Política: o que os países da Conmebol tem a ver com os Estados Unidos

A Copa América Centenário não será especial apenas pela comemoração de 100 anos da competição de seleções do continente. Pela primeira vez, o torneio será realizado longe da América do Sul. Os Estados Unidos receberão os 16 times, seis filiados à Concacaf e dez à Conmebol.

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Como maior economia e um dos líderes do mundo, os EUA têm relações históricas, menos ou mais profundas, com praticamente todos os países, e a América do Sul não foge disso. Há parcerias econômicas, projetos conjuntos para combater o tráfico de drogas e organizações que os americanos consideram terroristas e relações políticas de vários níveis.

Na véspera da Copa América Centenário, separamos um aspecto político-econômico da relação de cada país filiado à Conmebol com os Estados Unidos.

Argentina
Os presidentes Obama e Macri caminham no Parque das Memórias (Foto: AP)

Os presidentes Obama e Macri caminham no Parque das Memórias (Foto: AP)

A Argentina foi o único país sul-americano a contribuir militarmente com os Estados Unidos na Guerra do Golfo, o que lhe rendeu, sob a presidência de Bill Clinton, o status de importante aliado extra-Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar entre países formada depois da Segunda Guerra Mundial). As relações, porém, deterioraram-se com os mandatos dos peronistas Néstor e Cristina Kirchner, entre 2007 e 2015, pois ambos também adotavam retóricas anti-americanas. Com a eleição do opositor Mauricio Macri, houve uma aproximação. Em março, Obama fez sua primeira visita à Argentina e foi junto com Macri ao Parque de la Memoria, que homenageia as vítimas da ditadura militar argentina, que no início teve o apoio dos Estados Unidos.

Brasil
John Kennedy e João Goulart no Salão Oval da Casa Branca (foto: AP)

John Kennedy e João Goulart no Salão Oval da Casa Branca (foto: AP)

Os Estados Unidos foram o primeiro país do mundo a reconhecer a independência brasileira, em 1822, e os dois países tradicionalmente têm boas relações econômicas e políticas. Exceções vieram nos anos sessenta, quando o então presidente americano John Kennedy discutiu com seus assessores uma intervenção militar para derrubar o presidente brasileiro João Goulart, poucos dias antes de ser assassinado. Depois, os EUA agiriam ativamente para desestabilizar o governo de Jango e viabilizar o Golpe de 1964.

Equador
Julian Assange, escondido na embaixada do Equador em Londres (Foto: AP)

Julian Assange, escondido na embaixada do Equador em Londres (Foto: AP)

O Equador mantinha boas relações com os EUA, parceiro na luta contra a produção de cocaína, até 2011, quando um documento diplomático mostrou que a embaixadora americana no país, Heather Hodges, acusava o chefe da polícia de estar envolvido em um esquema de corrupção, talvez com o conhecimento do presidente Rafael Correa. Hodges foi expulsa do Equador, e em retaliação, Luis Gallegos, o embaixador equatoriano em Washington, teve que deixar os EUA. Apenas em setembro, cinco meses depois, os países decidiram nomear novos embaixadores.

O documento foi vazado pelo Wikileaks, um esforço chefiado pelo australiano Julian Assange para tornar públicos 250.000 telegramas diplomáticos do Departamento de Estado dos EUA. Acusado de crimes sexuais na Suécia, Assange está escondido na embaixada do Equador, em Londres, desde a metade de 2012, para evitar ser extraditado pelo Reino Unido. O país sul-americano justificou que seus direitos humanos seriam violados se ele fosse entregue aos suecos. Assange teme ser posteriormente extraditado para os Estados Unidos.

Em 2013, o ex-analista da CIA, Edward Snowden, outro nome odiado pela comunidade de inteligência americana, por ter vazado dados de vigilância da NSA, pediu asilo ao Equador, mas o processo não foi em frente. Continua vivendo na Rússia.

Bolívia
Evo Morales, presidente da Bolívia, com uma folha de coca (Foto: AP)

Evo Morales, presidente da Bolívia, com uma folha de coca (Foto: AP)

Eram parceiros na luta contra o uso ilegal da cocaína e chegaram a realizar operações conjuntas contra plantações nos anos oitenta, quando os EUA intensificaram sua guerra às drogas. Mas a chegada de Evo Morales ao poder abalou as relações. Morales foi líder do sindicato de fazendeiros de folha de coca, cujo uso medicinal e em rituais faz parte da cultura do povo boliviano. Eleito presidente em 2006, ele expulsou o embaixador dos EUA e a agência de combate às drogas americana (DEA) da Bolívia, alegando que a presença dos ianques no país afrontava sua soberania. Morales, que ficará no cargo no mínimo até 2019, deu sequência ao seu próprio plano para regularizar a produção de coca, e junto com a Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, é o principal crítico dos EUA na América do Sul.

Peru
O ex-presidente peruano Alan García (Foto: AP)

O ex-presidente peruano Alan García (Foto: AP)

O Peru tem boas relações com os EUA hoje em dia, mas nem sempre foi assim. Em 1989, o presidente peruano Alan García foi o primeiro líder sul-americano a denunciar publicamente a invasão americana ao Panamá, que derrubou o ditador Manuel Noriega. Considerado um bom orador, comparou a operação militar com uma busca ilegal e questionou a autoridade de os americanos julgarem e prenderem cidadãos de outros países. Internamente, seu governo deteriorou a economia e é frequentemente culpado pela ascensão do autoritário Alberto Fujimori, que governou o Peru por 10 anos antes de fugir para o Japão, em 2000, acusado de corrupção e violações de direitos humanos. Sua filha Keiko Fujimori é a favorita para as eleições presidenciais do próximo domingo.

Paraguai
Fernando Lugo, ex-presidente do Paraguai (Foto: AP)

Fernando Lugo, ex-presidente do Paraguai (Foto: AP)

Quando o bispo Fernando Lugo assumiu a presidência, em 2008, com um forte discurso social e pendendo à esquerda, os Estados Unidos ficaram preocupados. Não era um líder populista radical como Evo Morales e Hugo Chávez, mas apoiava a entrada da Venezuela no Mercosul, chegou a elogiar os líderes Morales, da Bolívia, e Fidel Castro, de Cuba. Não há evidências de que os EUA interferiram no processo de impeachment que Lugo sofreu, em 2012, mas documentos do Wikileaks provam que a diplomacia americana estava preocupada com uma possível “mudança radical socialista” no país. Depois de ser deposto, em uma movimentação política que seus apoiadores classificaram de “golpe”, Lugo virou Senador do Paraguai, em 2013.

Uruguai
Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai (Foto: AP)

Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai (Foto: AP)

O Uruguai passou quatro anos, entre 1999 e 2003, como um dos poucos países sul-americanos cujos cidadãos não precisavam de visto para entrar nos Estados Unidos. No entanto, depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, o governo Bush restringiu o acesso ao país e tirou o privilégio dos uruguaios. Havia feito o mesmo com os argentinos um ano antes. O então presidente Pepe Mujica negociou o retorno do Uruguai a essa lista com Barack Obama. Seu ministro do Interior, Eduardo Bonomi, chegou a anunciar que estava tudo certo, mas a mudança ainda não entrou em vigor.

São 38 países que não precisam de visto para entrar nos EUA, por até 90 dias, com o objetivo de fazer turismo ou por negócios. Entre eles, aparece apenas o Chile de sul-americano, além de Japão, Austrália, Itália, França, Portugal, Reino Unido e outros.

Chile
As relações entre Chile e EUA são muito boas (Foto: AP)

As relações entre Chile e EUA são muito boas (Foto: AP)

Desde a saída do ditador Augusto Pinochet, que subiu ao poder com a ajuda dos Estados Unidos, como mostram documentos da própria CIA, publicados em 2000, o Chile é um dos países sul-americanos com as melhores relações com os Estados Unidos. Foi um dos primeiros a assinar um acordo de livre mercado com os americanos, em 2003, eliminando tarifas em bens de consumo e produtos agrários.

Colômbia
Juan Manuel Santos (e) negocia a paz com o comandante das FARCs, Timoleon Jimenez (d), na Cuba de Raúl Castro (c) (Foto: AP)

Juan Manuel Santos (e) negocia a paz com o comandante das FARCs, Timoleon Jimenez (d), na Cuba de Raúl Castro (c) (Foto: AP)

Duas instituições colombianas sempre estiveram sob o radar dos Estados Unidos: os cartéis de drogas e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Os americanos estão entre os maiores consumidores de cocaína e derivados do mundo, um prato cheio para os produtores da Colômbia. A situação ficou um pouco melhor com a queda dos cartéis de Medellín e Cali, principalmente em Miami, a porta de entrada da droga no país.

As FARCs são organizações classificadas pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos como organizações terroristas. O atual presidente colombiano Juan Manuel Santos negocia um acordo de paz com o grupo de guerrilha que opera na Colômbia há mais de 50 anos e pediu que, uma vez concretizado, esse rótulo seja retirado pelos americanos.

Venezuela
Nicolás Maduro, presidente da Venezuela (Foto: AP)

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela (Foto: AP)

A retórica de Hugo Chávez e seu sucessor Nicolás Maduro sempre foi de críticas duras em relação aos Estados Unidos, denunciando, entre outras coisas, o que chamam de “imperialismo ianque”. No entanto, esses ianques ainda são o principal parceiro comercial da Venezuela, com US$ 40 bilhões mudando de mãos apenas em 2014, segundo dados do Departamento de Estado americano. São US$ 11,1 bilhões exportados para o país sul-americano e US$ 30,2 bilhões importados. Muito desse segundo valor vem do petróleo: a Venezuela é uma das cinco maiores fornecedoras de óleo para os EUA.

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