O Tottenham anunciou nesta terça-feira (19) a demissão do técnico Mauricio Pochettino, sobretudo pelo péssimo saldo na Premier League de fevereiro para cá. Com isso, chega ao fim cinco anos e meio de um trabalho transformador, que mudou os Spurs de patamar, colocando a equipe entre os times mais competitivos da Inglaterra.

A história que será contada no futuro sobre o trabalho de Pochettino no norte de Londres é a de um treinador fazendo sua equipe jogar acima de sua categoria e cujo próprio sucesso desproporcional abriu espaço para sua saída. Toda a empreitada culminou na final da Champions League da temporada passada, decisão vencida pelo Liverpool por 2 a 0. Ali, anunciava-se o fim de um ciclo, mas com a impressão de que o técnico argentino faria parte do novo que se desenhava no horizonte.

Desfazer-se do comandante não passava pela cabeça de Daniel Levy, presidente do clube. Portanto, as mudanças precisariam ser no elenco. Porém, as transferências de fato necessárias para a renovação não aconteceram. Bons nomes chegaram, é verdade, com o Tottenham fazendo um tipo de janela de transferências da qual se privara nos anos anteriores. Tanguy Ndombélé, Ryan Sessegnon e Giovani Lo Celso (este por empréstimo com opção de compra) foram contratações pontuais e que indicavam o caminho a seguir, mas só isso não era suficiente – e a limpa no elenco passou ainda mais longe do necessário.

Se, por um lado, saíram Kieran Trippier, Fernando Llorente e Vincent Janssen, por outro permaneceram muitos nomes que ou Pochettino não queria mais ou jogadores que não mais queriam estar no Tottenham, além de atletas com vínculos para acabar. E quando alguns deles são atletas importantes como Christian Eriksen, Toby Alderweireld e Jan Vertonghen, o desgaste era inevitável.

Além disso, as contratações citadas acima eram apenas uma fração do que precisava o Tottenham, em uma situação apenas piorada pela falta de transferências na temporada 2018/19. E a adaptação dos novatos também não foi imediata, inclusive por lesões. Era preciso repor a saída de Trippier ou ao menos contratar um lateral direito melhor que Serge Aurier; Danny Rose, ao longo dos anos, já mostrara que não poderia ser visto como opção de longo prazo na esquerda.

No ataque, a imprensa inglesa especula se Harry Kane não estaria desgastado por causa das lesões no tornozelo – ou se a queda de rendimento no Tottenham não seria consequência apenas da queda geral da equipe. De qualquer forma, o simples fato da pergunta rolar na crônica esportiva já levanta a necessidade da chegada de um atacante de reposição, que pudesse dar um respiro ao goleador inglês.

Todas essas alterações no elenco eram necessárias – e, adivinhe só, continuam sendo mesmo após a partida de Pochettino. O Tottenham dá um passo no escuro ao se desfazer do treinador que tinha exibido credenciais suficientes para conduzir o que desde o princípio seria um processo longo de reconstrução após o fim de ciclo marcado pela derrota no Wanda Metropolitano.

Daniel Levy, presidente do Tottenham (Foto: Julian Finney/Getty Images)

Para além da observação óbvia de que chegar à final da Champions League por si só é uma conquista aos Spurs, que Pochettino tenha alcançado isso com tão pouco respaldo financeiro – devido ao perfil de Daniel Levy, mas também à construção do novo estádio – é ainda mais impressionante. E então, se o maior incômodo foi mesmo com o desempenho na Premier League de fevereiro para cá, vale pegarmos um período significativamente maior de amostra do trabalho do argentino na liga.

Nos cinco anos anteriores à chegada de Pochettino, o Tottenham havia terminado duas vezes em quarto lugar, duas vezes em quinto e uma vez, justamente na campanha pré-Mauricio, na sexta colocação. Com o argentino, foi quinto colocado na primeira temporada, terceiro colocado em duas outras campanhas, obteve o quarto lugar no mesmo ano em que chegou à final da Champions e ainda disputou a sério o título nacional, ficando com o vice-campeonato em 2017.

Por pior que fosse o momento dos Spurs, Pochettino não era o principal responsável por isso. O argentino, especulado em Manchester United, Real Madrid e Bayern de Munique, conseguirá dar um salto acima na carreira após a demissão desta terça. Mas, e o Tottenham? Com que facilidade conseguirá técnico melhor que Pochettino?