Durante a comemoração do bicampeonato mundial, Paul Pogba chamava os holofotes para si. Algumas das melhores fotos no gramado do Luzhniki foram protagonizadas pelo meio-campista, apaixonado pela taça, acompanhado pela família. O astro do Manchester United comandou a bagunça nos corredores do estádio e, durante a recepção calorosa em Paris, transformou-se em um grande mestre de cerimônias. Tornou-se dono do microfone no palácio presidencial, simbolizando a euforia dos Bleus. Nada mais característico de Pogba, por toda a sua espontaneidade. No entanto, as cenas ganham outro significado quando se compreende o papel do jogador no elenco. Nos momentos em que foi necessário falar grosso e motivar os companheiros, o camisa 6 se portou como um verdadeiro líder.

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Pogba é uma referência técnica da França, isso é óbvio. O meio-campista cresceu durante a Copa do Mundo e teve algumas excelentes atuações nos mata-matas. Jogou para o time, dando muita presença física e agressividade à faixa central. Além disso, era um dos principais responsáveis por acelerar o jogo vertical da equipe de Didier Deschamps, graças às suas arrancadas e aos seus lançamentos magistrais. A melhor mostra disso veio na decisão, contra a Croácia. O camisa 6 formou uma dupla sólida com N’Golo Kanté ao longo de todo o torneio, personalidades distintas, mas que se davam muitíssimo bem lado a lado. Conseguiu suprir as dificuldades do companheiro na ocasião, ajudou os Bleus a segurarem a pressão dos croatas durante boa parte do tempo e no ataque contribuiria com o gol que transformou o espírito do confronto.

No entanto, as imagens de bastidores mostram como Pogba foi um líder além do craque dentro de campo. Mesmo sem a braçadeira, era ele quem comandava os discursos e as preleções antes de cada partida. A voz forte que tomava conta dos vestiários e aumentava a confiança dos Bleus rumo aos jogos difíceis. Aconteceu assim contra a Argentina, contra o Uruguai, contra a Bélgica. Antes do duelo final contra a Croácia, todos se reuniram ao redor de uma mesa, para ouvir o que o meio-campista tinha a falar. Para acreditar que poderiam fazer história no Estádio Luzhniki, como realmente aconteceu no triunfo eterno aos franceses. De revelação na Copa de 2014, Pogba experimentou o desgosto da derrota em casa na Euro 2016 quando já era um dos principais nomes do elenco. Quis que o destino fosse diferente na Rússia e chamou a responsabilidade para que o desejo se tornasse real.

Um dos mais velhos do grupo, Adil Rami exaltou bastante esta capacidade de Pogba. “Eu digo a você que Pogba se tornou um líder. Não sei como e nem de onde, mas ele se tornou um líder. Ele provou isso para nós, ele nos mostrou. É um jogador técnico, tem muito talento. Foi capaz de lutar defensivamente. Todo mundo ama jogadores que driblam, que dão canetas, que fintam. Mas eu posso dizer a você que, hoje, Paul virou um líder. Foi ele quem nos mostrou o caminho. Todo mundo espera dribles, mas o futebol não é isso. Você sua a camisa, você entrega seu corpo à causa. Existem jogos em que você precisa arregaçar as mangas. Algumas pessoas entenderam isso, especialmente ele. Pogba foi o homem forte da seleção francesa. Defensivamente, ele ajudou o time. Posso falar sobre todos, mas hoje Paul mostrou sua maturidade. Técnica é bom, mas atitude se torna mais importante”, apontou, ao L’Equipe.

Já nesta semana, logo após a conquista da Copa do Mundo, a rede de televisão TF1 lançou um documentário sobre a campanha da França. “Les Bleus 2018, au coeur de l’épopée russe” traz uma porção de cenas de bastidores, desde a preparação da seleção francesa antes da viagem à Rússia. Mostra imagens na concentração da equipe, faz entrevistas com os jogadores e também exibe o clima nos vestiários, antes e depois das partidas no Mundial. Didier Deschamps, obviamente, era uma influência soberana. Mas quem parecia mais próximo de se aproximar do treinador como um norte era Pogba.

Contra a Argentina, a primeira dose de sangue nos olhos, em discurso comparado por muitos ao que Claude Makélélé falou sobre o Brasil em 2006. “Queremos ver guerreiros em campo nesta noite. Não quero ir para casa, não vou voltar para casa nesta noite. Ainda estamos hospedados no hotel, ainda vamos comer esta merda de macarrão. Hoje vamos terminar felizes. Eu quero festejar esta noite. Quero que hoje todos deem sua vida em campo. Os companheiros e os guerreiros, os campeões. Vamos matar esses argentinos, com Messi ou sem Messi, lutaremos com colhões. Viemos por ganhar essa merda de Copa do Mundo. Temos que nos classificar, vamos rapazes!”, gritou Pogba, nos vestiários.

Dias depois, seria a vez de enfrentar o Uruguai. Pogba pegou o exemplo de Blaise Matuidi, suspenso para o jogo, motivando os franceses: “Vamos continuar, vamos seguir até o fim. Vamos ter um compromisso em 15 de julho. Todos juntos! Todos juntos! Hoje, Blaise estará no banco, ele está infeliz por isso. Ele gostaria de jogar mais do que qualquer outro em campo. É por caras como Blaise que vamos lutar. Ele não estará em campo, mas será como se estivesse conosco. E todo mundo estará determinado. Vamos batalhar por este companheiro, como fizemos contra a Argentina, hoje ainda mais. Devemos encarar os melhores para sermos os melhores”.

Diante da Bélgica, o próprio Matuidi puxou o discurso, antes que Pogba fizesse a sua intervenção: “Eu me lembro quando nós estávamos correndo em Clairefontaine. Estávamos sob o sol, agora isso está sendo recompensado. Temos que nos lembrar de tudo isso, quando estávamos cansados. Motivávamos os outros, motivávamos quem estava atrás. Nós esperávamos, nós empurrávamos. Agora somos uma família, rapazes. Temos que conquistar esta taça. Chegamos longe. Quando entramos no barco, não podemos voltar atrás. Hoje estaremos em campo e há uma final pela frente, há uma taça pela frente. É esse o nosso objetivo, não apenas estar na semifinal. Não é pensar que as pessoas estão orgulhosas pelo que conseguimos. Elas estão contentes. Vamos deixá-las mais orgulhosas quando levarmos a taça. Hoje, vamos entrar em campo, podemos escrever a história. Temos a caneta, mas falta escrever a história em campo. Vamos, vamos todos, somos uma família”.

Por fim, a Croácia: “Rapazes, eu não quero falar muito. Todos sabemos onde estamos, todos sabemos o que desejamos. Todos sabemos o caminho que fizemos. Conhecemos isso. Com nossos corações, com nossos olhos, estamos concentrados. Rapazes, não podemos esquecer, talvez eu seja repetitivo, estamos a 90 minutos de escrever a história. Noventa minutos. Uma partida. Fizemos sei lá quantos jogos em nossas vidas, mas essa é uma partida e muda tudo, muda toda a história. Há duas equipes, uma taça. Eles estão na mesma, também querem a taça. Perdemos uma final, sabemos. Hoje não deixaremos outro time pegar o que é nosso. Eu quero que essa noite fique na memória de todos os franceses que irão nos assistir. Seus filhos, seus netos, seus bisnetos. Hoje, temos 90 minutos para entrar na história pelo resto da vida. Agora estou olhando para vocês, não vou gritar, eu quero que nós entremos em campo como líderes e guerreiros. E então eu quero ver as lágrimas, não lágrimas de tristeza, mas de alegria, se abraçando em campo”.

Pogba não ficará nos livros de história como capitão ou o jogador premiado após a decisão. Porém, merece ser lembrado além do craque do meio-campo. Suas palavras mostram isso. E aos 25 anos, com este nível de maturidade e de liderança, une o necessário para continuar buscando mais com os Bleus. A seleção francesa tem um comandante para novos anos gloriosos.


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