Durante o último verão europeu, o Colônia assinou um contrato com o governo chinês para construir uma academia de futebol de base no país. Porém, nesta semana, o clube alemão desistiu do acordo em reação às violações de direitos humanos na China. A decisão dos Bodes acontece na esteira das repreensões a Mesut Özil, que questionou o tratamento dado à população Uigur no noroeste chinês – onde há até mesmo denúncias de campos de concentração. A iniciativa encabeçada pelo Colônia tinha um orçamento de €1,8 milhão.

O choque diplomático entre o futebol e o governo chinês começou quando Özil se posicionou sobre o que acontece no chamado do Turquestão Oriental, região de maioria muçulmana na China onde há diversos relatos de perseguição religiosa realizadas pelo governo local. Em postagem nas redes sociais, o meia listou acusações do que é feito com a população, antes de questionar a própria maneira como os islâmicos estão calados sobre a violação: “Eles foram abandonados. Os muçulmanos não sabem que dar consentimento à perseguição é a própria perseguição?”.

O Arsenal, que possui interesses comerciais na China, preferiu se posicionar oficialmente como um “clube apolítico” e deixar claro que o conteúdo “é uma opinião pessoal do jogador”. Pela maneira como se retiraram da discussão, os ingleses foram criticados, por colocarem as questões econômicas à frente da defesa de seu jogador e dos direitos humanos. Ao mesmo tempo, o Colônia optou por desistir dos planos de sua academia no território chinês.

Nesta quarta-feira, os dirigentes alemães declararam que o projeto não seguirá em frente. O presidente Werner Wolf, em entrevista ao jornal Kölner Stadt-Anzeiger, confirmou que eles suspenderam a iniciativa “diante da atual situação esportiva”. A cidade de Colônia possui uma das comunidades muçulmanas mais expressivas da Alemanha e os islâmicos representam 11% da população local. Principal grupo de ultras do Colônia, a Wilde Horde já havia publicado dias antes um panfleto pedindo o fim da cooperação. Afirmavam que “a liberdade e os direitos humanos são mais importantes que qualquer dinheiro do mundo”.

Membro do conselho do Colônia, Stefan Müller-Römer foi ainda mais duro: “Entendo que a Alemanha não consegue sobreviver completamente sem a China e que há trocas comerciais entre os dois países, mas não precisamos da China no esporte e eu mantenho isso. Os direitos humanos na China estão sendo completamente desrespeitados. Um estado completo de vigilância está sendo construído, muito pior do que George Orwell poderia ter imaginado”.

Müller-Römer, que é advogado, retornou recentemente ao conselho do Colônia. ” Acompanho os desenvolvimentos na China há mais de 20 anos e estive lá várias vezes. Sei sobre o que estou falando. É por isso que sou da opinião que o Colônia não deve ter ativos lá. Fazer dinheiro a qualquer custo não é uma opção para mim. Além do fato questionável se dá para fazer dinheiro na China, há coisas mais importantes que o dinheiro. Como uma organização sem fins lucrativos, que é socialmente ativa, não podemos apoiar esse tipo de ditadura brutal e totalitária”.

Sobre Özil, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China respondeu aos comentários. Ele questionou se o meia já esteve na região e declarou que ele foi enganado por “fake news” para fazer seu julgamento: “Damos as boas-vindas para que ele venha a Xinjiang, se tiver a chance, caminhar e olhar ao redor, para distinguir o certo do errado e defender os princípios de justiça. Contanto que ele tenha consciência, verá um local diferente”.

Vale lembrar que, em contrapartida, Özil apoia o governo de Recep Tayyip Erdogan na Turquia – igualmente acusado de violar os direitos humanos, sobretudo contra a população curda. Erdogan, pivô no rompimento do meia com a seleção alemã, foi inclusive seu padrinho de casamento. Seria interessante, também, se o posicionamento crítico do jogador do Arsenal não parecesse meramente seletivo, por mais razão que tenha em abordar o que ocorre na China.