Indivíduos que fazem parte de minorias encontram maneiras diferentes de sobreviver em meio ao preconceito. Os mais combativos e expressivos tornam-se porta-vozes de seus grupos, mas é compreensivo que outros se voltem mais à força interior para lidar com as agressões. A abordagem que Paul Pogba escolheu parece ser a de buscar não se afetar pelos insultos e ataques. Em conversa com o jornal The Times, em um podcast especial do veículo inglês, o jogador soou desesperançoso com a situação, em uma demonstração de que os dirigentes que comandam o futebol falharam em seu dever de combater o racismo.

A temporada europeia que recentemente chegou ao fim foi marcada mais uma vez por diversos episódios de abuso racial, evidenciando a ineficácia das políticas até hoje implementadas pelas autoridades em torno do esporte para lidar com o problema endêmico. A Itália, em especial, sofre bastante com isso, tendo tido um dos capítulos mais distintos dos últimos tempos. O atacante Moise Kean, da Juventus, alvo de gritos racistas de torcedores adversários, se viu duplamente alvo na oportunidade, com o companheiro de clube Leonardo Bonucci atribuindo ao jogador parte da culpa pelo incidente.

Também na Itália, Luciano Spalletti aceitou “de bom grado” a punição à torcida de sua então equipe Internazionale depois de torcedores nerazzurri visarem o zagueiro Kalidou Koulibaly, do Napoli, com cantos racistas. Está cada vez mais comum ver personalidades do futebol se posicionarem contra o preconceito racial em campo e falarem até em deixar o gramado diante de situações do tipo. Pogba, pessoalmente, opta por um outro caminho.

“Quando vejo a reação dos outros (jogadores), penso nisso e imagino se faria isso ou não. Quando eles fizerem de novo, o que você vai dizer? Vai sair de campo? Não! Se você quer jogar, você joga. Tente marcar pelo seu time, tente vencer. E, no fim, eles virão depois do jogo e pedirão uma foto”, disse o francês ao Times.

“Eu só rezo por eles e para que as pessoas entendam que só gostamos do esporte e de jogar futebol. Entendo que eles queiram que seu time vença, mas existem jeitos diferentes de chamar a atenção. Fazer algo assim em 2019 é muito baixo.”

Pogba lembra que já viveu isso na pele e afirmou que é uma situação muito triste. Quando jogador da Juventus, o francês sofreu abuso racial da torcida da Fiorentina. “Algumas pessoas começaram a fazer o som de macaco, e eu perguntei por que. Então, eu simplesmente dei ao torcedor a minha camisa, e eles ficaram muito felizes. No final, me aplaudiram.”

A visão do jogador do Manchester United parece ser de que o racismo é mais uma das ferramentas usadas por torcedores adversários para desestabilizar um oponente. “Se eles são racistas ou ignorantes, não sei, ou então eles não querem que você jogue bem. Ouço várias coisas, mas não reajo, eu sorrio.”

Talvez por tudo o que já viu e pela falta de ação que cerca o esporte, Pogba soa desesperançoso quando projeta como será a relação do futebol com o preconceito no futuro. A fala de Pogba revela como quem manda no futebol não respondeu devidamente ao problema. “Não dá para mudar algo assim, porque existe já há muito tempo. Você tenta falar sobre isso, mas segue acontecendo. Não acho que dê para mudar isso nas pessoas.”

Pogba reconhece que episódios de racismo, sejam vividos por ele ou outros jogadores, o entristecem. Ele, no entanto, diz não sentir raiva ou outra coisa. “Sou feliz comigo mesmo. Tenho um amigo chinês, um empresário italiano, um advogado brasileiro, uma esposa boliviana, e eu sou francês e guineano. Minha vida inteira é de várias culturas”, contou.

Como boa parte dos jogadores negros, Pogba tem um alvo em suas costas por parte da imprensa. Seus bens materiais, seus cortes de cabelo e sua atitude em geral atraem atenção desproporcional. Ele não relaciona diretamente essa questão ao racismo, mas aponta o quão sem pé nem cabeça é torná-lo bode expiatório por coisas alheias ao jogo – e como tudo isso passa a não ser problema uma vez que os resultados estão acontecendo.

“Sempre joguei assim. Graças a deus, venci troféus assim. Conquistei a Copa do Mundo assim. Linguagem corporal, corte de cabelo, essas coisas são só falação, porque, desde que sou criança, sempre joguei assim, e não é um problema. Nunca é um problema quando vencemos. É sempre um problema quando não vencemos, quando perdemos ou temos uma atuação ruim. Quando eu venço, quando marco, quando dou uma assistência e tenho boas partidas, não é um problema”, resumiu o jogador.

Como o islamismo o mudou para melhor

De alguns anos para cá, as postagens de imagens nas redes sociais de Pogba passaram a ser intercaladas com algumas de visitas à Meca. Apesar de sua mãe ser muçulmana, o jogador nem sempre foi. Apenas mais recentemente ele se converteu ao islamismo. Segundo ele, um passo que o fez mudar para melhor. “É o que me faz grato por tudo. Fez eu mudar, perceber coisas na vida. Talvez, acho que me torna mais calmo por dentro. Foi uma boa mudança na minha vida, porque não nasci muçulmano, mesmo que minha mãe fosse. Eu cresci assim, respeitando todos.”

Pogba só foi se aproximar da religião depois dos 20 anos de idade, por meio de amigos. “Sempre conversamos. Eu estava me questionando em várias coisas, então comecei a pesquisar por conta própria. Rezei uma vez com meus amigos e senti algo diferente, foi muito bom. Desde então, continuei. Você tem que rezar cinco vezes por dia, isso é um dos pilares do Islã, é algo que você faz. Você faz para pedir perdão e para ser grato por tudo que tem, como saúde e tudo o mais. É uma religião que realmente abriu minha mente e que me faz, talvez, uma pessoa melhor. Você pensa mais na vida após a morte”, explicou.

 

Ver essa foto no Instagram

 

pogfamilly ❤️🕌

Uma publicação compartilhada por Paul Labile Pogba (@paulpogba) em

Por meio de suas publicações e mensagens nas redes sociais e fazendo uso da forte imagem que tem, Pogba tem aproximado as pessoas do conhecimento da religião – vimos recentemente, com Salah, como isso pode ser importante para dissipar o preconceito. Na entrevista ao Times, o francês quer esclarecer: “O Islã não é a imagem que todos veem, terrorismo. O que ouvimos na mídia é outra coisa. O Islã é algo bonito. Você passa a conhecer. Todo mundo pode se sentir conectado com o Islã.”

A paz e calma que Pogba diz ter encontrado na religião certamente serão bem-vindas nos tempos atribulados do jogador, que entende que o preço pago pelo Manchester United por sua contratação em 2016 significa que ele sempre será o mais cobrado.

“Por ser a maior transferência da história na época, você é julgado de maneira diferente. Espera-se mais de você, imagino. Espera-se mais por causa do preço. Um bom jogo será visto como um jogo normal, e um jogo ótimo será visto como um jogo bom.”