“Eu a sinto (energia universal) desde criança. É algo que estava na minha cabeça, e não sei o por quê. Pensava que havia uma energia que me permitia sonhar coisas que mais tarde alcançava. Programar coisas com sua mente para acontecer tem sido, para mim, uma ferramenta fácil de usar para realizar coisas boas.”

A entrevista de Maurício Pochettino ao jornal espanhol El País na véspera do confronto do Tottenham com o Ajax, em Amsterdã, nos ajuda a começar a tentar entender o que se passou na Johan Cruyff Arena.

O inacreditável se tornou realidade pelos pés de um predestinado Lucas Moura, mas não sem a mente de um homem que desde menino se acostumou a conseguir o que buscava.

São raras e especiais as pessoas que, no comando de uma equipe, vão para o vestiário de um confronto que perdiam por 3 a 0 ao longo de 135 minutos e conseguem dizer exatamente as coisas certas não só para ajustar as peças do tabuleiro em campo e lhes passar instruções individuais como também para estender aos comandados a crença de que a vitória ainda é possível.

Pochettino conseguiu tudo isso – e eu adoraria poder estar lá para ver como foi essa conversa.

Depois de um primeiro tempo de grande futebol do Ajax, que vencia por 2 a 0, e de um Tottenham que sofria com a pressão do adversário enquanto tentava uma saída curta e técnica até o ataque, o argentino decidiu mudar a estratégia. O escolhido para colocá-la em prática seria Fernando Llorente.

A partir do momento em que o atacante espanhol entrou em campo, os Spurs ganharam uma muralha lá na frente e a ordem foi jogar a bola para o alto e torcer para Llorente pegá-la. E como ele a pegou. Sozinho, no segundo tempo, o centroavante ganhou 13 bolas pelo alto, 12 delas no ataque. Para perspectiva, o Ajax inteiro ganhou sete no mesmo período. A estratégia de Pochettino funcionava e teve seu toque final no último minuto dos acréscimos.

Atirada para a frente, aos 50 do segundo tempo, a bola teve um de seus vários encontros com Llorente, passou por Alli e ficou no jeito para Lucas Moura completar seu hat-trick e finalizar sua própria jornada heroica.

Embora Llorente tenha mérito enorme na glória dos Spurs, não dá para contornar o real ou amenizar as palavras: ele é muito inferior a Harry Kane, craque do time e homem com quem Pochettino não pôde contar desde o meio da partida de ida contra o Manchester City nas quartas de final.

Assim como não morreu com sua ideia ao perder Kane e ter três jogos dificílimos pela frente até a sonhada final, Pochettino se adaptou rapidamente ao jogo que fazia o Ajax.

O sorriso no rosto de quem levou um time à sua primeira final de Champions League e sem gastar um centavo em contratações na temporada (Imagem: Divulgação/Facebook)

Há quem coloque resultados acima de tudo, afinal, normalmente, títulos são o que fazem uma equipe ser lembrada. A mim, apetece o nível apresentado semana sim, semana não, rodada a rodada. Você sabe, aquele clichê de que o que importa é a jornada, e não o destino. Acrescente aí a expectativa de entretenimento que temos sobre o futebol, e temos a fórmula do que vejo como o jogo que deve ser valorizado. Pochettino consegue isso, e sem contar com um time estrelado.

Enquanto Mourinho passou a primeira metade da temporada atribuindo o futebol fraco de seu Manchester United à falta de contratações, morrendo na defensiva, o argentino manteve o bom futebol da temporada passada e o aprimorou, sem poder gastar um centavo em contratações. Finalizando seu estádio, o Tottenham foi austero, fechou os cofres, Pochettino precisaria tirar leite de pedra. E tirou.

Se sua premissa para um bom técnico é que ele melhore os jogadores que tem, tire deles o seu melhor, o treinador dos Spurs está hoje no patamar dos excelentes. A maneira como desenvolveu jovens ingleses que formaram a base de uma seleção inglesa que superou a antecessora estrelada e chegou ao quarto lugar na Copa do Mundo é impressionante por si só. Mas olhe para o elenco do Tottenham e você verá também jogadores estrangeiros que não contam com primor técnico, mas dos quais Pochettino soube exatamente o que pedir, como Sissoko. E aqueles que ele ajudou a se reencontrarem ou a passar a brilhar. Ou vai dizer que o futebol de Lucas Moura e Son não te surpreendeu?


O choro de Pochettino no gramado, na comemoração do terceiro gol, que selou a virada por 3 a 2 em Amsterdã sobre os Ajacieden, foi a explosão de quem testemunhava um milagre – e o engendrara de maneira brilhante. Mas não duvide por um minuto que a energia universal já não tivesse sussurrado em seu ouvido o que o esperava.

Conquistar títulos é, evidentemente, o ápice do futebol, e para muitos, é o que falta para que Maurício Pochettino seja considerado um grande técnico. Mas o que vi até agora já me basta. O ápice é, afinal de contas, um momento. O trabalho de um técnico é tudo, menos um momento. O argentino não precisa de títulos para ser um grande treinador – e ainda assim chega mais perto do maior deles do que qualquer outro treinador do Tottenham já chegou.