O Everton fez um bom mercado de transferências. Foram contratações por um valor razoável e em posições que podem ser muito úteis ao time de Ronald Koeman. Chegaram reforços excelentes: o zagueiro Michael Kane (€ 28,5 milhões), o goleiro Jordan Pickford (€ 28,5 milhões), Davy Klaasen (€ 27 milhões), Henry Onyekuru (€ 8 milhões), Sandro Ramírez (€ 6 milhões) e Wayne Rooney (de graça, sem contrato). Até esta quarta-feira, 16 de agosto. O Everton confirmou a contratação mais cara da sua história: Gylfi Sigurdsson, 27 anos, que chega do Swansea por € 49,4 milhões. Uma contratação importante e que chega com uma etiqueta de preço alta.

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É perfeitamente compreensível que o Swansea peça esse preço tão alto por Sigurdsson. O islandês se tornou crucial para a equipe galesa escapar do rebaixamento na temporada passada. Paul Clement, técnico dos Swans, não queria perder o seu principal meia ofensivo. Pediu alto. O Everton tinha o dinheiro em mãos. Queria o jogador. Acabou chegando ao preço. E um preço alto. A questão, então é essa: ele vale esse preço todo?

Primeiro é importante fazer um preâmbulo sobre o mercado. Quem tem dinheiro e não quer vender – caso da maioria dos times ingleses – pede valores altos por seus jogadores. E vale para todos os times da Premier League, como o Swansea. Sigurdsson tinha contrato, era um jogador crucial do time e, por isso, o pedido foi alto. A ideia, quando se pede assim é não vender. E se vender, que seja por um valor que dê para buscar reforços. É o que tem acontecido em diversas negociações que foram altas nesta janela.

Se você não precisa do dinheiro e não está disposto a vender, pede um valor alto. Quem quer comprar precisa avaliar se acha que vale a pena. Muitos acharam que vale, como o Paris Saint-Germain com Neymar (€ 222 milhões), o Manchester United com Romelu Lukaku (€ 84,7 milhões), o Chelsea com Álvaro Morata (€ 65 milhões), o Manchester City com Benjamin Mendy (€ 57,5 milhões) e Kyle Walker (€ 51 milhões), o Arsenal com Alexandre Lacazette (€ 53 milhões) e por aí vai.

Qual é a diferença desses todos para Sigurdsson, que entra no top 10 de contratações mais caras da janela? Sigurdsson tem 27 anos. Completará 28 em setembro. O Everton, portanto, sabe exatamente o que esperar do islandês. Não é um jogador de potencial para o futuro. É uma contratação de um jogador do presente. E não é um jogador do mais alto nível mundial. Sim, alguns da lista também não são, como Kyle Walker, por exemplo, mas ao menos o jogador é um dos melhores da sua posição na liga. Não é o caso de Sigurdsson, que é um bom jogador, mas não está entre os melhores da sua posição. O islandês tem uma qualidade muito forte: as cobranças de falta. Sejam diretas, sejam para levanta a bola na área, ele é excelente. E esta, talvez, seja a única qualidade na qual o jogador é acima da média.

Foram 13 passes para gol de Sigurdsson na última Premier League, um número bastante alto. Destes, só cinco vieram com bola rolando. Sim, a maioria é em cobranças de falta. Uma ótima característica para um time como o Swansea, que luta por pontos desesperadamente em busca de escapar do rebaixamento. O Everton está em um patamar acima no momento e quer ir além. Buscar vaga europeia. Incomodar os times que ficam entre os seis melhores.

Sigurdsson serve como uma reposição prévia para a iminente saída de Ross Barkley. O meia, de 23 anos, tem contrato só até o fim da temporada, em junho de 2018, e como não quis renovar o vínculo, já foi afastado pelo técnico e deve ser vendido (ainda que não tenham pintado propostas como o esperado). Para a mesma posição, há também o meia Davy Klaassen, que joga nessa posição e é bastante bom – além de ser mais novo, com 24 anos.

O meia islandês formou uma combinação letal com Fernando Llorente, camisa 9 do Swansea. É um típico centroavante, alto, forte e bom cabeceador. O problema é que o Everton não tem mais um jogador assim. Tinha, é verdade. Lukaku deixou o clube para se juntar ao Manchester United. Nenhum dos atacante contratados pelo clube de Goodison Park tem como ponto forte a bola aérea: Wayne Rooney, Sandro Ramírez e mesmo Klaassen, que pode jogar adiantado. Ou seja: essa não deve ser uma arma tão forte, embora seja o ponto mais positivo de Sigurdsson.

Se pensarmos em chances criadas, a contratação de Sigurdsson se justifica ainda menos. Ross Barkley criou 56 chances de gol na última temporada, 2016/17; Davy Klaassen, no Campeonato Holandês, teve o mesmo número. Leighton Baines, como lateral, criou 37. Kevin Mirallas, belga que nem sempre foi titular, criou 29. Wayne Rooney, que atuou pouco pelo Manchester United, cruou 29. Gareth Barry e Idrissa Gueye, volantes que têm funções mais defensivas que ofensivas, criaram 25 chances. Sandro Ramírez, pelo Málaga no Campeonato Espanhol, também criou 25. Sigurdsson criou apenas 20 na última temporada. Um número muito baixo para quem é um meia ofensivo que tem como principal função justamente criar jogadas.

Custando tão caro, o Everton dá a impressão que não fez muita questão de buscar alternativas de meias ofensivos que possam compor o elenco sem custar essa grana toda que, em moeda britânica, soa ainda mais absurdo: £ 45 milhões. Ainda que Sigurdsson traga experiência de Premier League, há opções no mercado que certamente custariam menos em outras ligas, como o próprio Everton conseguiu em Klaassen. Sigurdsson pode até ser um jogador útil para o Everton, como foi para o Tottenham muias vezes, mas longe de ser um jogador tão caro. Por esse preço, ainda mais para um clube como o Everton, teria que ser um jogador que chegue para resolver. Parece difícil que Sigurdsson seja esse jogador.

O técnico Ronald Koeman fez questão da contratação de Sigurdsson e é de se imaginar que ele saiba como pretende utilizar o jogador. Quando uma contratação custa tão caro e o técnico quem quis, é uma responsabilidade grande de fazer com que dê certo e extrair o melhor daquele jogador. Portanto, é de se imaginar que Sigurdsson não só seja titular, como seja uma peça importante do Swansea. Pode ser que o técnico holandês saiba o que está fazendo e, portanto, possa fazer bom uso do seu reforço. O difícil será fazer com que o jogador renda a ponto de ser determinante, um peso que a etiqueta de preço traz.