Estádios são como templos para o torcedor. Por isso se pede tanto tradição, história. Quanto mais craques passaram por lá, melhor. Quanto mais títulos foram decididos lá, melhor. A Amsterdam Arena não tem nada disso. Foi inaugurada em 1996 como o estádio mais moderno da Europa, mas não pegou nenhuma grande fase do Ajax e só abrigou uma final continental. O que não apaga o papel histórico do principal estádio da Holanda.

A Amsterdam Arena, observada com olhos de 2013, parece arquitetonicamente pesada, muito austera e conservadora. Não tem a leveza do Aviva/Lansdowne Road ou do Emirates, a ousadia do Ninho de Pássaro ou do Municipal de Braga e uma marca registrada como o arco de Wembley ou a fachada da Allianz Arena. Pensando bem, é bem sem graça por fora. Por dentro, é moderníssima, mas não mais que dezenas de estádios cinco estrelas que pipocam pelo mundo hoje.

O que faz da casa do Ajax um lugar especial é seu momento. Sua concepção se tornou parâmetro para uma série de mega-arenas modernas que foram construídas nos últimos 15 anos. Se tornou o ponto de referência para quem quisesse algo funcional, confortável, caloroso e grande.

O futebol europeu não resolvia esse problema. Os grandes estádios tinham até seu conforto, mas muitos eram apenas reformas e ampliações de construções bastante antigas. É o caso de Old Trafford, San Siro, Santiago Bernabéu, Westfalen/Signal Iduna Park e Camp Nou. Estádios grandes e novos eram afastados do centro por questões econômicas (normalmente terrenos mais baratos para caber tanto estacionamento, já que muita gente teria de ir de carro) e arquitetonicamente frios e pouco receptivo aos torcedores.

Nos 20 anos anteriores à inauguração da Amsterdam Arena, apenas três estádios foram construídos do zero na Europa com capacidade para mais de 50 mil torcedores nos padrões de conforto de hoje: Olímpico Spiros Louis (Atenas, 1982). Delle Alpi (Turim, 1990) e San Nicola (Bari, 1990). O primeiro teve de passar por reformas profundas para receber os Jogos Olímpicos de 2004, o segundo foi demolido e o terceiro se transformou em um grande elefante branco no sul da Itália.

Os holandeses resolveram isso. Souberam adaptar o projeto inicial da Amsterdam Arena (seria o estádio Olímpico de 1992 caso a capital da Holanda vencesse Barcelona na disputa pela sede) e perceber que a pista de atletismo não faria sentido. Aproximaram o público do gramado, mantendo uma atmosfera calorosa entre torcida e gramado dentro do que se pode esperar de um lugar tão grande.

Amsterdam Arena

Além disso, estabeleceram sistemas eficientes de integração de carros e transporte público, mostrando que não era necessário um latifúndio de estacionamento para dar conforto a mais de 50 mil pessoas em um estádio fora do centro. E, ao criar uma empresa apenas para o gerenciamento da arena (também chamada Amsterdam Arena), transformou um estádio de futebol em estrutura para diversos tipos de evento que viabilizaram os cerca de € 140 milhões da obra.

Em um esporte que virava cada vez mais um negócio, a Amsterdam Arena mostrou qual o caminho para que o estádio fosse mais uma fonte de renda. Mesmo sem uma ligação histórica com o torcedor e tendo de dar retorno aos enormes custos de uma construção inteira.

Em relação a grandes competições, a Arena recebeu a final da Liga dos Campeões de 1997/98 (Real Madrid 1×0 Juventus) e cinco jogos da Eurocopa de 2000, incluindo a estreia da Holanda (1 a 0 sobre a República Tcheca) e uma das semifinais (Holanda 0x0 Itália). Até hoje muitos não entendem como Roterdã foi escolhida como sede da final. Na época, políticos da capital holandesa insinuaram que a preferência escolha teria sido pautada por fatores “externos”.

Mas receber a final da Euro 2000 não atrapalhou o legado da Amsterdam Arena. Após sua inauguração, houve um boom de estádios modernos e grandes no futebol europeu, muitos deles tendo a casa do Ajax como parâmetro de conforto, funcionalidade e negócios. É só ver como cresceu a quantidade de estádios novos ou refeitos do zero para mais de 50 mil torcedores na Europa. Houve apenas três nos 20 anos anteriores à Amsterdam Arena. Nos 17 anos seguintes, foram 26:

– Luzhiniki (Moscou/RUS, 1997)
– Stade de France (Saint-Denis/FRA, 1998)
– Volkspark (atual Imtech, Hamburgo/ALE, 1998)
– Millenium (Cardiff/GAL, 1999)
– Arena Auf Schalke (atual Veltins, Gelsenkirchen/ALE, 2001)
– Olímpico Atatürk (Istambul/TUR, 2001)
– José de Alvalade (Lisboa/POR, 2003)
– Do Dragão (Porto/POR, 2003)
– Da Luz (Lisboa/POR, 2003)
– Rhein Energie (Colônia/ALE, 2004)
– Borussia-Park (Mönchengladbach/ALE, 2004)
– Esprit Arena (Dusseldorf/ALE, 2004)
– Gottlieb-Daimler (atual Mercedes-Benz, Stuttgart/ALE, 2005)
– Allianz Arena (Munique/ALE, 2005)
– Commerzbank Arena (Frankfurt/ALE, 2005)
– Sükrü Saraçoglü (Istambul/TUR, 2006)
– Emirates (Londres/ING, 2006)
– Wembley (Londres/ING, 2007)
– Donbass (Donetsk/UCR, 2009)
– Aviva (Dublin/IRL, 2010)
– Türk Telekom (Istambul/TUR, 2011)
– Arena Nationala (Bucareste/ROM, 2011)
– Naradowy (Varsóvia/POL, 2011)
– Lille-Métropole (Lille/FRA, 2012)
– Friends Arena (Estocolmo/SUE, 2012)
– Olímpico (Londres/ING, 2012)

Muitos desses estádios, e muitos outros antigos que foram remodelados recentemente, são mais bonitos e modernos que a Amsterdam Arena. Mas, sem o estádio holandês, todo esse processo talvez demorasse mais para ocorrer. Um mérito inegável dos responsáveis da arena do Ajax, e que a deixa como uma das mais importantes do futebol moderno.