos Países Baixos, menos mencionadas e levadas em consideração na exposição do país para o mundo – para nem falar da menor importância econômica que têm. Com isso, Holanda do Norte e Holanda do Sul ganharam fama de “arrogantes” para os próprios holandeses. Algo semelhante até ao que ocorre no Brasil, com o duo Rio de Janeiro-São Paulo.

De turismo e economia, aliás, decorre a próxima razão. Se Amsterdã é a cidade mais conhecida do país, verdadeiro estereótipo do que seria a Holanda/seriam os Países Baixos para o mundo, não é menos verdade que muita gente (e muitas empresas) se incomoda que se pense que a nação de 41.543 km² e cerca de 17 milhões de habitantes seja um imenso Distrito da Luz Vermelha, ou que todo holandês seja adepto da liberação de drogas que fez Amsterdã tão conhecida – embora mesmo esta liberação esteja sob forte debate.

Na verdade, a própria prefeitura de Amsterdã se preocupa com isso: nos últimos anos, de tão grande, a afluência de turistas tem sido considerada “insustentável” para uma cidade de 862.965 habitantes. Com o crescimento previsto nas visitas de estrangeiros à nação – foram 18 milhões de turistas em 2018, fala-se em 42 milhões de turistas na Holanda em 2030 -, a intenção é mostrar que os Países Baixos são Roterdã, Utrecht (em Portugal, Utreque), Haia, Volendam, Marken, Katwijk… não somente Amsterdã.

O governo neeerlandês, o ministério do turismo e as fortes empresas multinacionais do país (só para exemplificar: Unilever e Philips têm sede nos Países Baixos) se valeram desses fatores para assinarem um acordo de relações públicas. Segundo o compromisso, tudo se fará para que “Netherlands” (lusofonicamente, “Países Baixos”) seja o único nome pelo qual a nação incrustada entre Bélgica e Alemanha seja conhecida no mundo – um processo conhecido no jargão publicitário como “rebranding”, como uma “remontagem de marca”.

No anúncio do acordo, feito no começo de outubro, uma porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores deixou clara essa intenção de provar que os Países Baixos não são somente Amsterdã: “Foi resolvido que Países Baixos, o nome oficial de nosso país, deve ser preferencialmente usado. O que é especial é o fato deste acordo ter sido feito agora com partes importantes do governo, do Núcleo Holandês de Convenções e Turismo e de organizações privadas – incluindo setores fortes, bem como a Confederação das Indústrias e das Empresas dos Países Baixos – sobre a imagem neerlandesa que desejamos apresentar ao resto do mundo, de uma maneira definitiva, sem ambiguidades. Queremos apresentar os Países Baixos como uma nação aberta, inventiva e inclusiva. Modernizamos nossa abordagem”.

Faz sentido. Até porque, apesar dos pesares, a economia dos Países Baixos vai momentaneamente bem, sem riscos de recessão. Além do mais, a nação sediará um evento culturalmente marcante na Europa, em 2020: após o cantor Duncan Lawrence levar para o país o título do Eurovision, o tradicional festival continental de canções, encerrando 44 anos de jejum em 2019, Roterdã será o local das apresentações no ano que vem. Poucas ocasiões são tão apetitosas para o mercado saber que há os Países Baixos, não a Holanda. E Carolien Gehrels, da empresa de consultoria Arcadis, assumiu isso ao site Dutch News: “Três dias e 180 milhões de espectadores são uma oportunidade fantástica para comunicação e marketing”.

Por que será difícil?

Quando o próprio departamento responsável por um assunto trabalha contra esse assunto, qualquer intenção sofre um atraso pouco desejado. É o que ocorrerá nos Países Baixos: ainda neste 2019, todo o material produzido para o exterior pelo Ministério do Turismo ainda usa o nome “Holland”, com direito à tulipa, um dos grandes símbolos holandeses, como logotipo. Os Países Baixos já anunciaram que correrão para a resolução disso. Inclusive no esporte: a intenção é de que toda a divulgação do Comitê Olímpico Holandês durante os Jogos de Tóquio já traga “Netherlands” como nome uniformizado no material. Mas já é um retardamento de intenção.

Em peças publicitárias, ainda é mais fácil. Difícil será tirar da cabeça das pessoas um nome tão enraizado como “Holanda”. E aí é que o futebol entra em cena. A própria torcida do país grita “Holland!” nas partidas de suas seleções, sejam masculinas e femininas. Bom exemplo disso já foi no Mundial Sub-17, no Brasil. Nos anúncios oficiais da FIFA dentro dos jogos, “Netherlands” ou “Países Baixos” eram os nomes proferidos pelo locutor; na hora de torcer durante os noventa minutos, os simpatizantes da Laranja (muitos, familiares dos jogadores) não se prendiam a questões publicitárias e seguiam com “Holland!”. Deverá continuar sendo assim.

Além do mais, se só mudar o nome no imaginário coletivo já será tarefa árdua, muito mais difícil seria mudar outras coisas. Tanto que o próprio acordo já reconheceu: o nome desejado será Países Baixos, mas a bandeira deles, com vermelho-branco-azul na horizontal, seguirá de lado na divulgação do país – a velha cor laranja da família real seguirá como símbolo massivo na publicidade. Ai de quem tentasse mudar isso no futebol: afinal, como ignorar que a camisa laranja é um ícone da cultura pop holandesa, vendida na versão oficial ou na pirata, em qualquer loja de suvenir digna do nome?

Assim como é difícil ignorar que se Amsterdã (na província de Holanda do Norte, vale lembrar) tem realmente um ar arrogante para os próprios holandeses, o Ajax é o clube do país que chama mais a atenção mundo afora, por toda sua cultura – e não é uma simples decisão publicitária que mudará isso, mas resultados em campo. Resultados que, hoje, parecem muito mais a favor do clube da Johan Cruyff Arena do que do PSV (de Eindhoven, na província de Brabant do Norte) ou do Feyenoord (de Roterdã, na província de Holanda do Sul). Se o Ajax estiver forte, Amsterdã será mais falada. E se Amsterdã for mais falada… Holanda será o nome mais falado.

A República Tcheca foi outro país desejando mudar sua imagem para o mundo, pedindo que fosse chamada “Tchéquia”. É justo. Mas é batalha praticamente perdida. Assim como esta travada pelos Países Baixos: é o nome oficial do país, e deve ser citado sempre que possível, até como sinal de respeito pelo desejo dos nativos. Mas muito por causa do futebol, o leitor continuará vendo o narrador da televisão – qualquer que seja ele – gritar ao ver Memphis Depay ou Georginio Wijnaldum ou até Virgil van Dijk balançar as redes: “Gol da Holanda!”.