Por mais que Mauricio Pochettino seja idolatrado em uma das metades do norte de Londres e tenha conquistado um sucesso inesperado com o Tottenham, levando o clube à sua primeira final de Champions League na história, é improvável que o treinador ganhe um status de topo da pirâmide de tomada de decisões no clube. Isso, no entanto, não o impede de apontar o dedo para isso e jogar um pouquinho de pressão no presidente dos Spurs, Daniel Levy.

Em entrevista recente à emissora espanhola TV3, Pochettino comparou a liberdade de que desfrutam Pep Guardiola e Jürgen Klopp, técnicos de Manchester City e Liverpool, com a restrição que treinadores de outros clubes têm. O fato de Citizens e Reds serem os atuais campeões da Premier League e da Liga dos Campeões não pode ser acaso – Poch parece estar apontando que o caminho do sucesso passa por maior autonomia para o comandante.

“No Tottenham, no Chelsea e no Arsenal, não existe a liberdade que Pep e Klopp têm no Manchester City e no Liverpool. Pep tem controle total do planejamento no City. É um modelo diferente daquele do Tottenham e de outros clubes”, avaliou o argentino.

“Vender jogadores, decidir e oferecer contratos, comprar jogadores – no caso de Pep ou Klopp, isso depende unicamente do treinador. As coisas não são iguais em outros clubes (como os Spurs).”

Tirar jogadores do Tottenham, especialmente aqueles de maior destaque, é uma verdadeira dor de cabeça. Mais pelo perfil duro de Daniel Levy nas negociações do que por controle do técnico sobre o destino de seus comandados. “Minha opinião será perguntada, e é claro que amo o Harry Kane. Mas a decisão é de Daniel. A mesma situação com o Eriksen”, declarou Pochettino, questionado sobre a possível saída de alguns de seus melhores atletas.

Não é exatamente simples ter uma opinião concreta sobre qual dos dois está correto. Se, por um lado, Pochettino tem razão ao apontar os trabalhos de Klopp e Guardiola como exemplos de sucesso de projetos em que a voz final é do treinador, por outro, o Tottenham chegou aonde chegou atualmente muito por causa da maneira como Levy gere o clube.

Se os Spurs mantiveram sua base ao longo dos últimos anos, permitindo a Pochettino aprimorar as peças, isso não foi por falta de investidas de outros clubes. Dele Alli, Harry Kane, Christian Eriksen, Eric Dier, entre outros, todos já foram sondados em um ou outro momento por clubes de diferentes patamares, de Manchester United a Real Madrid. É verdade que a estabilidade dos Spurs e o claro projeto de Pochettino foram motivos importantes para todos eles permanecerem, mas a alta pedida por parte de Levy para os pretendentes teve papel igualmente forte – se não mais.

Além disso, por mais duro que tenha sido, o presidente manteve o perfil austero em uma temporada em que precisava de reforços. O Tottenham começou 2018/19 sem contratações e assim ficou até o fim da campanha. Era preciso ter controle sobre as finanças, em meio a um período tradicionalmente difícil em termos financeiros: o da construção de um novo estádio. Mesmo assim, chegou à sua inédita final de Champions League.

Com a belíssima nova arena de pé e o dinheiro que ela trará, além dos bons últimos anos, o Tottenham vai se abrindo um pouco para gastar, perto de contratar Tanguy Ndombélé, destaque do Lyon – mas provavelmente sem estourar seu teto salarial, hoje estabelecido nas £ 200 mil por semana de Harry Kane, ainda assim menos da metade do que ganha Alexis Sánchez no Manchester United, por exemplo.

Não dá para prever até onde irá o trabalho de Pochettino no Tottenham, mas, seja qual for esse futuro, o argentino precisará alcançar suas metas sem a mesma independência de seus colegas. Isso definitivamente torna as coisas mais difíceis, mas vai tentar convencer um homem como Daniel Levy…