Parece inevitável: a Copa do Mundo vai mesmo aumentar de tamanho. O formato com 32 seleções parece fadado a ter a sua última edição em 2022. Nesta terça-feira, a reunião do Conselho da Fifa irá discutir o assunto, mas o martelo já foi batido, segundo o repórter Jamil Chade, correspondente do Estadão: a Copa do Mundo terá mesmo 48 seleções. Resta a confirmação sobre o formato, que já vem sendo detalhado, ainda de forma não oficial, e mostraremos abaixo. Uma mudança que tem dois pontos fundamentais: política e dinheiro.

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A expansão da Copa do Mundo foi uma promessa de campanha de Infantino. Ele, que era secretário-geral da Uefa, usa a mesma fórmula usada por Michel Platini, mas de forma ainda mais intensa. Aumentar o número de vagas na Copa do Mundo é um movimento antes de tudo político, porque agrada todas as confederações com mais vagas e mais países contemplados no principais torneio de futebol do mundo.

O grande apelo político é também seguido por um apelo financeiro. Estima-se um aumento de arrecadação de US$ 600 milhões, 35% a mais do que o arrecadado na Copa do Mundo de 2014. Um dinheiro que entrará a princípio, mas pode sair pela culatra. Isso porque a Copa do Mundo pode até aumentar a arrecadação mesmo, mas há um  outro problema: as Eliminatórias perdem muito do seu valor para as seleções mais fortes – e também mais ricas – dos continentes.

Isso significa que Brasil e Argentina, que quase não correm risco no formato atual com quatro vagas diretas, praticamente ganham a vaga sem força alguma com as seis que devem vir. Por isso, talvez seja necessário mudar o formato das Eliminatórias em vários lugares para torná-las interesses de alguma forma.

Um desses lugares é justamente a América do Sul. Ainda segundo Jamil Chade no Estadão, a Fifa pode unificar as Eliminatórias na Américas (Concacaf e Conmebol) para, assim, fazer o torneio classificatório mais interessante e atraente para TVs e patrocinadores. Com a união das duas confederações de futebol das Américas, seriam 46 países na disputa por 14 vagas. Algo parecido com o que acontece na Europa, com 54 países brigando por 13 vagas.

Uma união entre as Américas que já está sendo ensaiada há algum tempo e que teve a Copa América Centenário, em 2015, como seu capítulo mais recente. O sucesso do torneio entre as duas confederações aumentou as especulações de uma junção mais frequente, ou até definitiva, incluindo torneio de clubes. Há muito a ser negociado ainda, até porque há muita política envolvida.

Distribuição das vagas

Ainda não há definição oficial, mas segundo as informações preliminares, as vagas da Copa do Mundo de 48 seleções seriam distribuídas desta forma: Europa: 16 vagas África: 9 vagas + 1 vaga na repescagem Ásia: 8 vagas + 1 vaga na repescagem América do Sul: 6 vagas + 1 vaga na repescagem América do Norte e Central: 6 vagas + 1 vaga na repescagem Oceania: 1 vaga

Formato de disputa

Como mostra o document obtido por Jamil Chade, o format da Copa do Mundo mudaria bastante. Com as 48 seleções, seriam 16 grupos de três times, com dois classificados e uma novidade bizarra: empates teriam pênaltis. Isso funcionaria para evitar marmeladas na rodada final, já que é um número ímpar de times.

Os 32 classificados jogam a fase 16-avos de final, em jogo eliminatório. Depois, os 16 classificados jogam as oitavas de final, seguindo a competição normal com quartas, semi e final, além do jogo para definir o terceiro colocado.

As palavras dos dirigentes

Os dirigentes entrevistados se mostraram favoráveis ao aumento do número de seleções na Copa do Mundo. Claro, todo mundo quer mais vagas para a sua Confederação. Isso fica claro quando vemos as entrevistas sobre o aumento das seleções. A ESPN americana conversou com alguns dirigentes sobre o assunto e as respostas já indicam o caminho que será tomado.

Michael D’Hooghe,membro do Conselho da Fifa pela Uefa:

“Eu estudei as propostas e há muitas vantagens e desvantagens em aumentar o número de seleções na Copa do Mundo. Como também faço parte do Comitê Médico da Fifa, minha maior preocupação é o bem estar dos jogadores e garantir que, fisicamente, eles não sejam colocados em mais desgaste jogando um número maior de jogos. Eu me encontrarei com meus colegas europeus na reunião do Conselho da Fifa em Zurique, mas nós já somos da opinião que, de um modo ou de outro, a Copa do Mundo precisa ser expandida. Nós não chegamos a uma decisão final ainda em qual é a nossa opção preferida porque muitas vagas extras a Europa receberá irá determinar a nossa decisão”.

Maria Sol Muñoz, membro do Conselho da Fifa pela Conmebol:

“Uma Copa do Mundo de 40 seleções é a melhor opção porque se você tem 48 times, isso pode afetar a qualidade da competição. Até agora, o formato de 32 seleções funcionou muito bem, mas para todos nós da Conmebol concordamos que chegou o tempo para expandir a Copa do Mundo e dar a oportunidade de participar a mais países. Da perspectiva da América do Sul, nossa preocupação é como um torneio de 48 seleções pode impactar no nosso torneio eliminatório. Nós temos mais vagas na Copa do Mundo expandida, mas já temos cinco times de 10 que regularmente classificam (quatro automaticamente e um na repescagem). Se, por exemplo, nós ganharmos duas vagas extras, então nós teremos um impacto negativo na competitividade no nosso torneio eliminatório, que é uma fonte de receita importante para nossos membros”.

Lee Harmon, membro do Conselho da Fifa da Oceania (OFC)

“Eu sou a favor da expansão, mas nós teremos uma reunião final em Zurique com meus colegas da Oceania no Conselho da Fifa para decidir se serão 40 ou 48 seleções. A Fifa nos enviou um dossiê detalhado das duas diferentes opções e os dois formatos parecem bons para mim. Nós não temos uma vaga garantida na Copa do Mundo no momento [2018], já que a Oceania tem que jogar a repescagem com o quinto colocado da América do Sul para se classificar para o torneio. Isso funcionou para os nossos times no passado. Para nós, mesmo uma vaga garantida na Copa do Mundo expandida seria fantástico para o futebol na Oceania”.

Praful Patel, vice-presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC)

“Nossos representantes da AFC votarão pela opção de 48 times. Isso abriria a Copa do Mundo a mais países e também gera mais dinheiro para a Fifa. Eu também acredito que um torneio expandido ajudaria países onde o futebol ainda está se desenvolvendo, algo muito importante para a Ásia em particular. Nós estimamos que nós receberemos ao menos duas vagas, talvez mais, e isso pode ajudar o esporte em países como Índia e China. A Copa do Mundo é um sucesso enorme, mas é importante fazer dela aberta e acessível”.

Decio de Maria, membro do Conselho da Fifa e presidente da Federação de Futebol Mexicano

“Nós já revelamos que vamos nos candidatar para sediar a Copa do Mundo de 2026 e, junto com o resto da Concacaf, acreditamos que um torneio de 48 times é a melhor opção. Seria uma Copa do Mundo histórica, a maior da história, e nós estaríamos honrados em recebê-la, seja de forma independente, ou junto com outros países. A Fifa passou por uma série de transtornos ultimamente e esta é uma excelente oportunidade para ajudar a organização a reconstruir suas finanças e sua reputação. Uma Copa do Mundo maior também ajudaria a desenvolver o jogo, permitindo a Fifa distribuir ainda mais fundos para os seus membros”.

Lodegar Tenga, membro do Comitê Executivo da Confederação Africana de Futebol (CAF)

“Nossos representantes no Conselho da Fifa irão votar para um torneio de 48 seleções. A CAF teve reuniões sobre isso e todos nós acreditamos que seria o melhor para a Fifa e para o futebol da África. Nós fizemos uma enorme contribuição ao mundo do futebol e acreditamos que nossos países devem ter maiores oportunidades para fazer parte da Copa do Mundo. Nós gostaríamos de ver ao menos outras duas ou três vagas dadas a nações africanas e nós informamos Infantino sobre isso. Uma Copa do Mundo expandida seria uma oportunidade fantástica para melhorar o estado financeiro do futebol africano e isso é algo que torcedores por todo continente  querem”.